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Blog do Paulo Roberto Pires

Silêncio, por favor

Não sei de cor a numeralha que envolve a Bienal do Livro do Rio. Mas é coisa alta, altíssima, em termos de autores, eventos, palestras e, claro, livros. Ontem, passei 11 horas entre as estantes e fiquei com uma vontade danada de vir para casa. Para ler. Pois, obviamente, livro e confusão definitivamente não combinam.

Eis que, via Senhor Palomar, descubro um oásis na web que não posso deixar de dividir: O Silêncio dos Livros. Trata-se um blog silencioso num mundo povoado por blogs como este aqui, tagarelas. E, nas imagens que ali são postadas, fotografias e telas retratam única e exclusivamente pessoas e livros e, quase sempre, pessoas lendo estes livros.

Navegar nele dá uma paz danada. E faz pensar na solidão de Hopper quase sempre povoada por um livro, na bela Marilyn e na desgrenhada Patti Smith concentradas em suas leituras, no livro na cadeira de Van Gogh e nas mãos do Doutor Gachet, em cenas de Godard e no tocante anjo de Wim Wenders, nas mãos do profeta Zaccaria de Michelangelo ou de Corto Maltese.

Para ilustrar este início de maratona livrística, escolho este Beckett aí de cima. Entre ele e o livro há uma óbvia distância, mas eu diria mesmo que uma desconfiança. Distância e desconfiança mútuas, creio eu, e que dizem tudo de Molloy, Malone e do Inominável – do romance que ele assim batizou e da dificuldade de definir essa paz silenciosa e atordoante da leitura.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 11/09/2009 - 08:07
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Aventuras na Ilha da Fantasia

Sábado de manhã, Ipanema, sol débil, praia cheia. Lá tenho eu que me desviar da sacrossanta caminhada para buscar num sebo arrumadinho aquele livro impossível que professores de pós-gradução sempre transformam em imprescindível. Como não resisto a uma olhadinha nas estantes, lá estou eu, perdendo tempo de caminhada e sol débil com uma livrarada amarelada.

Vozes se elevam e, quando me viro, está um menino, um adolescente, negro, enorme e desconjuntado, com duas armas na mão. Diante deles um casal de senhores atônitos e, chegando pela porta da loja, um segurança da galeria, que fica a uns 300 metros do Pavãozinho.

As armas, felizmente, eram antiguidades e não deviam funcionar há uns 100 anos. Pensando bem, podem até ser cenográficas, pois faziam parte de uma mesinha temática com, acho, livros de aventura. Mas o menino está excitadíssimo:

“Como é que atirava com isso, tio? Por onde a bala sai?”. A senhora, firme, dá uma dura, mas em tom maternal: “Rapaz, não brinca com isso. Tão bonito, tão grande. Por que essa violência?”. E ela se referia a um funk que o garoto passou a cantar, em voz alta, uma letra que terminava com um tiro. Não conheço a música mas, pela baixaria, parecia um proibidão.

E a cena continua “Quando o senhor era moleque, com todo respeito, como é que as pessoas atiravam nas outras?” O senhor, marido da senhora, fica calado, como se não soubesse o que dizer. O segurança, que não era truculento, chama outro segurança. “Assaltavam assim também?”, insiste o garoto, e agora aponta a arma para as pessoas. Uma cliente que chega na loja dá um grito, pensando ser um assalto real.

O menino não correspondia aos clichês da miséria. Estava bem vestido, era bonito, educado e demonstrava uma genuína curiosidade. Mas não conseguia conter a violência que transbordava de sua fala. Chega o outro segurança e pede que ele saia. “Não vou sair não, estou aqui com a minha vó” – e fica perto da senhora. O segurança quer saber se é verdade, a senhora desmente, tentando convencer o menino a sair dali.

O discurso dele, muito caótico e perturbado, apesar do português correto e de uma certa formalidade, fantasiava cenas de filmes, diálogos de enfrentamentos. Mas, de repente, vem a frase que acaba com minha neutralidade. “Cadê o pente? Como é que as balas entram aqui?” Aí sim, era real: ele sabia, exatamente, como se carrega uma arma, supondo serem aquelas pistolas como tantas outras que pareciam fazer parte de seu cotidiano.

Uma livraria não é lugar comum para episódios deste tipo. Aliás, episódios deste tipo não são nada comuns. Tudo terminou em paz, com o garoto saindo da loja convencido pelos seguranças, que o pouparam das odiosas ameaças, de gritos ou contato físico. Relativa paz, digo, pois um silêncio terrível baixou entre todos nós na livraria, de onde procurei sair o mais rápido possível.

Esta cena e seus personagens desmontam todos os clichês de violência e paranóia da classe média carioca. A cabeça desse menino, muito louca, é uma mistura de fantasia tresloucada e da realidade mais dura. Fiquei pensando se, lendo “A ilha do tesouro”, por exemplo, sua vida não melhoraria. Seria ótimo para ele e para mim, que assim me livraria da culpa social. Mas não tem Robert Louis Stevenson aqui não. A dúvida é: cadê o pente?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/08/2009 - 13:39
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Sereníssima e existencialista

“O olhar, salvo na Riva degli Schiavoni ou na Nove Fondamenta, jamais se perde nas distâncias. Quase sempre se está no fundo de um fresta de onde se percebe uma ponta de céu plano e um fundo escuro que interrompe a dez metros o olhar. Facilmente se sofreria de claustrofobia. Aí ainda uma impressão sutil de decepção contínua (...) Dobramos a esquina na esperança informulada de que um panorama vai se descobrir, mas não, é para redescobrir uma parede a trinta metros. Caminhamos, as paredes se afastam, se estreitam, viram para um lado, viram para outro, estamos sempre prisioneiros. Em relação àquilo de que gostamos não podemos tomar distância, estamos sempre muito perto, é uma cidade para míopes.”

Esta imagem impressionante, que de certa forma resume o espírito de Veneza, é uma das muitas notas brilhantes de Jean-Paul Sartre em “A rainha Albemarle ou o último turista”. Publicados postumamente, os fragmentos escritos em 1951 deveriam formar um livro, jamais concluído, sobre a relação do filósofo com a Itália, país em que sempre passava as férias, preferencialmente em Veneza. É uma jóia de observação e uma lição, prática, das diferenças entre viajar e fazer turismo. Em tempo: a foto, minha, é de turista mesmo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 17/08/2009 - 23:24
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Um domingo com Jean-Paul e Simone

Jean-Paul e Simone estão à mesa. O ano é 1973. O restaurante, o La Coupole.  Gosto de pensar, sem nenhum fundamento objetivo para tal, que a foto de Guy LeQuerrec foi tirada pouco antes de um almoço de domingo, num fim de tarde de outono. Eles acabaram de chegar. Os pães estão intocados, os copos vazios e Sartre parece ouvir algo que Beauvoir lê no jornal enquanto esperam a comida.
Há fotos bem mais dramáticas dos dois: na rua em passeatas, caminhando no deserto, com Che Guevara em Cuba, nas caves enfumaçadas dos anos 50. Mas esta é, de longe a minha favorita: com roupas e óculos de vovôs, eles formam um casal de senhorezinhos como tantos que andam pelas ruas de Paris. Com o detalhe que, depois de eles terem se encontrado, 43 anos antes deste almoço, nenhum casal foi mais o mesmo.

Como nas melhores correspondências e diários e escritor, o que fascina nesta foto é a radical banalidade de suas vidas. Nas milhares de páginas que ambos deixaram entre diários, cartas e romances claramente autobiográficos há, inevitavelmente, a construção cuidadosa de uma imagem de transgressão. Aqui, a imagem escorre entre os dedos e o casal revela a simetria sutil de suas arestas.

Seria fácil e tentador pensar que os dois “aburguesaram-se”. Bobagem. Continuavam a viver separados e cada um havia adotado legalmente - e unilateralmente - uma filha. Neste ano, Sartre estava engajado na criação do “Libération” e Simone militava pela legalização do aborto na França. Também em 1973 Sartre sofre um segundo derrame. Só viveriam juntos mais sete anos: ele morre em 1980, ela em 1986.

Pois nesta foto o que está presente é a essência da cumplicidade. A mesa compartilhada depois de tantos anos e tantos amores essenciais e contingentes, o carinho que só é possível nas longas relações, a afinidade que vai além do evidentemente amoroso e erótico, a fortaleza impenetrável que os dois formavam – e que fizeram a desgraça dos tantos amantes que por ali passaram na esperança de separá-los definitivamente. Tudo ali, ostensivamente presente no pequeno ritual cotidiano.

Pouco depois da morte de Sartre, Simone publicou um dos mais belos livros já escritos sobre um casal, “A cerimônia do adeus”. Foi criticada por retratar a decadência física e mental do homem que virou sinônimo de intelectual e filósofo. O que se lê naquelas páginas de luto fica, no entanto, ainda mais duro quando lembro desta foto e de tudo o que ela diz.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 16/08/2009 - 14:20
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Está láaaaaaaaaa?

Foi no inverno de 2007. Era Lisboa e fazia sol. Cheguei cedo no restaurante moderno de um teatro moderno que não me lembro o nome. Esperava Inês Pedrosa, que me hospedava lá,  e nosso especialíssimo convidado, Raul Solnado.

A Inês achou muito curioso que eu tivesse vontade de  conhecê-lo. Em Portugal, Solnado é uma instituição, mas por aqui, onde ele andou muito, havia-se perdido a conexão de seu nome com o público.

Eu mesmo me lembrava do nome, ouvido aqui e ali na infância (acho que ele andou pela TV brasileira nos anos 70) e ponto. Mas o Solnado que eu conhecia era outro.

Me foi apresentado na casa de um amigo, há nem tanto tempo, aqui no Rio. Casado com uma portuguesa, fez acompanhar uns drinques depois do jantar por um disco, de vinil, com os maiores clássicos de Raul Solnado: a Guerra de 1908, a “história de minha vida”, a clínica de cirurgia plástica.  São esquetes, de no máximo dez minutos, de rolar de rir.

E a graça neles não é tanto a do texto, do humor ingênuo, mas de um grande, fenomenal e espetacular ator. Que, em geral, sempre tirava proveito do non sense, contando perfeitos absurdos de forma lógica, ponderada. O efeito é impagável.

O da guerra, postado aqui embaixo, é histórico por diversos motivos. O texto é de um humorista espanhol, mas a forma de contar é Solnado em estado puro. Que estreou o monólogo em 1961, sob Salazar e no momento em que o país era arrastado para as guerras na África.

Há dois anos, Solnado estava já debilitado e, como todo grande humorista, transparecia uma certa melancolia. Falou muito sobre o Brasil, sobre Vinicius de Moraes e António Alçada Baptista, amigo de uns amigos meus. Me deu CDs e DVDs de presente, inclusive do Zip Zip, programa de humor que também enfrentou a ditadura com desassombro e inteligência.

Hoje me chega, por e-mail, a notícia da morte de Raul Solnado. Inês lembra o nosso encontro e o  quanto ele ficou contente de ser lembrado no Brasil. Eu nem sei o que dizer. E, até agora, quando escrevo este post, nenhum jornal on-line brasileiro publicou uma linha sobre ele. Pior para nós.  

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 08/08/2009 - 13:36
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Estranha forma de vida

Este blog anda muito lusitano, mas não resisto à tentação de deixar aqui o início do magistral texto de Enrique Vila-Matas sobre Lisboa – e um medíocre porém emocionado registro fotográfico meu. Este parágrafo é o que eu teria escrito, se Vila-Matas fosse – e, como vocês já leram aqui, não o sou. A crônica completa está no segundo número da revista Serrote.  

“É preciso ver Lisboa no tempo exato de um suspiro. Vê-la inteirinha à primeira luz do amanhecer, por exemplo. Ou vê-la completa com o último reflexo do sol sobre a rua da Prata. E depois chorar. Porque, ainda que seja a primeira vez que a vemos, temos a impressão de já ter vivido ali todo tipo de amores truncados, desenlaces violentos, ilusões perdidas e suicídios exemplares. Você caminha  pela primeira vez pelas ruas de Lisboa e, tal como ocorrera ao poeta Valente, sente a cada esquina a lembrança difusa de já tê-la dobrado”.



 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 07/08/2009 - 14:54
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O Mal de Parker

O Mal de Parker acomete a todos que, julgando-se implacavelmente críticos, gastam caracteres e mais caracteres escrevendo sobre livros, pessoas, temas, filmes ou obras que detestam. Assim, desperdiçam boa parte da vida inteligente e da capacidade de expressão com objetos que não merecem seu afeto ou admiração. Pouco a pouco, dissipam seu precioso tempo a encontrar frases, idéias e imagens que divertem a platéia nas queimam-se em nome do nada.

A inspiração vem de Dorothy Parker, a implacável, que nos fez rir mas, como o Pestana machadiano, morreu bem com os homens e mal consigo mesma. Foi uma crítica de teatro admirável  - “leve um livro”, aconselhava ela aos potenciais espectadores de uma peça que odiou– e contista de primeiríssima linha,  mas passou mais de 30 anos de sua vida bebendo. Sem escrever uma única linha que valha registro.

A patologia literária foi detectada por Joan Acocella num perfil admirável publicado na “New Yorker” – e depois integrado ao livro “Twenty-Eight Artists and Two Saints”. É dela a tese de que, não por um acaso, Mrs. Parker sofreu o mais terrível dos males para um escritor: o bloqueio.

O motivo primeiro da “seca” criativa de Dorothy é, para Acocella, o alcoolismo mesmo, sendo pouco provável que viver encharcado de birita favoreça a criação de histórias e o encadeamento de frases. A outra explicação, mais sutil e interessante, é que Dottie cultivou mais suas vítimas do que suas musas. E estas cobraram um preço alto.

O principal problema do Mal de Parker é  a dificuldade do diagnóstico precoce: na maioria das vezes ele é só é detectado postumamente ou quase. Pois a arte de falar mal, disciplina a ser cultivada por toda inteligência que se preze, pode dar a ilusão de que se basta. Daí o ressentimento vira regra e os olhos do doente adquirem, aos poucos, esta inacreditável expressão de tristeza de Dorothy Parker que reproduzo aí em cima. Flagrada por Richard Avedon pouco antes de morrer, ela estava com sessenta e poucos anos e vivia sozinha numa suíte do Algonquin,  hotel que hoje estampa seus versos em guardanapos. E  oferece um pacote chamado “Writer’s block”:  quem apresentar um manuscrito inconcluso, ganha 25% de desconto.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/08/2009 - 10:36
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Livro grosso? Tô fora #prontofalei

Tenho horror a livro grosso. Ou melhor, a livro grosso que tenha sido escrito e publicado nos últimos 30 anos – Thomas Pynchon incluído.  Pois a concisão é, definitivamente, uma virtude de nosso tempo. Não que o mundo deva ser feito de Dalton Trevisan ou David Markson, mas um Ian McEwan ou um Milton Hatoum mostram com brilhantismo que o limite das 400 e poucas páginas  é sinal de bons modos literários.

Ok, “As benevolentes” bate quase mil páginas, assim como as obras seminais dos nouveaux génies Roberto Bolaño e David Lencinho Forster Wallace. Tudo caudaloso  - ou prolixo, vocês escolhem. Pessoas que respeito me dizem “vale a pena”. Eu acredito. Mas não encaro. Ou melhor, uso minha escala Hermeto Paschoal: ele tem todo o direito de fazer show de cinco horas e meia, amarradão, assim como eu tenho de me retirar quando estiver bom para mim – no livro de Jonathan Littell, por exempo,  parei nas 300 e poucas e pedi que o Arthur Dapieve me contasse o final.

Foi por esta convicção que deixei de gastar quase 50 dólares no novo livro de William Vollmann, “Imperial”.  Dele, aliás, não se poderia esperar um bonsai, exímio derrubador de baobás que é, acostumado a escrever livros quase sempre alentado e muitas vezes divididos em vários volumes. Mas neste aí, são 1344 páginas sobre um condado na Califórnia que é terra de ninguém, ou melhor, de traficantes, imigrantes ilegais, putas e  quetais. Mais para frente, ainda sai um livro com as fotos que o malucão fez nas pesquisas para o livro – que é, teoricamente, não-ficção, o que alivia bastante sua barra.

Além de não estar na minha cabeceira de leitor, livro grande é pesadelo meu e de qualquer outro editor. E, se vocês têm acompanhado os cadernos de cultura - e esta edição da Bravo! -  editor virou sinônimo de ceifador, bandido e escritor frustrado depois do lançamento deste livro de Raymond Carver expurgado das intervenções de Gordon Lish – o babado está bem contado aqui no Times e já provocou um curioso embate de editor e escritor anônimos no Prosa & Verso da semana passada.

Pois nessa onda, a New York Magazine publicou uma crítica hilária a “Imperial”, dizendo que o livro foi “editado linha a linha durante uma sessão de peiote de 36 horas de peiote pelos espíritos de John Steinbeck, Jack London e Sinclair Lewis”.  Mas o pobre responsável por botar a mão na massa foi Paul Slovak, o editor de Vollmann. Nesta entrevista,  ele diz, conformado,  que no caso de seu autor não há muito o que fazer: ele não gosta de cortar e ponto. E revela que o tijolo mandado para  as livrarias tem, na verdade, míseros 10 por cento a menos do que o original...

O literariamente correto é dizer que um livro tem que ter o tamanho que seu autor determinar. E eu até concordo. Até porque, desde que o Roland Barthes confessou que pulava trechos de Balzac, ninguém mais fica culpado em passar batido naquela descrição de 38 páginas de uma pomba andando no pátio da casa da avó. O que suspeito, no entanto, é que dificilmente a gente termine um cartapácio desses com o mesmo assombro com que encontra o sinal de infinito ao concluir a travessia do  “Grande sertão: veredas”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 03/08/2009 - 15:05
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Com vocês, o Senhor Palomar

Do Senhor Palomar sei pouco ou quase nada. Escreve num blog que leva seu nome,  é português e deve gostar muito de Italo Calvino. Seu tema é, naturalmente, literatura, que é assunto nas obras lançadas, prêmios, polêmicas, autores, vídeos e, é claro, maledicências.

O mais divertido é que o Senhor Palomar é um mistério. Em Portugal, virou uma loteria a verdadeira identidade deste fidalgo personagem. Há alguns anos, um outro anônimo, identificado como Pipi, fez furor com um blog que levava a pornografia ao estado de arte.

Mas o motivo de dedicar este post ao Senhor Palomar é contar a vocês que, pela variedade, qualidade e humor de seus comentários, vale visitá-lo. E, pelo menos para mim, tanto faz que seja escritor, violeiro, velho ou  moço. Alguém que faz campanha contra os pontos de exclamação merece eu respeito e  reverência.

(A ilustração aí em cima, de Pedro Vieira, é a indicação de que o blog do Senhor Palomar é “livre de pontos de exclamação”. Aplausos.)

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 30/07/2009 - 10:32
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Fado essencial



Não há muito a dizer de António Zambujo. Há, isso sim, bastante a se emocionar com sua música. Ele canta fados sem drama, mas com dor – o que, falado assim, parece uma destas contradições sem termos com que nos habituamos, como café sem cafeína ou bife de soja. O que consegue, é precisamente, depurar o exagero para dele extrair dela o seu fundo, o que comove.

Zambujo acompanha-se ao violão e faz-se acompanhar por contrabaixo acústico e guitarra portuguesa. Se a comparação não fosse tão bizarra, eu diria que ele é o Chet Baker de Amália Rodrigues: certeiro, exato, econômico. Não faz assim para desmerecer o trágico, mas talvez para torná-lo mais próximo de nós.

“Outro sentido” foi o disco que saiu aqui. Em Portugal há mais dois que não conheço. Mas do que ouvi me vem a certeza de que, a delicadeza, artigo raro e nem tão cobiçado assim, ainda dispõe de alguma considerável reserva natural.

No disco, faz música brasileira soar portuguesa e vice-versa. “Nem as paredes confesso” e “Lábio que beijei” são aqui sonoridade de um mesmo país, não o da ortografia imposta e postiça, mas de um outro, unificado, aí para valer,  pela sensibilidade musical sempre à flor da pele.

Ao ouvir Zambujo e sua sobriedade, lembrei-me de Noel Rosa, que nos ensinou: “Luto preto é vaidade/ Neste funeral de amor/ O meu luto é saudade/ E saudade não tem cor”. Zambujo é isso aí: sua saudade prescinde de dós de peito e pretumes sorumbáticos. Naquele ponto  em que o mar do Leblon, hoje cinza,  encontra o Tejo, talvez ensolarado, numa discreta e intensa pororoca emocional.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/07/2009 - 13:10
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Ricos, famosos e... personagens

Estou com Vila-Matas e não abro: esse negócio de personagem com vísceras, fígado, humores e sangue é uma coisa muito da nojenta. Já que não acordo razoável sobre o que venha a ser realidade, melhor viver na literatura. E, convenhamos, verossimilhança não empresta verdade a ninguém: mesmo sanguinolento, o realismo sofre de uma assepsia sutil, que é a idéia de um mundo com pretensões a verdadeiro.

Renovei os votos vila-matianos ao ler, emendados (por puro acaso), “Súplicas atendidas”, de Truman Capote,  e “The good life”, de Jay McInerney. São escritores diferentes em tudo, do talento ao estilo, unidos por uma dependência excessiva da “vida real” e, também, pela pretensão balzaquiana (Capote preferiria proustiana,  mas mamão com açúcar todo mundo quer, né?) de dar conta de grandes painéis de suas épocas.

Capote (aí em cima em pose posadíssima para Irving Penn), como se sabe, sempre pagou alto imposto ao jornalismo. Alto até demais. Depois de “A sangue frio”  - e de alguns contos maravilhosos - virou personagem de si mesmo e, do enredo de gênio bebum que criou para o resto de sua vida, fazia parte um mega-romance, com a tal tonalidade proustiana. Ao que consta, de  “Súplicas atendidas” ele escreveu apenas os quatro capítulos que hoje se conhecem e que, publicados na “Esquire”, causaram um compreensível auê na época.
Capote pega pesado na pele de um alter-ego-garoto-de-programa-com-fumos-de-escritor. O garoto faz de tudo para subir na vida: sexo por interesse com velhas senhoras, sexo por dinheiro com jovens senhores, sexo com um buldogue inglês (no qual ele, digamos, “entra” apenas emprestando sua perna ao lúbrico totó). Disfarça poucos nomes e descreve cena, como o jantar em que Dorothy Parker, pra lá do quinto Martini, alisa o rosto de Montgomery Cliff e lamenta: “Pena que seja um chupador de p%i$#ca.”

Doutor Honoris Causa do Instituto Butantã, Capote encarna o que, se eu não fosse politicamente correto, chamaria de bicha má. Diverte-se com os apuros de machões adúlteros, a feiúra de intelectuais, a solidão de ricaças decadentes, os assassinos perdoados por suas boas relações sociais. O Brasil entra na dança três vezes: de nossas terras sai uma mulata interesseira e as lembranças de um garoto visto numa praia e, das dimensões continentais do país, a perfeita medida de grandeza para a mancha de sangue que uma desenxabida socialite deixa nos lençóis de seu amante por uma noite, a quem, de propósito, não avisou estar “naqueles dias”.

Lindo, não? Mas também frágil, como frágil é a pegada de Jay McInerney , também ele fascinado pelo vidão dos ricos e famosos, sobretudo os de Manhattan. No seu currículo estão a função da checador de informações na “New Yorker”, aluno de Raymond Carver e celebridade relâmpago no mundo inteleca-light novaiorquino. Casou muito e bem, namorou muito e bem, anda de Porsche e, mesmo desaconselhado por Norman Mailer (ele mesmo é quem conta), decidiu escrever “The good life”  sob o impacto na cidade do 11 de setembro.

Dois casais em dois extremos da cidade situam a ação: em TriBeCa, um editor trendy,  sua mulher advogada em crise e seus filhos de proveta vivendo num loft; no Upper West Side, um executivo em crise existencial, suma mulher perua saidinha e sua filha adolescente vivendo num daqueles tradicionais prediões da região.  A advogada em crise e o executivo em crise, é claro, se encontram, mais especificamente no Ground Zero: ele, que deixou um amigo esperando do Windows of the World,  está coberto de fuligem depois de uma noite como voluntário nos escombros; ela, que viu as torres desaparecerem de sua janela, também trabalha como voluntária.

Mas o que mais interessa são as extensas descrições do modo de vida dessa gente, os intelectuais endividados para viver como ricos, os ricos endinheirados com crises de intelectual. E tome name dropping: Paul Auster, Nan e Gay Talese, Salman Rushdie, políticos, artistas e banqueiros. Aqui não há, no entanto, o tour de force viperino de Capote: McInerney bate em quem todo mundo bate, como bem destaca Louis Menand num crítica impiedosa: para ele, “The good life”, assim como “A fogueira das vaidades” , bate mesmo é em cachorro morto ou quase, já que satirista que se preza não livra a cara de ninguém, não sabe o que é ter carinho ou simpatia por qualquer tipo de personagem.

Como eu ia dizendo, esse negócio de personagem com sangue e fígado... Não sei não...

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/07/2009 - 15:08
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A anatomia enlouquecida de Bacon

Assim como em Maiakovski, a anatomia também enlouqueceu em Francis Bacon. Ao contrário do poeta russo, ele não foi só coração, mas vísceras – aquelas que suportamos (ou ignoramos) perfeitamente enquanto são parte de nós e mal conseguimos olhar quando esfregadas em nossa cara. E em seus 82 anos ele não fez nada mais do que lambuzar-se em corpos, carnes e sangue nas telas que, quando vistas de perto, falam mais ao estômago do que ao olhar e à cabeça.

“Bacon’s arena”, documentário que foi exibido em 2005 pela BBC, ganha agora uma edição especial para marcar os cem anos de nascimento do pintor. É duca,  dos créditos de abertura aos extras, espetaculares. E é tão bom porque parte do princípio de que é impossível e inútil explicar Bacon mas, por outro lado, perfeitamente factível, e interessante, mostrar como se nutriu esta imaginação alucinada.

Bacon nasceu para ser rotulado como maldito e viveu para acabar com estes e outros clichês. São copiosas as imagens dele no documentário, em sérias entrevistas a David Sylvester (publicadas aqui pela Cosac em  “Conversações com Francis Bacon”), vaidoso como um dândi nas vernissages, decadente, velho e afetado, conversando bêbado com um amigo. É um personagem um tanto repulsivo: descaradamente manipulador, frio, sarcástico, debochado, careteiro.  É o lugar comum do gênio, que se desfaz na verdade profunda de suas telas.

Adam Low, o diretor,  mostra muito e fala pouco – o que já é bom. E, o que é melhor ainda, vai montando referências intelectuais, visuais e afetivas de bacon e confrontando-a com suas telas. Uma coisa não explica a outra mas a passagem de um foto de George Dyer, seu namorado mais constante, ao quadro por ele inspirado assombra por mostrar o rigor com que o artista filtrava estas referências para reprocessá-las.

E as tais referências são incríveis por sua variedade: touros horrendamente torturadas nas Plazas da Espanha, recortes de revistas (de uma foto de Marylin ele diz gostar do enquadramento, de uma foto de macacos ele quer aproveitar o gestual), as fotografias de Muybridge, um manual de radiologia (que ensina a posicionar corretamente os corpos diante da máquina), um tratado de paranormalidade (que documenta supostas pessoas possuídas, botando ectoplasma pela boca), Velásquez (o grande mestre), Rembrandt, fotos de amigos (ele jamais pintava com os modelos diante de si, contratava fotógrafos para documentá-los e, com as fotos na mãos, dobrava e distorcia até obter ângulos semelhantes aos de suas telas).

“Diante delas [as telas de Bacon] me vejo confrontado com o próprio mistério da pintura, o que faz com que certa obras existam, enquanto a outras conferimos apenas a existência como um objeto de mobiliário, mesa ou cadeira”, escreveu Michel Leiris, ele mesmo amigo e modelo de Bacon, numa coletânea de textos dedicada ao artista (“Francis Bacon, face e profil”, Albin Michel). Acerta na mosca.
 
Por isso escolhi para ilustrar o post este tríptico aí em cima (Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion, 1944). Foi o primeiro Francis Bacon que vi pessoalmente, na Tate Britain, e não esqueci o dia, a hora e com quem estava. Não é mole não. É um limite. Que dá medo dimensionar.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 18/07/2009 - 15:51
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Pina explicada aos adultos

Ana Clara tinha uns 7 anos quando foi ver "Cravos", de Pina Bausch. Por acaso, claro. Sentou na primeira fila do Theatro Municipal do Rio e não desgrudou os olhos do palco. O resto da sala também não, mas Aninha não era uma pequena intelectual ensimesmada. Era, isto sim, inquieta, caladona e viciada no trash da TV.

Começam a se suceder as cenas, duras, entrecortadas, os bailarinos, incríveis, se atirando naqueles cravos fincados no palco. E menina ali, parecendo um pouco assustada,  mas  ligada. Eis que de repete a cena é de uma criança que é obrigada a comer uma laranja, possivelmente azeda. Cospe, se debate.  E Ana começa a rir alto, como se estivesse no teatro infantil.

Dali para a frente, ela, para quem dança era sinônimo do "Quebra Nozes", não perdia um movimento no palco. Ria, vibrava. Até que os bailarinos começam a descer para a platéia e abraçar os espectadores. Na época, ela tinha pavor de beijo e abraço e chegou a se encolher.  Mas não fugiu. Agüentou firme. E, de pé como todo o teatro, acompanhou os bailarinos no grand finale, um estranho movimento coletivo que culminava num "auto-abraço" - e, ato-contínuo, em muitas belas crises de choro.

Ao saber da morte de Pina Bausch, lembrei de como uma menina de sete anos me ensinou a assistir àquele teatro-dança. Talvez porque Pina trabalhasse para gente assim, inteira e complexa como uma criança de sete anos.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 08/07/2009 - 15:29
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Direto, de Paraty

Ano que vem estou pensando em entrar no negócio da venda de doces nas ruas de Parati. Pois este ano tenho que trabalhar como editor, um pouco de assessor de imprensa, mediador e blogueiro-tuiteiro. Ou seja, é melhor estender a cadeia de produção logo de uma vez e faturar um trocado com bolo de milho.

Enquanto a carrocinha não fica pronta, convido todos a me acompanharem (é melhor do que "seguir", não?) no Tuíter, esse passarinho estranho e indiscreto. Aqui em baixo ficam as últimas atualizações. Mas basta ir lá na página para brincar de Big Brother. Literário, é claro.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 03/07/2009 - 11:23
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A Síndrome de Flip

Está chegando. Começo a ficar tenso, a não pensar em outra coisa. Lá vem ela, inevitável como o Natal, divertida como o Carnaval. A Flip está aí. Tenho um bocado de trabalho pela frente, recebendo autores brasileiros e estrangeiros, escrevendo aqui, mediando mui orgulhosamente a conversa de Rodrigo Lacerda com o colega blogueiro Domingos Oliveira. Mas o que me preocupa mesmo é a Síndrome de Flip.

Esta disfunção acomete todos que, ficando cinco dias isolados em Paraty, acabam perdendo princípios básicos de realidade e começando a achar natural acordar e dormir falando sobre literatura, comentando o que se discutiu numa mesa. Nada disso tem a ver com seriedade ou pose, mas com a idéia, boa demais para ser verdade, de que é possível viver numa cidade de livros, em que até um simples almoço ou jantar pode vir com pé de página – no caso, uma espera beckettiana.

A Síndrome de Flip tem outro sintoma típico: o sujeito vai ficando com uma vontade danada de ler. Descobre, a cada mesa, que precisava experimentar fulano, que é inconcebível não conhecer sicrano. E tome bolsinhas de livros – há um mês, achei uma, intacta, com dois livros de Tom Stoppard novinhos em folha.

Entre a mesa de debates e a mesa de bar também pode ser despertada a vontade de escrever. Pois é um tal de ouvir histórias, trechos de livros, discussões e leituras que o horizonte literário ganha importância saudavelmente desmedida. Por isso, muita gente até escreve o que sequer sonhava escrever.

A Síndrome de Flip é próxima do Mal de Montano. Diagnosticado pelo doutor Vila-Matas, esta outra doença literária torna impossível a distinção entre o lido e o vivido. Na Flip, não distingo mais os fatos dos escritores e consigo me lembrar, nestes sete anos de J. M. Coetzee lendo e apenas lendo, o sorriso e a dureza de Ishmael Beah, a dignidade de Eric Hobsbawm, Vila-Matas (ele mesmo) recitando Fernando Pessoa em espanhol, Miguel Souza Tavares lembrando a morte da mãe, Sophia de Mello Breyner, com um trecho das “Memórias de Adriano”.  Ou ainda a cumplicidade ente Nadine Gordimer e Amos Oz e o furacão Christopher Hitchens.

Num destes anos, não me  lembro qual, a argentina Beatriz Sarlo, atrevidíssima, ironizava que Paris é o paraíso dos intelectuais: quando eles morrem, vão todos para lá. Se Paris é mesmo o Paraíso, Paraty é o purgatório: vamos ficando por lá, esperando o que nos toca: Boulevard Saint-Germain ou 28 de Setembro.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/06/2009 - 12:06
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Flip

A Síndrome de Flip

Está chegando. Começo a ficar tenso, a não pensar em outra coisa. Lá vem ela, inevitável como o Natal, divertida como o Carnaval. A Flip está aí. Tenho um bocado de trabalho pela frente, recebendo autores brasileiros e estrangeiros, escrevendo aqui, mediando mui orgulhosamente a conversa de Rodrigo Lacerda com o colega blogueiro Domingos Oliveira. Mas o que me preocupa mesmo é a Síndrome de Flip.
Esta disfunção acomete todos que, ficando cinco dias isolados em Paraty, acabam perdendo princípios básicos de realidade e começando a achar natural acordar e dormir falando sobre literatura, comentando o que se discutiu numa mesa. Nada disso tem a ver com seriedade ou pose, mas com a idéia, boa demais para ser verdade, de que é possível viver numa cidade de livros, em que até um simples almoço e jantar vira uma experiência estética – no caso, uma espera beckettiana e nada agradável.
A Síndrome de Flip tem outro sintoma típico: o sujeito vai ficando com uma vontade danada de ler. E até de escrever. Pois é um tal de ouvir histórias, trechos de livros, discussões e leituras que o horizonte literário ganha importância saudavelmente desmedida. Por isso, muita gente compra livros que jamais imaginou comprar. E até escreve o que sequer sonhava escrever.


A Síndrome de Flip é próxima do Mal de Montano. Diagnosticado pelo doutor Vila-Matas, este último torna impossível a distinção entre o lido e o vivido, o que é perfeito para definir alguns momentos destes sete anos, como J. M. Coetzee lendo e apenas lendo, o sorriso e a dureza de Ishmael Beah, a indignação de Eric Hobsbawm, Enrique Vila-Matas recitando Fernando Pessoa, Miguel Souza Tavares lembrando a morte da mãe, Sophia de Mello Breyner, com um trecho das “Memórias de Adriano”.  Ou ainda a cumplicidade de Nadine Gordimer e Amos Oz e o furacão Christopher Hitchens.


Num destes anos, a argentina Beatriz Sarlo, atrevidíssima, ironizava que Paris é o paraíso dos intelectuais:quando morrem, todos vão para lá. Se isso é verdade (o que não é nada mau), Paraty é o purgatório: vamos ficando por lá, esperando que nos concedam a graça do Boulevard Saint-Germain ou do Boulevard 28 de setembro. /

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/06/2009 - 07:13
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Os Bibliólicos Anônimos

Não sou como o novo personagem de Luis Fernando Verissimo, que como ele adiantou em entrevista ao “Prosa & Verso”, nasceu cantarolando “Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer”.  Mas descobri no blog de Pierre Assouline que preciso buscar filiação urgente aos Bibliólicos Anônimos.

Todo mundo que tem vícios (aliás, alguém não os têm?) sabe muito bem de suas virtudes. Pois os bibliólicos mal tinham consciência de sua dependência quando viram a patologia retratada pela associação de editores e livreiros americanos - que, obviamente, vai pegar pesado para estimular os bookadicts.

O B.A. seria, portanto, um grupo que estimula o vício. Você chega, começa a dar seu depoimento e, pela manifestação dos demais presentes, começa a se sentir em casa, confortado. A partir dali, em reuniões semanais feitas num sebo,  você pode aprender novos rituais no consumo de livros, trocar impressões, aprender estratégias de consumo. Para facilitar a vida, seguem alguns sintomas clássicos do bibliocolismo:

1. O bibliólico, como depõe Assouline. jamais sai de casa sem ter alguma coisa para ler. Serve revista, jornal ou bula de remédio, mas o bom mesmo é um livrinho - e ajuda a passar o tempo em metrô, consultório ou fila, além, é claro, de ser ótima proteção contra chatos interativos.

2. O bibliólico não consegue passar por livraria ou sebo sem dar uma “olhadinha”. E, raramente, dá uma olhadinha sem dar uma compradinha.

3. O bibliólico sofre terríveis crises de privação. Muda caminho e chega atrasado em reunião  para comprar aquele livro fundamental. Que às vezes será lido dali a dois anos. Ou continuará fechado por outros dois.

4. O bibliólico cheira. Muito. E, proustianamente, tem lembranças associadas aos aromas dos livros. O livro francês é o do bom: quando novinho, é praticamente uma viagem a Paris.

5. O bibliólico é um ótimo negociante. Não pode ver uma oferta. Eu mesmo já comprei três exemplares de um mesmo livro de Nabokov. Um de cada vez, pensando que não tinha comprado antes. Só pelo bom preço. Ah, sim: até hoje não o li.

6. O bibliólico tem compulsão por obras completas.  Quando cisma com um autor, sai de baixo: vai comprando tudo o que pode, mesmo que dele só tenha lido um livrinho - do qual gostou muito.

7.  O bibliólico causa sérios transtornos à família. Ninguém em casa aguenta mais as sacolinhas de plástico e as caixas de papelão das livrarias virtuais. Por isso, ele costuma se livrar das primeiras andando pela rua e mandar entregar as últimas no trabalho.

8. O bibliólico é, em geral, um sujeito pacato. Mas, cuidado, pode ser muito agressivo quando alguém chega em sua casa e, diante das pilhas e mais pilhas de livros, lança a pérfida dúvida: “você já leu isso tudo?” Ora bolas, isso é pergunta que se faça?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 23/06/2009 - 07:31
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Philip Roth encontra Aldir Blanc

Nathan Zuckerman e David Kepesh chegam a um café no Upper West Side. Não se vêem há muito e, depois de contarem um para o outro suas últimas aventuras, bem mais tristes do que as habituais,  David saca do iPod um gravação de  "Nítido e obscuro". A complexidade da música de Guinga deixa Nat impressionado, mas o melhor mesmo vem quando, como na misteriosa tecla SAP usada em "Caminho das Índias", ele passa a entender a letra de Aldir Blanc: "Eu gosto mas me aperreia/ o depender de mulher. /É sempre nítido e obscuro o que se que se quer". Depois de um longo silêncio, despedem-se com um rápido aperto de mão.

Eu sei, eu sei, ando lendo muito Philip Roth. Ouvir o doutor Aldir eu sempre fiz. Mas talvez por isso minha geografia enlouqueceu e o Lincoln Center tenha ficado vizinho da rua Garibaldi, na Muda, o coração da Tijuca Profunda. É isso que dá emendar "Fantasma sai de cena" e "The dying animal", protagonizados por Zuckerman e Kepesh, com "Everyman" e "Indignation" .

São todos recentes e todos de uma fase em que a neurose "animadinha" de um "Complexo de Portnoy"  ou o delírio de "Operação Shylock" passam ao largo. Com exceção de "Indignation", são todos livros crepusculares, cheios de cânceres a espreita, com a finitude mordendo os calcanhares e partes pudendas de todo mundo. Ah, sim, "Indignation" é exceção porque o narrador já está morto. Com menos de 20 anos.

Desde que David Forster Wallace, lencinho amarrado no cabelo, enorme despretensiosa pretensão e fumos suicidas, reservou a  Roth, Norman Mailer e John Updike a farinha do desprezo de "Grandes Machos Narcisistas",  passei a gostar ainda mais do criador de Nathan Zuckerman. Sobretudo porque, ignorando ironias "inteligentes" e estilinho, ele bota para quebrar na auto-ironia e na extrema crueldade com que trata seus personagens – algo assim, mais ou menos, sei lá,  tipo parecido com a vida.

Zuckerman e Kepesh estão velhos. O primeiro usa fraldão. O segundo, mais pimpão, continua sendo o Professor do Desejo. Mas entre a linha de sombra de Conrad e Schubert, histórias da jovialidade de George Plimpton e poemas de Keats, são homens que amam as mulheres. Ou que dependem delas. Sobretudo homens que não sabem separar uma coisa de outra. E a quem importa menos ser macho ou narcisista do que entender que o Fim, com letra maiúscula e musica de fundo, está no começo de tudo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 17/06/2009 - 08:42
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Autobibliografia

Biblioteca é autobiografia. Acumular livros, estou convencido, tem menos a ver com organizar conhecimento e cultura do que com narrar, em palavras e imagens alheias, sua própria história. Cada livro, pense bem, só faz sentido por faz sentido para você. Daí que a boa biblioteca pessoal é, necessariamente, idiossincrática e “incompleta” (pois não atende a regras sobre ter, obrigatoriamente,  este ou aquele título, contemplar determinado período, país ou estilo).

Há quatro anos tento organizar a minha. Agora pareço estar perto de meu objetivo. E este desenho de vida parece também mais nítido, sobretudo quando descubro, soterrado em pilhas desorganizadas, épocas inteiras, marcadas pelos autores que insistiram em manter-se juntos.

Biblioteca  é também, ou sobretudo, exercício de memória involuntária. Tenho horror a botar nome nos livros, anotar data e lugar onde os comprei – limito-me, em alguns casos, a sublinhar algumas páginas e fazer discretas anotações. Um selo de livraria, um papel solto entre as páginas ou mesmo um simples sublinhado são suficientes para que aquele livro encontre seu lugar preciso nesta narrativa que, como poucas outras na vida, posso chamar de “minha”.

Quando ainda tinha a ilusão de que poderia separar o lido do vivido, criava critérios objetivos para a organização dos livros: poesia, ficção nacional, ficção estrangeira, artes plásticas,  etc. Hoje assumo a classificação sentimental: aqui, acima de minha cabeça, estão os autores que prezo, por diferentes motivos e que talvez não tivessem esta proximidade numa arrumação ortodoxa.

Ali no corredor, tento reunir um “dream team” da redação da New Yorker – A. J. Liebling na chefia da minha cabeça. Mais acima, está o Lima Barreto achado no lixo – no daqui do prédio, a edição da Brasiliense, de 1959, faltando o primeiro dos 17 volumes. E, do outro lado, um “Thesouro da Juventude” que já está na terceira geração da família e que guardo sem jamais ter lido. Beckett fica bem ao lado de Joyce, é óbvio, mas ainda não consegui juntar todas as encarnações de Machado perdidas por aí.

Outro dia mesmo lembrei exatamente de quando entrei na faculdade – e pegava a barca Rio-Niterói sempre agarrado num livro que comprava nos sebos do Centro, principalmente na Livraria Brasileira. Também caiu a ficha de que compro livros na Amazon desde 1998, bem como das coleções da Brasiliense que fizeram minha cabeça nos anos 80.  E do primeiro Paul Auster lido, “The New York Trilogy”, em edição da Faber, comprado em abril de 1993  - tudo isso “dito” pelo carimbo, sem data, da Shakespeare and Company.

Hoje um expressivo Obelix está diante dos solenes volumes da Pléiade e, a cada vez que olho para ele, ouço: “Estes leitores, são uns loucos!”. Juro.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 07/06/2009 - 11:06
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A matemática do destino

Tive uma grande virada na vida dos 28 para os 29. A partir do dia 26 deste mês, devo me cuidar por conta de problemas com a saúde. Nos meses 10, 11 e 12 vindouros viverei uma sobrecarga de trabalho - o que não chega a ser novidade. Nos dois próximos anos, redefinirei a vida – mas poderei ter problemas, especialmente quando passar dos 42 para os 43 anos. Aos 57, finalmente, encontrarei a libertação.

Tudo isso veio assim, como uma equação cheia de incógnitas, no meio de uma reunião de trabalho. É que de um dos lados da mesa, revelou-se um numerólogo amador – e, ao que tudo indica, um profeta profissional.

Assim como quem não quer nada, entre uma decisão e outra, fui entregando dia, mês e ano em que nasci. Ele recombinou tudo de acordo com alguns parâmetros que, é claro, desconheço, e deitou a falar, com precisão assustadora, sobre o passado. E, diante de seus acertos, passei a me preocupar com o futuro.

Não sou daqueles que não acredita em nada. Ao contrário, o meu problema é que não duvido de quase nada – o que não quer dizer, barrocamente, admito, que acredito em tudo. Resumindo: não acho que a numerologia redefinirá minha vida, mas não posso deixar de pensar como pôde ser precisa em detalhes do que passou.

O diabo é que, desde então, virei Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”. Para quem não lembra, no filme ele é um enfermeiro que somatiza tudo de seus pacientes. O fato é que, depois do recado dos números, morreu um amigo muito querido, tive sintomas de crise de hipertensão, um problema gástrico e, finalmente, descobri um conhecido entre os passageiros da Air France.

Estou fazendo e refazendo contas para ver se me situo nos próximos dias, anos, meses. Mas, tão inexorável quanto o fluxo do destino, lembrei o que estava escrito, provavelmente no dia, mês, ano e hora de meu nascimento: eu jamais seria bom em matemática.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/06/2009 - 06:35
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Grafismos de vida

Já ia escrevendo que “Retalhos” é pura literatura. Preconceito puro, pois nem literatura é sinônimo de qualidade nem uma graphic novel deste calibre precisa de uma distinção cultural para ser elogiada. Mas a história desenhada e escrita por Craig Thompson ("Blankets", no original) é uma belíssima porrada que só faz validar a tese de uma querida amiga, intelectual de primeira, curiosíssima pela diversidade de linguagens, para quem muito do que se desenha/escreve hoje é infinitamente superior do que romances, contos, novelas ou mesmo poesia.

Não vou aqui resumir como esse garoto enfrenta barras tão pesadas quanto o abuso sexual ou o formidável sentimento de culpa magistralmente construído por imagens bíblicas. É uma história sempre igual e sempre diferente: mas a grande sacada de Thompson é mostrar como, de forma mais sutil e grave, é o amor, e não o ódio, que pode destruir.

O protagonista vive oprimido por uma família cristã no Meio Oeste americano. Oprimido pela falta de dinheiro e o excesso de fé, pela crueldade típica das escolas, pela descoberta do amor – desde o início confundido com a danação. Em todos os seus passos, da infância à idade adulta – o livro tem quase 600 páginas – vive (e vivemos com ele) uma tensão permanente. Mais uma vez, Thompson passa longe do óbvio: a tensão não vem do suspense, mas da “normalidade” (que aqui leva aspas conforme aprendido com Ian McEwan, o mestre em destacar a perversiade do cotidiano). São vidas banais, dramas banais como uma separação ou a difícil convivência com crianças especiais.

O pulo do gato de Craig Thompson é, precisamente, ter também desenhado e não apenas escrito estes “Retalhos”.  Como romance, talvez chafurdasse na vala comum das histórias de formação. Como graphic novel, bem, vejam aí em cima: o personagem expressa a ternura de ganhar uma colcha de retalhos da mulher que ama “entrando” no tecido, vivendo radicalmente uma metáfora.

É assim que se desenha a vida. E que vida.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 03/06/2009 - 23:30
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Quer ver?

Não sendo eu cristão, aficcionado de Aleijadinho nem particularmente afeito ao mineirismo militante, me pergunto ao que falam tão certeiramente estes profetas de Congonhas do Campo,  vistos, ao vivo, uma única vez, há vinte anos. E reencontrados agora neste livrinho intrigante que casa fotos de Marcel Gautherot e texto - poema? memória? legenda poética? micro-ensaio?  - de Chico Alvim.

Viram? Fiquei barroco, mineiro, arrevesado, indireto, elíptico. Numa palavra, emocionado. São 44 fotos que saem do acervo de Gautherot  do Instituto Moreira Salles e são editadas pelo próprio IMS com o título “Paisagem moral”. Intriga, como intriga a imagem da “campânula de um céu/fechado a cadeado”, lembrança precisa do que me admira e incomoda naquele pedaço de Minas.

Isaías, Baruc, Jonas Jeremias, Ezequiel e Joel são perscrutados com solenidade por Gautherot -  que, afinal, fez estes registros para o Sphan, o patrimônio do Patrimônio. Mas neste olhar um tanto duro, rebatido na pedra dos profetas, na pedra da paisagem e nos cinzas do céu, trama-se a emboscada da emoção. “A sensibilidade para o estático, o imóvel, que, em verdade, só aguça a percepção do movimento cósmico em que tudo está imerso”. Bingo, Chico Alvim!

E já não sei mais o que é Congonhas, a da memória, a de Gautherot, aquela do encontro de Alvim com “o futuro cunhado”, pois assim ele se refere a Joaquim Pedro de Andrade, trabalhando na restauração de Congonhas, imerso em serenatas, engendrando “tramoias”.

No meio de tanta pedra, romeiros, cinza e olhares rigorosos dos profetas, quem em acalma é mesmo o Chico Alvim, de outro momento, de 2000. O poema “Quer ver?”  tem uma só linha: “Escuta”. É isso. Também.  

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 22/05/2009 - 08:25
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O pesadelo de Said ou “Are Baba!”

Tive um pesadelo que era, na verdade,  o pesadelo de quem eu sonhava no meu sonho mau. No meu sonho, Edward Said não tinha morrido em 2003, ainda que sua vida não estivesse fácil. Farto do reacionarismo do governo Bush, o crítico literário palestino cansou de viver nas trevas e, decepcionado também com os descaminhos da Autoridade Palestina, veio dar um tempo no Brasil.

Até aí, tudo bem. Se aclimatou logo. Encontrou bons amigos por aqui, pôde trocar muitas idéias com Milton Hatoum e Raduan Nassar, assistir concertos da OSESP e até tomar uns tragos com Christopher Hitchens em Parati, já que a enorme divergência ideológica dos últimos anos jamais o tenha afastado de um amigo fiel.

Animado para voltar a Nova York depois da vitória de Obama, Said acabou atingido não por um atentado ou pelas calúnias, com as quais estava acostumado, mas por Raj, Maya e Bahuan. Pois é, zapeando ele deu de cara com “Caminho das Índias”. E, tremelicante como uma indiana profissional,  teve certeza que, a galera por aqui não entendeu muito bem “Orientalismo”, seu grande clássico.

No livro, Said mostra através de romances, relatos de viagens e escritos vários como o “Oriente”, na forma simplificada com que é representado,  nasceu de uma invenção interpretativa do “Ocidente”. A incapacidade de enxergar a diferença radical de uma cultura, adverte ele, leva não só ao clichê, mas até mesmo às guerras.

Said estava paralisado. Elefantes desfilavam sob seus olhos em mercados coalhados de gente. Indianos falavam português com sotaque de alemão, italiano ou americano da piada. O santo nome de Ganesha era invocado em vão  - e bota em vão nisso. E, basicamente, todo mundo dançava o tempo todo. Sem ar, caiu fulminado, controle remoto na mão, quando a música de encerramento berrou na TV.  

E aí se deu conta de estar num estranho pesadelo post-mortem, pois felizmente não havia sobrevivido para ver a novela. Um pesadelo que eu sonhava e que também me fez despertar. E descobrir que meu nome não é Edward, nunca dei aulas em  Columbia e, sim, acabo acompanhando, porque gosto de novela, o destino daquela gente fazendo dancinhas em figurinos que, pela variedade, já garantiram faturamento do ano da Casa Turuna.

Are Baba!

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 17/05/2009 - 07:23
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Ele não é Auster, no soy Vila-Matas

“No soy Vila-Matas”.  É o que venho repetindo depois de ter lido “Ella era Hemingway, No soy Auster”, livretinho (32 páginas!) em que Enrique Vila-Matas fala, principalmente,  de sua identificação com o escritor americano. Vinha adiando o assunto, mas quando vi que os dois se encontraram no Pen Festival, em Nova York, e que numa foto Vila-Matas tem na mão o tal do livrinho, achei melhor ir em frente. 

Pelos motivos óbvios e evidentes, não me compararia a Vila-Matas como ele se compara a Auster. Mas passei a repetir o mantra para esconjurar o espanto de encontrar entre as referências dele algumas das mais idiossincráticas que tenho – e também de ter assimilado como “minhas” algumas que eram finalmente “dele”.

Comprei meu primeiro Vila-Matas em Barcelona, em 2002, chamado pelo título, “Bartleby  y compañía”. Meu então chefe, editor e catalão, torceu o nariz: muito intelectual, dizia ele, para quem o grande escritor contemporâneo era um amigo seu, Roberto Bolaño.  Que também vivia em Barcelona e, por sua vez,  era amigo de “Enrique”.

Pois, a partir daí, e sempre com incômodo, passei a identificar em seus livros nomes e universos que me eram familiares: Walter Benjamin, Paris, a preguiça de ir ao cinema, Sophie Cale, Auster, Lisboa, Fernando Pessoa,  a bebida (e a distância dela), a mistura de ensaio com ficção, Marcel Duchamp, Marguerite Duras,  Christian Bourgois (a editora e o editor), o fado.  Muitos deles concentrados em “História abreviada da literatura portátil”.

Em 2005, na Flip, impressionei-me com a timidez de Vila-Matas.  E, a cada página de “O Mal de Montano”, que comecei e parei naquela época, tive aquela sensação, meio boa,  meio desagradável, de que boa parte daquilo que ali estava falava diretamente a mim.

Me convenci de que os “doentes de literatura”, ali descritos em exagero, eram meus pares: uma dificuldade terrível de separar o lido do experimentado, o vivido do escrito. Mais tarde, convidado a falar num grupo num grupo de psicanalistas carioca, a Letra Freudiana, propus que o Doutor Vila-Matas fosse um co-terapeuta do Doutor Lacan para cuidar de meu caso – já que, num ciclo em que artistas e escritores falavam sobre sua criação, eu falei sobre minhas não-obras reunidas graças à dificuldade extrema de escrever ficção.

Esta noite, que parecia saída de um livro de Vila-Matas, “Estranha forma de vida”, rendeu previsíveis associações livres, umas boas risadas, novos leitores para Vila-Matas e, pessoalmente, uma volta à ficção. Uma volta dura, difícil e, também, estimulante sete anos depois de ter publicado um romance. E uma volta impregnada pelo que nem é uma “influência”, no sentido tradicional da palavra, mas um exorcismo mesmo desta influência.

Pois, já com a mão na massa, cercado por livros de Vila-Matas, ruminando, recontando e distorcendo suas referências, recebo um inesperado convite para ir a Paris.  Onde estivera pouco antes por um mês, quando, de férias,  li o “Doutor Passavento” e visitei um de seus cenários, o Hotel de Suède, na rue Vaneau, rua onde viveram André Gide, Saint-Éxupery, Emmanuel Bove e até Karl Marx.

Recebi um e-mail com a programação – era uma visita oficial – e o hotel, em Montaparnasse.  Literalmente na véspera do embarque, recebi um aviso de que seria transferido para... o Hotel de Suède.

O hotel, que hospeda habitualmente escritores, quase sempre da editora Christian Bourgois, é pequeno e pouquíssimo funcional. Na micro-recepção, tratava de preencher a ficha quando percebi que outro hóspede esperava, perto de mim.

Era Enrique Vila-Matas.

Deixei malas no quarto e saí meio desnorteado com mais esta coincidência. Fui andando, meio a esmo,  até a Écume des Pages, uma das minhas livrarias preferidas. Lá, as coisas se esclareceram: Vila-Matas vinha a Paris lançar “Exploradores de abismos”, seu último livro, que eu já tinha lido.

Achei engraçado também que estivesse sugerido pela organização da viagem que visitássemos uma exposição de Sophie Calle, a fotógrafa que mistura imagens e textos e, assim como Vila-Matas, costuma usar sua própria vida como material para suas obras.  Calle aparece em “Exploradores do abismo” por ter proposto a Vila-Matas que ele escrevesse uma narrativa para que ela vivesse segundo suas palavras em um obra-performance – exatamente como ela fez com... Paul Auster, que, em "Leviatã",  a transformou em personagem, a artista Maria Turner.

Em “Exploradores do abismo”, Calle-personagem encontra-se com Vila-Matas-personagem no Café de Flore, que fica ao lado da Écume des Pages. Já estava achando um excesso de coincidências e, por uns três dias, ao encontrar  o escritor no café da manhã, acreditava estar vivendo numa narrativa bizarra.

Pois esta mistura de livros e pessoas teve um arremate, saído da imaginação de  um ficcionista: no último dia da viagem, inesperadamente, fui apresentado a Sophie Calle, sondando-a para vir à Flip. E, juntos, falamos sobre o livro de Vila-Matas e de como ela havia virado personagem de novo – desta vez de forma mais realista.

Uma semana depois, já de volta ao Brasil, Vila-Matas escrevia no "El País" sobre a viagem a Paris e sobre como acontecem coisas estranhas com ele quando fica hospedado no hotel de Suède. A mim também, pensei, mas como não sou ele, guardei para mim a série de coincidências. Típicas, aliás, de um romance de Paul Auster.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 04/05/2009 - 22:20
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Alta ansiedade

Se a senilidade ortográfica é um mal tão brasileiro quanto pouca saúde e muita saúva, a ansiedade de informação é doença global – como ameaça a gripe suína, que por algum motivo estranho não dá em porcos. É preciso um rivotril epistemológico para segurar o peito depois de uma navegada pela web e constatar que, pior do que muito lixo, a rede é depósito de muita coisa que interessa.

Por isso fico teeeenso  como uma figura de Munch ao descobrir um blog como o Idea of the Day,  iniciado pelos editores da seção Week in Review do “New York Times” (acesso mediante aquele cadastro chatinho mas muito útil). A idéia é simples: (quase) todos os dias a equipe ( que se auto-denomina “generalista” e bota generalista nisso)  escolhe coisas interessante que leram por aí. Comentam, fazem o link (já ia digitando “linkam”, mas acho que assim também já é demais) para a dita cuja e relacionam logo abaixo alguns outros textos de interesse. A idéia é que todo mundo comente.

Olha, nem precisa comentar. É assunto para todos os gostos. Marx previu a crise mundial? Por que Chaves deu “As veias abertas da America Latina” de presente a Obama? A pornografia é o novo tabaco? Que tal fazer em caixões em casa e economizar na hora de enterrar o ente querido? Os leitores digitais vão ou não tomar o lugar do livro? Nós sabemos ler gráficos?   

Eis que, em um dos posts, vejo a discussão: a internet está nos tornando estúpidos? Taí uma boa pergunta, mas não dá para responder porque estou aqui intrigado em saber se nossa mente é realmente igual a um computador. Pois é. Alguém tem aí um rivo?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/04/2009 - 07:54
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Em uma rua de Londres, o destino do livro

São duas vitrines, no mesmo lado da Charing Cross Road, separadas por poucas transversais: mais no início, perto da Trafalgar Square, a Murder One, especializada em livros policiais; mais acima, em frente ao Soho,  a Blackwell, lojão (de fato excepcional) que se orgulha de ser a livraria preferida Dela, a Rainha. Entre as duas, uma pequena e cruel crônica do destino do livro.

Passei uma semana em Londres, na Feira do Livro. No primeiro dia na cidade, tirei a primeira foto, em que a Blackwell anuncia “um novo capítulo na edição” com o sistema de livros sob demanda, que podem ser encomendados na loja. No último dia, depois de um jantar com dois jovens editores brasileiros, tirei a segunda, em que, não sem melancolia e exagero,  a Murder One diz “ter sido forçada a fechar devido à concorrência da internet”.

Seria fácil ver entre as duas o assassinato de um livreiro independente, “à moda antiga”, por uma grande marca e seu poder tecnológico. Mas o que se passa ali, na rua que é um lugar santo para quem gosta de livros, é o lento e inexorável correr do tempo, com sua dolorosa corrosão sobre nossos hábitos mais banais.

Fico imaginando um fã de livros policiais, radiante, depois de conseguir encomendar, sob demanda, um livro que julgava esgotado há muito. Feliz da vida, ele sai da Blackwell e quer contar a alguém que compartilhe com ele a mesma paixão, sobre como preencheu aquele buraco em sua biblioteca. Mas este amigo era o vendedor da Muder One, que conhecia este mundo tão bem quanto ele. Melancólico, pega o metrô e vai para casa, sem saber muito bem o que achar disso tudo.

Este leitor que imaginei sou eu, todo mundo que trabalha com livro e você, que está aí diante do monitor. Mixed feelings. Não há expressão em português tão concisa e sonora quanto esta para traduzir o confronto com um mundo que ganha em eficiência e perde em encanto, racionaliza e soluciona necessidades pragmáticas minimizando outras, intangíveis – e ao mesmo tempo tão palpáveis, como testemunha a loja vazia da Murder One.

Provavelmente não foi apenas a “concorrência da internet”, com sua guerra de preços baixos,  que matou a livraria. Não se sabe também se começa “um novo capítulo na edição” com o sistema de impressão sob demanda – que de acordo com os pedidos pode produzir um ou mil exemplares, acabando com as idéias do “livro esgotado” e do “encalhe”. Mas tanto um quanto outro têm motivos para enfatizar seu fim ou, quem sabe mesmo, sua salvação.

Depois de dias de trabalho duro, mergulhado na enxurrada de lançamentos para os próximos dois anos, tive a sensação de que a melhor resposta para a pergunta mais feita na feira – “como está o mercado?” – estava ali, na calçada da Charing Cross. Talvez por isso, para não esquecer, eu e os dois outros editores fizemos fotos – e deve ter sido estranho para quem passava ver flashes espocando em frente à vitrine apagada de uma loja vazia.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/04/2009 - 10:49
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A velhice ortográfica

O acordo ortográfico é a derradeira e cabal prova de minha decrepitude. Faz a vista cansada e as dores nas costas parecerem um ressaquinha passageira. Entrei, inapelavelmente, para aquele time de velhos (assim eu os chamava) que jamais se entenderam com as  mudanças ortográficas e, no meu tempo, botavam acento em ôvo (êpa, o corretor ortográfico já chiou). Agora, hélas,  é minha vez de experimentar o melancólico analfabetismo geracional.

Tenho desaprendido muitas coisas nos últimos anos – como, por exemplo, a dirigir – mas escrever errado é punição severa demais para meus pecados neste mundo. E me descobri estropiado ao espantar-me com (supostos) erros em um livro – objeto que, a exemplo de maços de cigarro, são fabricados agora com uma advertência: “texto segundo as novas normas, etc...”. Falta avisar que seu consumo provoca uma confusão mental daquelas.

Lamento-me, bem sei, e isto é próprio da decrepitude recém-contraída (terá hífen?), mas é duro abrir mão de acentos e sutilezas. Do trema não sinto falta, para os hífens faço que nem-te-ligo, mas os acentos são duros de abandonar.  E, sinceramente, acho que ideia assim, sem acento, só pode ser de jerico.

Penso, logo desisto, em assinar uma gigantesca petição, que já bate quase 200 mil adesões, contra o Acordo. Foi puxada em Portugal, país cheio de deliciosos barroquismo ortográficos agora ameaçados por esta Bauhaus decaída e sem inteligência da língua funcional.  Mas nunca fui de manifestos e não vai ser agora que vou acrescentar mais este anacronismo à minha expressão descompassada da novilíngua.

Torço para aprender por osmose e, confesso, um dia escrever escorreitamente do jeito que os jornais nos dão o exemplo. Sob pena de o João Gabriel me demitir deste blog porque fiquei veio. Quer dizer, véio. Aliás, decadência tem acento ou não?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 16/04/2009 - 08:14
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O blog dos escritores: Edmond & Jules de Goncourt

Nós estávamos falando do prazer que alguém sente quando acredita em si mesmo de forma insana, exagerada e infantil. Isso fez com que Zola lembrasse de ter visto Courbet diante de um de seus quadros, cofiando a barba, dando gargalhadas e dizendo: “Este é um quadro muito engraçado...” A palavra engraçado, na boca do moderno Joaens, significava sublime.

Os irmãos Goncourt em 14 de abril de 1878

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 14/04/2009 - 19:45
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Bud Shank, R.I.P.

Numa madrugada de sexta para sábado, em novembro de 2006, cheguei em casa direto para o computador, para conferir se o cara que eu tinha acabado de assistir ao lado de João Donato, no falecido Mistura Fina, tinha mesmo seus 80 anos. Bud Shank tinha quebrado tudo no primeiro dia da série de shows que virariam o DVD gravado no Rio com o maior pianista brasileiro.

E olha que o dia tinha sido difícil para ele: problemas com conexão e bagagem fizeram com que Shank subisse ao palco praticamente direto do aeroporto. Mas ele e Donato se entendiam telepaticamente, como rolou naquela mini-temporada carioca – e no emocionante reencontro dos dois,  que num Chivas Jazz na Marina da Glória, em 2004,  reviveram a época em que tocaram juntos nos anos 1960.

O vídeo aí em cima é daquele fim de semana, com direito a conversa entre os dois e uma abertura apoteótica de “Manhã de carnaval”. Este não é, definitivamente, um solo de quem tem 80 anos.

No obituário do “New York Times”, a viúva da Shank conta que, um dia antes de morrer, na quinta-feira passada, o músico foi advertido por seu médico que não deveria ir a uma gravação. Mas ele, claro, foi ao estúdio.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 09/04/2009 - 08:34
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O blog dos escritores: Conselheiro Aires

(Ok, o Conselheiro Aires é um personagem de Machado de Assis. O Memorial de Aires é um diário ficcional. Mas, ao escrever, não estamos sempre inventando? Mesmo que o gênero seja “intimidade”, com tiragem de um único exemplar?)

Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia. Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor.

Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha mesa, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que ele chegue, virá a troça dos malévolos ou simplesmente vadios.

Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente certa feição de espírito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para ti, se tenho vagar e quê — e pouco mais.

José da Costa Marcondes Aires, 8 de abril de 1888

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 08/04/2009 - 08:33
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Cioran se diverte

O filósofo pessimista E. M. Cioran morreria de rir. Pensando bem, o Fradinho também. O Vida de Merda inaugura a Desgraça 2.0, ou seja, você, caro internauta, “gera conteúdo” para o site que é um inventário do absurdo cotidiano.

Quando sua história é publicada, depois de filtrada pela equipe, os visitantes voltam em duas alternativas: “É... sua vida é uma merda” ou “Você mereceu”. Ou seja, não há saída.

A idéia, contam os criadores da versão brasileira, vem da França , terra chegada a filosofias pessimistas, à “merde” como interjeição e a livros (já fizem um com as melhores histórias do site). Já proliferou também nos EUA,  com o F**** My Life . Todos têm design igual e um objetivo único: mostrar como nossas vidas podem ser, digamos, uma merda mesmo.

Sintam o clima, aqui e lá fora:

“Hoje esqueci meu celular no carro da minha namorada. Amanhã,ela vai te descoberto que eu tenho uma amante e falo mal dela por mensagens SMS.”

“Hoje, eu mandei scrap para mim mesma no Orkut com outras contas para fazer todo mundo acreditar que eu tenho amigos.”

“Hoje minha filha viu uma mulher que cuida da sessão infantil da biblioteca, gritou: ‘Mamãe’! e lhe deu um abraço. A mulher disse: ‘Eu não sou sua mãe’. E minha filha respondeu: ‘Eu sei, mas você é melhor que mamãe’.

“Hoje na rua um garotinho apontou para e gritou para mãe: ‘Olha, mãe, é o Sarkozy!”

Cada lamento, pungente, é encerrado por um refrão: “VDM”.

Confesso que me viciei. Não exatamente com a desgraça alheia, mas em listar as minhas próprias. VDM.    

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 07/04/2009 - 12:50
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Sassy & Simonal

TV Tupi, 1970. Wilson Simonal, no auge, incendeia uma platéia com “Happy Day”.
Brinca, dança. Recebe, sem deferências excessivas, Sarah Vaughan, àquela altura uma das mais importantes cantoras do jazz.
Ela é a convidada, brinca de conversar em inglês e português e, com seu anfitrião, arrasa em “The shadow of your smile”.
Só vendo.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 04/04/2009 - 13:40
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Dear Mr. Orwell,

Um editor tem pelo menos dois pesadelos recorrentes: rejeitar um original que torna-se um best-seller ou, o que é pior, recusar uma obra decisiva. T. S. Eliot foi capaz de ver à frente da poesia de seu tempo mas, talvez pressionado pelo momento histórico,  preferiu não enxergar o óbvio: que “A revolução dos bichos”, de George Orwell, era, pelo menos, um livro importante.

Em meio à pesquisa para um documentário que a BBC prepara sobre   poeta de “A terra devastada”, sua viúva, Valerie, tirou do baú a carta com que Eliot, então editor na Faber, argumentava a falta de propósito em publicar a fábula sobre o stalinismo que correria o mundo.

“Não temos certeza de que este é o ponto de vista correto para criticar a situação política dos dias de hoje”, escrevou Eliot, que apontava algumas falhas de lógica numa narrativa (os porcos que governam a fazenda são, segundo ele, efetivamente mais inteligente do que os outros animais, enfraquecendo o questionamento sobre seu abuso de poder) que a seu ver não era “convincente”. Na época, 1944, Inglaterra e Univão Soviética eram aliados e, de forma óbvia, esta situação reforçou a posição de Eliot.

Ano passado, a Universidade de Austin, no Texas, comprou os papéis da Knopf e, dentre eles, havia um parecer histórico: um anônimo não aconselhava a publicação do “Diário de Anne Frank”, que achava tolo e inoportuno no imediato pós-guerra. Pois, é acontece – não nos esqueçamos que Paul Auster teve sua “Trilogia de Nova York” recusada 17 vezes. Isso mesmo, 17.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 02/04/2009 - 16:35
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O blog dos escritores: Cesare Pavese

“No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Porque nós o seguimos tendo consciência daquilo que no fundo nos é permitido realizar. Por mais tentações que tenhamos, nunca erramos nisso. Sempre agimos de acordo com o destino. As duas coisas são uma só.

Quem erra é quem não compreende ainda seu destino. Ou seja, não compreende qual é a resultante de todo o seu passado – que indica o seu futuro. Mas, compreenda-o ou não, indica-o do mesmo modo. Toda vida é exatamente aquilo que devia ser".

C. Pavese, 31 de março de 1946

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 31/03/2009 - 08:34
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A obrigação moral de ser inteligente

O que é um serrote? “Um arabesco delicado e paradoxal de dentes pontiagudos dispostos em única fileira sobre material rijo ou flexível. De aplicação extremamente variada, serve, antes de outras, para a manipulação de mentes doentes em noites acordadas, quando se debatem com os déficits morais de suas patéticas existências”.

Esta mente que vos bloga, doentinha que ela só (mas de leve, por favor), não chegou a se debater uma noite com o objeto descrito por Chico Alvim. Mas não foi fácil sonhar tranqüilo depois do recado Kafka: “Do adversário de verdade flui uma coragem sem limites para dentro de você”. Este aforismo, traduzido no Brasil pela primeira vez por Modesto Carone, assim como o verbete espetacular do poeta mineiro estão na “serrote”. Isso mesmo, no feminino.

Revista com jeito de livro, nos moldes da “Granta”, a publicação do Instituto Moreira Salles traz, no nome, referência à “Idade do serrote” de Murilo Mendes e, no corpo, um playground de provocações, histórias e idéias. Privilegia, como propõe o editorial, o ensaio, de preferência livre da tralha acadêmica.  Tem Robert Darnton sobre o Google Books,  Carlo Ginzburg sobre o “Marat” de David, carta de Mário de Andrade para Ottolararesende, fotos espetaculares de Pancetti por Marcel Gautherot, um dossiê de desenhos inéditos de Saul Steinberg (os gatos que ilustram este post dispensam  maiores comentários)  e por aí vai.

Por aí aonde? Pois é, a “serrote”  é desorientante. Por isso é melhor nem tentar descobrir a vizinhança, concreta, entre Edmund Wilson e Nelson Cavaquinho,  Mencken e Tostão. Pois talvez ela esteja no que Lionel Trilling, um santo a ser entronizado no credo serrotista, chamava de “a obrigação moral de ser inteligente”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/03/2009 - 21:14
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Woody Allen, Madoff e as lagostas

Apesar do fato desagradável de ter nascido, vivido o suficiente para ficar milionário às custas dos outros e continuar impune (ainda que tristemente confinado em sua penthouse duplex), Bernard Madoff deu sua única contribuição positiva ao mundo: virou personagem de Woody Allen. Na “New Yorker” desta semana, Allen conta como duas das vítimas do megaespeculador vingaram-se dele num restaurante de frutos do mar em Manhattan.

Este mês a “Vanity Fair” publicou uma longuíssima reportagem sobre  as vítimas do escroque. Mark Seal, ele mesmo um insider que quase perdeu tudo no esquema de Bernie, conta histórias horrendas de viúvas, herdeiros e velhinhos que, pra lá dos 70 anos, estão tendo que vender casa e dizer adeus à uma aposentadoria razoável.

Abe Moscowitz e Moe Silverman poderiam ser personagens de Seal, se não tivessem morrido e... reencarnado em lagostas. O primeiro, enfartou quando descobriu que aqueles números maravilhosos, “bons demais para serem kosher”,  eram ilusão; o segundo, que chegou a recortar uma foto de Bernie e substituiu pelo rosto de sua mulher no retrato de casamento, pulou do terraço de um clube de golfe em Palm Beach depois de esperar um hora – “eu era o 12o na fila”, explica ele.

Ambos lamentam sua sorte – um professor de Yale que conhecem, fulminado por um derrame, voltou como hamster  - no aquário de um restaurante da Terceira Avenida, para onde foram levados depois de terem sido capturados na costa do Maine.  E preparam uma terrível vingança.

Mais não conto. Aqui vocês lêem na íntegra o conto. E aqui, a reportagem da VF. Depois me digam a que é mais realista. Para mim as lagostas ganham. Disparado.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/03/2009 - 07:25
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A mais completa tradução

Ando com saudades de São Paulo. Ando agarrado com  Paulo Vanzolini.  Foi com ele (e bons amigos) que aprendi a ver o outro lado Ponte Aérea na qual vivi quase dois anos. Aprendi muito com “Longe de casa eu choro” (com Eduardo Gudin): “Longe de casa eu choro/E não quero nada. /Que fora do chão/Ninguém quer nem pode nada. /Sinto falta de São Paulo/De escutar na madrugada/Uns bordões de violões, /Uma flauta a chorar prata”.

Não estou nem aí se nada isso se compara com a cidade de hoje. Esta São Paulo é a real porque é a da minha cabeça, é a de me emocionar em ouvir a Fabiana Cozza pela primeira vez, no Ó do Borogodó, e lembrar da Márcia, uma cantora que é cara de São Paulo. E do Vanzolini.

(O João Gabriel de Lima grita virtualmente: “Cadê o gancho, porra?”)

Estou agarrado com Vanzolini desde que achei, sem querer, “Onze sambas e uma capoeira”. É a edição em CD do disco que Marcus Pereira lançou em 1967, o primeiro a mostrar ao mundo que o “cientista boêmio”, como Antonio Candido gosta de chamá-lo, era mais, muito mais, do que “Ronda” e “Volta por cima” – como se alguém que tivesse feito estas duas precisasse de mais.

Parte dos arranjos é de Toquinho (outra de Antonio Porto Filho) e um amigo de infância de Vanzolini pontifica no disco: Francisco Buarque de Holanda, que conhece o mestre desde criancinha e, um ano depois de “A banda”, canta aqui “Samba erudito” e “Praça Clóvis” do jeito que melhor sambista-zoólogo do planeta gosta: misturando ironia e romantismo, humor e amargura.  Ou seja, nada estranho ao que o próprio Chico faria nos 41 anos seguintes. (Cristina Buarque também participa do disco, em sua primeira gravação, de “Chorava no meio da rua”.)

Dois trechos:

“E então, como Churchill/ Eu tentei outra vez/ Você foi demais/ Pra paciência do inglês/Aí, me curvei/ Ante a força dos fatos/Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”, diz o “Samba erudito” depois de o sujeito tentar tudo para ganhar a mulher que “põe um preço tão alto/ na sua beleza”.

“Sem saber/ O que o dia de manhã nos traz,/ Sem querer relembra/ O que ficou pra trás,/ Pode ser/ Que a gente assim padeça mais./ Pode ser,/ Mas que diferença faz?/ Vida comprida e vazia/ Dias e noites iguais./ Morte é paz”. Sem comentários.

O primeiro poderia ser de Noel. O segundo, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Mas são de Paulo Vanzolini, que faz 85 anos mês que vem. E é um mundo inteiro a se explorar.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/03/2009 - 22:41
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O blog dos escritores: Adolfo Bioy Casares




Report on experience: Dividir uma mulher? Por que não? O que é realmente desagradável é dividir um banheiro”


A. Bioy Casares, 23 de Março de 1985


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 22/03/2009 - 22:59
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Viajando com o Rei



Na terça-feira passada, Nat King Cole teria feito 90 anos. Morreu quase um mês antes  de completar 48, em fevereiro de 1965. Durante muitos tempo foi para mim o sujeito cafona, de chapeuzinho de tweed, cantando “Quizás, quizás, quizás” e “Cachito” com um sotaque quase cômico no “Nat King Cole Latino”, disco  que minha mãe ouvia muito. 

Depois descobri que aquele disco era uma coletânea de três outros que ele havia gravado em espanhol e que, por sua vez,  não eram exatamente o ponto alto de sua carreira. Que ele era um charme total. Um grande pianista de jazz. Um grande cantor, em qualquer gênero.  O primeiro negro que fez as americanas suspirarem como só o faziam por Sinatra ou qualquer outro branco num país atravessado pelo racismo. O cara que sacou “Nature boy” – e que Caetano Veloso apresentou à minha geração com sua gravação em “Luz do solo”.

Nat King Cole é um ideal perdido de cantor popular por partir do princípio básico de que popular não é sinônimo de lixo, por não subestimar a sensibilidade e a inteligência do público. Por isso pôde ser tanto o cantor romântico de “Unforgetable” quanto o pianista do trio, absolutamente genial, que levou seu nome. Este ideal é, obviamente, o de uma época – mas poucos o incorporaram tão perfeitamente.

Dois dos artistas que reavivaram a paixão pelos standards  nos anos 90 inspiraram-se declaradamente nele. “All for You: a dedication to Nat King Cole Trio”, é o terceiro e o melhor disco de Diana Krall (1996), que antes de virar muzak se mostrou ali um grande pianista. John Pizzarelli, que de vez em quando está dando uma canja aqui na Livraria Argumento,  dedicou dois álbuns ao mestre: “P. S. Mr. Cole” (1999) e “The rare delight of you” (2002), este uma preciosidade por reeditar com George Shearing, em pessoa, o disco de 1961 “Nat King Cole sings/George Shearing plays”.  O muderníssimo (ou cafonérrimo, depende do ponto de vista) Wong Kar Wai também botou Cole para cantar “Aquellos ojos verdes” e “Quizás” na trilha do cabecíssimo (ou chatíssimo) “In the mood for Love”.

Em 1959, Nat King Cole, no auge da fama, esteve no Brasil como parte de uma turnê por seis países latino-americanos, surfando na onda de seus estranhos discos em espanhol. Nas 438 páginas da biografia dedicada a ele por David Mark Epstein, a passagem por aqui ocupa exatas quatro linhas, dando conta de um encontro do cantor com Juscelino Kubitscheck.

Semana passada, uma edição do Aquivo N, pilotado na Globonews pela Cristina Aragão, mostrou cenas emocionantes de Nat cantando para um Maracanãzinho lotado. Foi o show popular no Rio, que também inclui apresentações no Copacabana Palace e, ao que parece, ouvi falar ou pirei, também no Tijuca Tênis Clube.  Em entrevista ao “Los Angeles Times”, Carole Cole, sua filha, que co-produziu um disco de remixes sobre sucessos do pai, lembrou o clima da viagem: “Era como se toda a população do Rio de Janeiro tivesse se juntado para recebê-lo e jogar rosas a seus pés”.

Fico imaginando o que esta visita não despertou no Rio de Janeiro de 50 anos atrás, que se acreditava vivendo “Anos Dourados”. E posso imaginar alguns casais verdadeiramente apaixonados e encantados, outros entediados e eventualmente adúlteros, nas mesas do Golden Room ou, vindos de lotação, dividindo as arquibancadas do Macanãzinho. Também não é difícil pensar nos jazzófilos, em busca do improvisador que certamente foi ofuscado ali pelo ídolo pop. E voltando a ouvir o homem para escrever este post, fico por aqui. Pois no ano em que estou neste exato momento, ainda não existia a internet. E, para ser sincero, nem mesmo eu existia.

Aí em cima, Nat mandando ver em "Route 66", quebrando tudo. Aqui em baixo, romanticíssimo, em sua versão, campeã, de "Stardust".

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 20/03/2009 - 07:17
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A polícia estética

Meninos, eu vi. Uma revista da qual não lembro o nome, destas metidas a “sofisticada”, botou na capa Amy Winehouse e o título: “Amy-a ou Deixe-a”. Juro. O que despertou em mim sentimentos primitivos como, por exemplo, a criação de uma Policia Estética. No meu governo, aliás, vai ter uma.

O objetivo principal desta força da ordem e da lei é resguardar nossos olhos e ouvidos da cretinice geral da nação. Serão severamente punidos aqueles que, por déficit de inteligência, preguiça mental ou puro oportunismo ignorarem os bons modos com as idéias e o bom gosto. Um serviço 24 horas, no estilo Disque-Denúncia – que não usará mensagens gravadas e proibirá o gerúndio – acolherá as reclamações e tomará as devidas providências.

Um dos principais objetivos da policia estética é coibir o uso de trocadilhos. São passíveis de enquadramento: clínicas de depilação que façam jogos de palavras com “pelo”; botecos que usem “bar” como base para batismos infames (em Frankfurt há um Bar Celona (urgh!));cantores de vanguarda paulistas que se crêem concretistas.

A brigada estética também se ocupará de restaurantes com paredes multicoloridas, garçons bonitões vestidos de preto (que não sabem manobrar bandejas e copos, função precípua do garçom), enochatos em geral (“vinho amigável, de coloração agressiva e after taste de avencas chamuscadas”) e redatores de cardápios com pendores poéticos – do tipo “espuma de berinjela trufada levemente aspergida sobre um leito de corações de alface, harmonizadas com uma redução de maracujá envolvendo carinhosamente pétalas de atum”.

São faltas igualmente graves telenovelas passadas no Oriente em que os atores falem português com sotaque de estrangeiro (qualquer sotaque) e também a transformação de verbos em substantivos – “o brincar”, “o interagir”.  O teatro em quase todas as suas manifestações também poderá ser denunciado – pensando bem, a se julgar pelo que acontece no Rio de Janeiro, há de se criar um número especial para atender a esse chamados.

No meu devaneio, a Polícia Estética funciona como Woody Allen imaginou o combate ao chatos em “Noivo neurótico, noiva nervosa”: diante de um imbecil falando coisas “inteligentes” na fila do cinema, ele chama Marshal McLuhan, que, em pessoa, desmente as teses do intelectualóide. Pois não vejo a hora de os guardas adentrarem um restaurante e multarem, impiedosamente, um recém-diplomado em “cursos de vinho”. Eu sei, eu sei, é bom demais para ser verdade.    

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 18/03/2009 - 09:03
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O blog dos escritores: Antonio Maria

“Meus pobres nervos! Está chovendo muito. Volto a ler Exupéry. Fiz 36 anos e nao aconteceu nada. Queria sentir uma mudança qualquer em mim. Uma ruga a mais, por exemplo. Uma coisa nova, bem que fosse de velhice.

Que Deus me dê tranqüilidade. Agora, quem me poderia tirar da depressão que estou sentindo? Que parente? Que amigo? E tenho a impressão de que seria fácil melhorar-me. Bastava que  alguém me garantisse uma solidariedade incondicional – assim como um pai. Alguém que fosse mais forte do que eu”.

A. Maria, 17 de março de 1957


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 16/03/2009 - 23:52
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O Homem e seu Genius

Você tem tratado bem o seu Genius? Não, não estou falando daquele brinquedo insuportável, o das luzes coloridas, que virou marca dos anos 80 e que foi o pesadelo para os que, como eu, nasceram desprovidos de coordenação motora.  E tampouco aquele, que sai da lâmpada do Aladim – mas que é uma imagem deliciosa. O Genius a que me refiro é um deus que, segundo os gregos, acompanha o homem desde o momento que ele nasce.

O mito é lembrado por Giorgio Agamben, filósofo italiano, num texto (do livro “Profanações”) que me parece perfeito para especular sobre como nos relacionamos com nossa criatividade. O paralelo que Agamben acha mais próximo da tradição cristã é a do anjo da guarda, mas este deus nada tem a ver com seres alados: o Genius está sempre em volta, faz mesmo parte de nós mas não é transcendente, superior; ele é o que em nós ainda não tem personalidade, quase um “estado” de nossa alma.

O Genius é paradoxal. Ele só existe relacionado a nós e à nossa personalidade, mas só se manifesta quando nos “perdemos” de nossa identidade. Quando, diz ele, nos emocionamos profundamente temos um momento de “perda” (de referências, de segurança) – e aí encontramos o Genius, o que nos anima de forma mais fundamental e profunda.

O Genius, prossegue Agamben, é aquilo que em nós faz exigências pouco racionais mas fundamentais, tais como, por exemplo, um caderninho específico para escrever, a escolha de canetas, papéis coloridos, etc. Uns diriam “capricho”, outros obedecem cegamente ao seu Genius – mesmo sem saber que estão fazendo isso.

Não ouvir e atender o Genius é negligenciar, em nós, o que talvez tenhamos de melhor: a capacidade de criar o novo, inventar.  Como diria a Marguerite Duras aí em baixo: uma coisa é escrever, outra é publicar livros. Esta última é mais fácil; a primeira, só alimentado este deus caprichoso.

(Aí em cima, uma representação do Genius na Roma Antiga)

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 11/03/2009 - 16:34
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O blog dos escritores: Franz Kafka

Toda semana pretendo publicar aqui trechos de diários de escritores. A regra é clara e o jogo é simples: o dia de postagem tem que ser o mesmo em que o diarista fez sua anotação. O objetivo? Nenhum. Como na boa literatura.

“Estou muito cansado, tenho que tentar descansar e dormir, estou perdido em todos os sentidos. Que esforço para me manter vivo! Erguer um monumento não requer um esforço tamanho”.

F. Kafka, 9 de março de 1914

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 09/03/2009 - 10:18
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Os silêncios de Marguerite Duras

Marguerite Duras tem o rosto devastado. A crueza não é minha, é dela, descrevendo-se assim nas páginas de “O amante” e falando a Bernard Pivot no “Apostrophes”, programa de entrevistas sobre literatura que ele apresentou por 15 anos na televisão francesa. O encontro com Duras, histórico, já saiu em DVD na França e ganha agora uma edição espanhola. É impressionante.

O ano era 1984. Marguerite Duras, 70 anos, emergia de um cruel silêncio de uma década que, nas contas dela, a crítica francesa lhe impôs. Saía, também, de um inferno de alcoolismo e um dos produtos mais diretos da desintoxicação foi “O amante”, narrativa autobiográfica sobre o seu marcante affair de juventude quando vivia em Saigon. Na França o livro vendeu 100 mil exemplares em um mês e transformou a roteirista de “Hiroshima, mon amour”, autora de teatro e cinema extremamente intelectualizados,  numa celebridade  - além, é claro,  de ajudar a divulgar sua obra, enorme, complexa, belíssima.

A entrevista é um embate entre os silêncios próprios da literatura de Duras e a eloqüência da qual o jornalista vive refém. Por isso, longas pausas pontuam as perguntas de Pivot, um craque que não tem pudores de se mostrar nervoso, aflito mesmo, com as reticências de Duras. E é impossível confundir sua dificuldade em expressar-se com qualquer tentativa de fazer gênero.  A mulher que está diante das câmeras vive, desde sempre, de um embate com a expressão e, num outro nível, com a vida intelectual francesa. “Nós, jornalistas, às vezes precisamos de rótulos”, argumenta Pivot, provocando alguns sorrisos tímidos e um pouco condescendentes.

Por isso ela comenta com cautela o sucesso. Afirma que jamais entrará para a Academia porque sua vida não está de acordo com os padrões da instuição – “Sou uma alcoólatra, não esqueça, alcoólatra que hoje não bebe mas alcoólatra”. Concede alguns elogios a Pivot – “Estou aqui, você é muito charmoso” – mas deixa o programa em suspenso ao afirmar que pouco conheceu o que é a literatura.
“Sartre, por exemplo, nunca conheceu o que é a literatura. Parece sempre que há uma motivação externa no que ele escreve”, diz ela  - e aí é a vez de Pivot ficar em silêncio, genuinamente surpreso. Duras argumenta que o embate coma escrita nem sempre é óbvio para aqueles publicamente reconhecidos como escritores. Não desenvolve muito sua tese – seu raciocínio é lacunar mesmo – mas meio que acaba com a densidade conversa.

Penso em seus livros, nas barras pesadas de “A doença da morte”, “Détruire, dit-elle” ou “A dor”. Penso nos rótulos que se aplicam a ela – “literatura da incomunicabilidade” e, como tenta Pivot, “escritora do desejo”. E concluo que há, mesmo, um ponto cego em sua obra, que acabou excessivamente marcada pelo sucesso e a eloqüência do de “O amante”.

Até morrer, em 1996, publicou outros 12 livros de memórias, adaptações de teatro, crônicas. Mas, de alguma forma e depois de assistir à entrevista, vejo sua obra como terminada ali, no “Amante”. Ou, melhor dizendo, no momento do grande embate redentor de sua carreira e de sua vida. O resto, é livro.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 06/03/2009 - 17:21
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As compras de Burroughs e o túmulo de Pound

Deu na New Yorker: estão tentando vender, por cinco mil dólares, uma lista de compras  de Wiliam Burroughs como se fosse um manuscrito de, sei lá, “O almoço nu”.  A fetichização do escritor não tem mesmo limites. Dei um risinho superior quando li a notícia mas depois fiquei me perguntando se esta não seria uma forma caricata,  acanalhada e mercantilista, de levar a cabo um certo tipo de fascínio que, pelo menos para mim, é recorrente: a busca de pistas materiais de escritores ou até mesmo personagens.

Já me despenquei para Port Bou, na fronteira da Espanha com a França, para ver onde Walter Benjamin se matou. Chegando lá, depois de uma emocionante viagem por estradinhas-à-beira-de-precipícios, descobri que havia uma belíssima indústria de turismo benjaminiano, com direito a pôster do homem no hotel e tudo. Pois é.

Sempre penso no protagonista de “O papagaio de Flaubert”, que Julian Barnes faz penar ao ver sua vida transformada numa “Madame Bovary”de quinta e, também, viajar a Rouen em busca do psitacídeo  empalhado “autêntico” que Felicité, a criada de “Um coração tão simples”, teria em seu quarto. Neste livro, que é um dos melhores que já li sobre a mistura de vida e literatura,  Barnes defende que, por estas e outras, só se pode amar incondicionalmente um escritor; a ele, o autor adorado, se desculpa tudo pois, antes de qualquer coisa, ele é “aquele” autor.

 Em janeiro fui atrás de Ezra Pound em Veneza. Por quase 50 anos, intermitentemente, ele viveu  na cidade. Pra lá mudou-se Olga Rudge, violinista russa que foi sua amante toda a vida e ao lado de quem morreu, em 1972. As histórias de seu legado em Veneza foram contadas em detalhe  por John Berendt no livro “A cidade dos anjos caídos”, sobretudo de como seus arquivos teriam sido objeto de manobras pouco ortodoxas de americanos espertalhões que viveram na cidade.

A obsessão fez com que encerrasse às pressas uma visita à casa-museu de Peggy Guggenheim para ir atrás da casa na Calle Querini – e usar um mapa em Veneza é barra, sobretudo para um desorientado. Felizmente, a rua ficava ridiculamente perto de Miss Peggy e, como sempre acontece neste turismo bizarro, o que se encontra  é sempre um tanto decepcionante: numa casinha modestíssima, a placa indicando que “titano della poesia” viveu ali, no canto que ele chamava de “o ninho”.

Fui embora no dia seguinte, mais uma vez sem visitar a Ilha de San Michele, que é o cemitério de Veneza. Pois quem gosta mesmo destas peregrinações não perde a chance, fantasmagórica, de estar frente a frente do que restou de seu autor preferido – como já escrevi aqui sobre o cemitério de Montparnasse. E naquela ilha, além de Pound, estão Joseph Brodsky, Stravinsky, Dighaliev e outros menos votados - Peggy preferiu ficar no jardim de casa, ao lado de seus queridos chow-chows.

Na longa viagem de volta ao Brasil, vôo diurno, leio uma catalã da qual jamais ouvira falar, Nuria Amat. O livro, “Somos todos Kafka”, é  destas ficções sobre literatura que comprei sem qualquer referência  - e não me arrependi. Nas últimas páginas, ela faz microbiografias idiossincráticas de personagens reais citados. E, no verbete Ezra Pound, me deparou com uma única informação: não deixe de visitar (assim, em tom de ordem) seu túmulo em San Michele.

O susto e o arrependimento foram imediatos: foi preciso que uma catalã, encontrada por um acaso traduzida em frnacês, me dissesse no meio do Oceano Atlântico que eu deveria ter levado à frente minha idiossincrasia.  Desde então não paro de pensar numa nova viagem, para acabar de cumprir o que já é um compromisso com alguém em algum lugar, o de ficar a sós contemplando um mármore gravado no meio dos jardins da ilha cemitério.
(Aí em cima, a Calle Querini no início da noite)

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 04/03/2009 - 16:47
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E viva Darwin!

Alvíssaras. Nas comemorações dos 150 anos da Teoria da Evolução das Espécies, este blog sobe um degrau darwiniano na natureza virtual e passar a dispor de RSS. Ou seja, você pode ser avisado dos disparates aqui postados – o que é útil para que venha aqui mais rápido ou  (toc toc toc) nem perca seu tempo. Clica no laranjão ali debaixo da foto e manda ver. A gerência agradece.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 02/03/2009 - 16:15
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NYPL em casa

Em setembro, contei aqui a genial conversa de António Lobo Antunes que assisti na New York Public Library, instituição que faz lembrar (não é óbvio, como bem sabemos) que uma biblioteca, ainda mais pública, não é um monumento ou um depósito de livros.  Lobo falava dentro do “Live from NYPL”, um programa de conversas (não são exatamente debates) entre intelectuais e artistas montado com inteligência e, sobretudo, sem preconceitos.  

Agora boa parte do que rolou por lá de 2005 para cá está disponível no site da Bibilioteca, a maioria em vídeo e alguns apenas em áudio (de alta qualidade). É um verdadeiro parque de diversões,  sobretudo pela originalidade dos encontros e convidados: o filósofo-dândi Bernard Henri-Lévy discute a esquerda com Slavoj Zizek, o chef Ferran Adrià fala de sua cozinha experimental, Bill Clinton debate o racismo, o pianista Alfred Brendel conversa sobre sua carreira, Robert Crumb celebra o Dia dos Namorados com a mulher (!) e há até uma noite dedicada a Drácula (!!!!!).  

De sono ninguém morre nesta série, concebida e quase sempre comandada por Paul Holdengräber, que ao vivo é um craque, tanto quanto na montagem deste inteligentíssimo programa. Aqui você chega direto nos links para os vídeos e podcasts. Boa diversão.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/02/2009 - 18:50
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O cão de Goya


Há um mistério dentre as misteriosas Pinturas de Negras de Goya. Trata-se do “Perro semihundido”.  Foi pintado, como todas as outras “negras”, nas paredes da Quinta Del Sordo, casa  onde o pintor retirou-se na velhice. É, como todas as outras da série, sombria. Uma série que inclui algumas das obras-primas de Goya, como o “Saturno devorando um filho”. Mas entre elas está o cão.

Depois de onze anos, voltei a Madri e, é claro, no Prado, fui direto nas três salas onde estão as Pinturas Negras. Me lembrava do clima, de uma ou outra imagem, mas não dos detalhes. Até que, na parede ao fundo da segunda sala, vi o cão. O cão no fundo do quadro, afogado em amarelos e ocres,  aquela cabeça ali, afundada, olhando para alguém que não se vê ou não existe,  buscando salvação, comida ou simplesmente o nada.

Pouco me interessam os simbolismos, mas o fato é que, desde que o vi, no dia 14 de janeiro de 2009, não o esqueci. É, como diria Borges, uma sensação de solidão e desamparo “quase física”– “escrevo quase porque não há felicidade ou dor que sejam apenas físicos, sempre intervém o passado, as circunstâncias o assombro e outros fatos da consciência”, define o escritor. Solidão e desamparo que os cães encarnam quase que permanentemente, como, aliás, todos nós – mas, diferentemente de nós, não se preocupam em ocultr.

Robert Hughes, o idiossincrático crítico de arte australiano, dedicou a Goya uma biografia ensaística, tão idiossincrática quanto ele. Nas 496 páginas (da edição brasileira), uma defesa apaixonada do pintor contra os clichês ligados a ele (como o da loucura, por exemplo), encontrei  apenas um parágrafo sobre o cão. Que se não explicou completamente o que sinto, confirmou a capacidade deste quadro de revirar quem o vê:

“O cachorro que implora do fundo do que aparenta ser um poço de areia movediça não parece ter significado político, embora seja uma imagem sublimemente pungente. O anseio aterrorizado daquele cachorro por segurança e por seu dono ausente é a miséria do homem num mundo sem consolo, do qual Deus se retirou. Não sabemos o que significa, mas seu pathos nos comove a um ponto inenarrável”.

Desde então, este cão me persegue. Quase fisicamente.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 27/02/2009 - 12:14
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Nomes de blocos

Gente Lesa Gera Gente Lesa (Reúne um pessoal mais, digamos, desacelerado. Há dúvidas se conseguirá sair.)

Largo do Machado Mas Não Largo do Meu Copo (Dão uma voltinha rápida pelo Largo e voltam para o botequim.)

Só o Cume Interessa (Consta como formado por alpinistas na Urca, mas pode nem ter existido.)

Trema na Linguiça (Um manifesto contra o Acordo Ortográfico.)

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/02/2009 - 11:05
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A derrota do Carioca de Almanaque

O blogueiro prometeu e não cumpriu atualizar aqui cada passo de seu carnaval. É que o tempo urge, a folia abunda e a decrepitude faz trenzinho em volta de corpo (mais) e espírito (menos), vestida de diabo e cantando marchinhas de Jorge Goulart. O fato é que esse ano cansei. Mudou o carnaval ou mudei eu? Mudamos os dois: o primeiro, para melhor; eu, para pior.

 Mesmo assim, anotem aí: Simpatia é Quase Amor, Que merda é essa?, Escravos da Mauá, baile do Carioca da Gema, baile do Trapiche Gamboa, Azeitona (toc toc toc), Bip Bip, Cordão da Bola Preta, bloco do Carioca da Gema, Boitatá,  Império Serrano e Rancho Flor do Sereno. Isto entre o fim de semana pré-carnavalesco e a segunda-feira. Nada mal, ok. Mas já fui muito melhor nisso.

2009 está sendo a prova dos nove do carnaval carioca. Explodiu este ano o que já vinha se tramando há algum tempo: blocos, blocos à mancheia, saindo todos os dias de todas as partes da cidade com todo tipo de gente cantando todo tipo de música.  É a democracia selvagem do Rio de Janeiro, que decreta para sempre a morte de um nefasto personagem, o Carioca de Almanaque.

Identifiquei-os há algum tempo.  São os criadores do cariocamente correto e, por tabela, do carnavalescamente correto. Para eles, o prazer tem que seguir bula, conceito,  história. Durante o ano todo, defendem entidades como samba de raiz e botequim pé-sujo, comemoram os 50 anos, cinco meses e 43 dias da bossa nova e  adoram um “resgate” em geral – mesmo não sendo soldados de nosso bravo Corpo de Bombeiros.

O carnavalescamente correto criou blocos como o Boitatá e o Céu Na Terra, especialistas em, como diz o Ivan Lessa, ter nostalgia com o passado dos outros. Defendem sempre a volta à alguma coisa, mesmo que a maioria não fosse nem um traço genético quando o periquitinho verde tirou a sorte de Dircinha Batista. Não pode samba enredo, não pode amplificação, não pode anunciar a hora de saída  - porque não pode encher. Esta equipe de resgate do carnaval popular detesta muita gente: popular de verdade, de raiz, é coisa para poucos.

Este ano, eu só ouvia gente dizendo que não ia ao Bola Preta, um gigantesco cordão de quase um milhão de pessoas vindas toda (mas de TODA mesmo) parte da cidade, porque “era cheio demais”. Foram todos ao Céu na Terra, com os elogios de praxe: é muito lindo todo mundo fantasiado em Santa Teresa (Meca dos cariocamente corretos), cantando “Ride palhaço”, igual aos antigos carnavais (que a maioria não conheceu),  é bloco para levar as crianças (outro elogio ambíguo: e bloco é lugar de criança?). Resultado: ninguém suportou o calor e o empurra dos antigos carnavais e o Bola foi lindo, uma maravilha como sempre. Logo eu concluo que o que estragava o Bola era a turma carnavalescamente correta.

O Carioca de Almanaque já não sabe mais o que fazer no carnaval, pois a cidade foi desordenadamente ocupada pela alegria. E ela costuma ser anárquica, abraçando a todos, mesmo aqueles que podemos não gostar e desejar estar do lado – como as hordas de pitboys desordeiros. Se o belo tipo faceiro ao seu lado lhe incomoda tanto, nem saia de casa: carnaval não tem cara, não é politicamente correto.

Se em 2010 persistir esta maravilhosa enchente de gente e blocos, acho que o Carioca de Almanaque vai ter que brincar o carnaval na Ilha de Paquetá. Mas aí, sabe como é, vai começar a encher, a contagiar todo mundo, vai ser preciso mudar, sair às 5 da manhã, sabe-se lá. Mas é assim mesmo, dá um trabalho danado levar vida de chato.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/02/2009 - 10:57
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Lista de compras

1. Chapéu de pingüim, que consiste no simpático animal, olhos arregalados e asas abertas, como se estivesse sentado em sua cabeça, com as patinhas balançando.

2. Peruca  moicano roxa, acompanhado de óculos da mesma cor, R$ 2 o par.

3. Camisa de seda branca de bolas pretas e cartola-chapeleiro-maluco, também preta (e prata) para a manhã de sábado.

4.Toga e coroa de louros dourada, complementada por uma grande caixa de fósforos: com quantos palitos se faz um Nero?.

5.Confete e serpentina.

6.Gel com purpurina, para facilitar o grude do pozinho que só deve sair daqui a dois meses mais ou menos.

7.Tinta branca para sair de pierrô ou fantasma (já fui confundido).

8.Pescador “estilizado” para o Império enamorado.

Colaborando desta forma para a abertura das contas públicas, o blogueiro abre as suas, privadas, (vírgulas necessárias) e passa a transmitir a toque de bumbo em periodicidade incerta e errante, do meio do carnaval carioca.

No falecido No Mínimo, bloguei um carnaval inteiro. Os posts foram parar numa universidade americana, numa aula de cultura brasileira. Este ano faço o mesmo, com mais idade e, consequentemente, menos vergonha. Vamos ver onde vou parar.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 20/02/2009 - 14:33
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A tribo dos Fala-Mansa

Num delírio carnavalesco-antropológico, fantasiado de Lévi-Strauss comendo papagaio à passarinho num boteco dos nambiquara, menção honrosa em Originalidade Masculina no concurso do Clube Tamoio de 1973,  registrei os usos, costumes, histórias e lendas dos Fala-Mansa, tribo aculturada que, infelizmente, vive entre nós. Só que disfarçada – daí a necessidade desta mui explicativa intervenção científica.

Transmitida pela tradição oral, ou melhor, sussurrada, geração após geração, a lenda de origem dos Fala-Mansa dá conta que os Deuses, reunidos num fim de tarde, exaustos de tanta fúria, nem se deram conta quando Dêxadíssu, um deusinho muito simpático e sorridente, criou uma nova estirpe de homens. Criou assim, como quem não quer nada, sem chamar atenção, e estes recém nascidos, todos muito simpáticos, já dizimaram duas populações vizinhas, cheios de gentileza.

Os Fala-Mansa são assim: nunca brigam com ninguém, detestam opiniões fortes ou qualquer tipo de conflito, mas são capazes de pequenos massacres, silenciosas chacinas, sempre em nome  da cordialidade. Jean de Léry encontrou um pequeno grupo e, ao abraçá-los, percebeu que levava uma estocada. Se tivesse lido Otto Lara Resende, saberia que abraço e punhalada só se dá em quem está perto.

E os Fala-Mansa estão sempre por perto. São solícitos, quando possível fazem questão de enumerar pessoas influentes como seus amigos e costumam saudar o próximo com abraços acompanhados de uma esfregadinha nas costas do próximo – costume que foi incorporado e disseminado entre nós pelos estudantes de teatro e jovens atores em geral.

Se, depois de todas as tentativas de evitar, caem no meio de uma discussão, os Fala-Mansa só discordam gentilmente, quase pedindo desculpas por não compartilhar uma opinião. Têm horror a polêmicas de qualquer espécie. Seus rituais tribais são quase imperceptíveis e, quando menos se espera, já estão aboletados em cima de um muro.

Este ano estou pensando em sair de Fala-Mansa no carnaval. O problema é gostar da fantasia. Aí vocês vão ver: este blog vai ser só elogios, só paz e amor. Ao que vejo em volta, costuma dar certo. Pois um Fala-Mansa tem sempre um amigo para ajudar, não é?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/02/2009 - 12:35
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I remember Blossom

Foi num domingo de janeiro de 2005. Nova York fria, enfeitada pelos portais de Christo no Central Park. Danny’s Skylight Room era o nome, um tanto pomposo, do lugar. Lucia Guimarães, que sabe tudo, me recomendou: “Não coma NADA”. “Nem um biscoitinho?”. “NADA. É horrível”. Quando, na rua 46, quase com a Nona Avenida, descobri que tinha chegado a algo como um restaurante italiano gerenciado por chineses, entendi que SEMPRE deve-se ouvir a Lucia.

Era como uma seita. Você chegava naquele lugar bizarro, dirigia-se a um bar igualmente bizarro ao lado do salão do restaurante e perguntava: “É aqui o show da Blossom Dearie?” Um chinês antipático resmungava qualquer coisa num patuá que parecia inglês e começava a se formar uma fila, paralela ao balcão comprido. Nos últimos tempos era ali que uma das cantoras mais estilosas do século passado se apresentava em duas sessões semanais: sábados e domingos às seis da tarde.

Num determinado momento, com a fila já bem grandinha,  alguém abria umas cortinas meio encardidas no fundo do corredor e o público entrava num cubículo, mesinhas empilhadas umas nas outras, dominado um majestoso piano de cauda, bateria compacta e um contrabaixo acústico no chão. Pontualmente, acompanhada por dois garbosos músicos, Miss Blossom Dearie entrava em cena. E aí dava para entender, imediatamente, o que fez aquela lenda.

Cabelos brancos curtos, a senhorinha de 80 anos lembrava, e muito, a garota de óculos de aros grossos na capa de “Once upon a summertime”, lançado 47 anos antes. Cantando, então, mesmo naturalmente rouca pelo tempo, ela ERA aquela garota de voz mansinha e jeito sacana que, como boa cabaret singer,  “dizia” as músicas sobre um piano que, sem virtuosismo, era o fino.

Em dois sets, Blossom mandava seus clássicos como “I’m hip”  e “Peel me a grape”, platéia dominada, flutuando, e rindo muito. O show era um reflexo perfeito de sua invenção: delicadeza, lirismo e muita ironia. Não havia, para Blossom, uma canção simplesmente romântica e, além disso, em outras partia para ser  ostensivamente escrachada – como em  “Bruce”  e “My attorney Bernie”.

No intervalo, Blossom se postava perto do balcão, fumando, bebericando, e autografava os que seriam seus últimos CDs, produções independentes vendidas ali mesmo. Conversava distraidamente com os espectadores – ao me identificar como brasileiro ela atentou para os arranjos de Cesar Camargo Mariano em um dos discos – e às vezes, como no caso de uma amiga minha, dedicava o disco e esquecia de assinar.

Blossom Dearie no Danny’s Skylight Room era, por diversos motivos, a antítese de Bobby Short no Carlyle. Ambos se encontravam na fantástica arte do cabaret singer, que desandou nestes chatíssimos enroladores de standards, que têm em Michael Feinstein sua máxima expressão.

Blossom Dearie morreu dormindo, no fim de semana passado, aos 84 anos. Não percebi a nota nos jornais. Aquela minha amiga, a do autógrafo pela metade, me avisou hoje, contando que recebeu a notícia como se fosse com uma pessoa próxima. E basta ter ouvido Blossom, em disco, para lembrar dela como, sei lá, uma prima distante, avoada e divertida.  E que faz uma falta danada.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 13/02/2009 - 17:17
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A página em branco

O que leva um ser humano a ter em casa uma gaveta cheia, entupida, de caderninhos em branco? Moleskines, é claro, mas nunca suas imitações, quase sempre deprimentes. Outros sem grife (nem pretensão, o que é fundamental), mas cheios de personalidade. Alguns lindos e  péssimos para escrever; outros meio feiosos e muito úteis. É muita página em branco mas, sinceramente, tenho gostado tanto delas, imaculadas,  quanto das tantas outras, cheias, com que convivo diariamente.

O fascínio pelo caderninho é ambíguo. Ele representa sempre a possibilidade de escrever alguma coisa. Mas, às vezes, pode intimidar: um daqueles caderninhos clássicos, capa dura, fechada com elástico,  sugere que se escreva nele algo de alguma forma “importante”. Por isso, pelo menos para mim, eles vão envelhecendo, amarelando, virgens como vieram o mundo.

Joan Didion, que ao que tudo indica vem usando bem os seus há muitos anos, lembra que, mais importante do que aquilo que se anota, é o próprio vício de anotar. Diz ela no delicioso “Sobre manter um caderninho de notas”: “O impulso de anotar coisas é particularmente compulsivo, inexplicável para quem não compartilha dele, útil apenas acidentalmente, apenas secundariamente, assim como toda compulsão tenta se justificar”.

O caderninho é, sempre, um caderno incompleto. Abre-se um novo, por exemplo, quando se sai em viagem. Ali podem ir dicas,  telefones e endereços, listas de presentes. Eventualmente, anota-se algo em um museu (embora para mim seja um mistério o que tanto essa gente escreve numa exposição), mata-se um tempo morto rabiscando ou, até, quem sabe, nasce ali algo que preste.  O problema é que, ao voltar para casa, constata-se que ainda faltam umas 40 páginas para o bichinho acabar. Na dúvida entre misturar uma lista de supermercado com temas supostamente mais nobres, lá vai para a gaveta mais um “meio usado”.

Nunca fui de anotar em livro meu nome, data e lugar onde comprei. Mas acho que seria divertido fazer isso nos caderninhos desde que passei a visitar tantas papelarias quanto livrarias.  Fico imaginando toda uma prateleira cheia de cadernos vazios, tendo como epígrafe estas estranhas informações – e só. Paul Valéry dizia que um escritor  se mede também pelo que não publica; penso que também poderia se avaliar pelo que não escreve. Assim sendo, já tenho prontinhas as minhas obras completas.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 11/02/2009 - 10:47
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A invenção da simplicidade

O trio de Keith Jarret é, para mim, uma das escassas provas da existência de Deus. Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette não têm, no entanto, nada de celestiais ou etéreos: são cem por cento terrenos. Encarnam os momentos em que o Homem, poderoso como o Criador, inventa universos, sistemas, complexidades e, sobretudo, a simplicidade.

“Yesterdays”acaba de sair abrindo a programação de 2009 da ECM, das raras gravadoras que centram o catálogo em música francamente “impopular”, ou seja, que não enriquece exorbitantemente executivos e artistas. A novidade é que, para quem gosta, o disco também é editado em vinil, uma nova operação da casa comandada por Manfred Eichler, francamente na contramão das chamadas “tendências”.

Os nove standards do disco são, como nos recentes lançamentos do trio, gravações mais antigas. Estas particularmente estão guardadas desde abril de 2001, realizadas ao vivo em Tóquio, também o destino mais freqüente dos TREs. Como uma iguaria ou um vinho, as safras de Jarrett são assim, ficam suspensas por um tempo antes de serem embaladas com a técnica perfeita de gravação e os encartes cheios de fotos e silêncios, sem texto.

A viagem de Jarrett pela grande canção americana não tem fim. Mas a cada vez toma um caminho, sempre surpreendente – de certa forma mais surpreendentes do que os espantosos solos, em que improvisa radicalmente, sem rede.  Nesta gravação, o que chama mais atenção é o caminho mais bop, com Horace Silver (“Strollin’”) e Charlie Parker (“Scrapple from the apple” e “Shaw’nuff”) e uma versão de “A sleepin’ bee”.  Ou ainda a mistura de invenção e jazz clássico de “Smoke get in your eyes”, com uma lindíssima introdução solo de um minuto e meio.

Como em todo lançamento do trio,  “Yesterdays” só me faz pensar no que ainda deve estar guardado.  O que não deixa de ser uma garantia de felicidade a prazo nos anos que virão.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 10/02/2009 - 07:45
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O Império enamorado



Sem perder muito tempo: como se não houvessem tantos outros e enumeráveis motivos, a bateria do Império Serrano é suficiente para que se vibre com a escola, de volta ao Grupo Especial.  Neste fim de semana, basbaque como um turista, foi como se eu entrasse pela primeira vez na quadra de Madureira e ouvisse, também pela primeira vez, o clássico “A lenda da sereias e os mistérios do mar”, que a escola reedita em 2009.

Mestre Átila sabe direitinho a diferença entre invenção e invencionice e preparou a bateria como uma orquestra em que chocalhos conversam com agogôs, fazem contraponto ao tamborins. Talvez, eu disse talvez, um boneco de palha não se emocione com o efeito – nada a ver com as batidinhas de funk, axé e sei lá mais o quê que deram para enfiar em baterias para torná-las “diferentes”.

O vídeo aí foi feito com o celular de sempre e tem a qualidade de sempre. Mas espere até os 30 segundos, quando o som fica mais claro e é possível sentir a diferença desde conjunto de músicos excepcionais. O que está acontecendo nesta bateria não é brincadeira não.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 08/02/2009 - 20:56
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Um tal Julio

Julio Cortázar foi, na descoberta da literatura séria, um dos primeiros choques que tive. O livro era “Bestiário”, numa edição do Círculo do Livro comprada na Livraria Brasileira, o sebo hoje falecido, no Edifício Avenida Central, no Rio.  Consigo lembrar, sem muito esforço, de meu espanto diante de “A casa tomada”, do poder espantoso daquela narrativa curta e seca. Depois vieram outros livros seus, sucedendo-se muito desorganizadamente – como deve ser a leitura prazerosa. Mas aos poucos, imperceptivelmente, ele foi sumindo de minhas prateleiras, de minhas leituras, de minha vida.

Em 1993, cheio de literatura na cabeça (e a esta altura com muitos outros espantos além de “A saúde dos doentes” e “Auto-estrada do Sul”), fui a Paris pela primeira vez. Lembro detalhadamente como a descobri caminhando sem parar e hoje tenho inveja de quem ainda não a viu, do primeiro cheiro de graxa do metrô, do primeiro passeio pelas livrarias. Cortázar sempre esteve  lá, mas eu não percebia.

Ano passado, fim de noite, fui levado pelo João Paulo Cuenca para uma saideira no Old Navy, um boteco docemente sórdido no Boulevard Saint Germain. Numa TV de plasma Glória Estefán se sacudia e iluminava nossos chopes meio chocos, quando Cuenca me diz que ali era um dos pontos preferidos de Cortázar. Desde então, passei a achar encantador que a ele fascinasse mais aquele bar do que os literários cafés parisienses, cheio de jovens com cara de conteúdo anotando compulsivamente textos que, certamente, jamais leremos.

Quando faço as malas, em geral faço a cabeça e procuro me impregnar de algum livro que tenha a ver com a viagem. Mas o acaso quis que, percorrendo os diários de Augusto Monterroso (depois volto a ele), tenha lido sobre Cortázar, sua última mulher, Carol Dunlop, os últimos anos na Nicarágua, os gatos, a volta ao dia em 80 mundos. E decidido comprar uma edição de bolso do “Jogo da amarelinha” para ler enquanto estivesse em Paris, mês passado.

Quando passei os olhos pela “Rayuela” pela primeira vez, não entendi muito bem aquela mistura indefinível de ensaio e romance. Me encantava  a idéia de pular os capítulos, mas acho que gostava mais do conceito do que do livro. Pois esta foi, então, uma primeira leitura da Amarelinha e comecei a ver a cidade com os olhos de Horacio Oliveira e a buscar a Maga e a pensar como aquela mistura de gêneros, aquela escrita apaixonada faz com que a grande maioria de nós, que hoje estamos aí, lendo e escrevendo, somos conservadores, pouco afeitos a riscos. E me espanta também a inteligência onívora de Cortázar, que lia de tudo, consumia de tudo pois tudo, tudinho mesmo é ficção, ou como ele escreve, é tudo uma “tura”:

“Nuestra verdad posible tine que ser invención, es decir escritura, literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas las turas de este mundo. Los valores, turas, la santidad, una tura, la sociedad, una tura, el amor, pura tura, la belleza, tura de turas”.

Paris me lembrou Cortázar e ele me lembrou Paris, a cidade “tura”, fabulação que por isso mesmo, ensinou Hemingway, “não se acaba nunca”.

Tão bom quanto a descoberta de um autor, só a redescoberta. A literatura, nem sempre como a vida, permite a suspensão de uma paixão e sua retomada como se nada houvera.  Pois emendei o Cortázar de hoje numa página perdida em 1984.

Fiquei tão emocionado que me prometi ir ao cemitério de Montparnasse, que sempre visito, especialmente ver onde terminaram um tal Julio e seu amor crepuscular e triste. Sabe-se lá porque, voltei sem visitar o túmulo do casal. E logo quando são lembrados os 25 anos de sua morte (12 de fevereiro), inclusive com o anúncio da publicação de inéditos.


Na próxima viagem, sem dúvida, irei a Montparnasse, à Pont des Arts onde a Maga passeia, comerei a sopa de lentilhas de sempre do Pollydor onde, descubro hoje, se passa “62 modelo de armar”, um livro que não li.  Mas aí já será um outra Paris, soma fantasmagórica das que conheci em outros tempos  e mais a dele, que, assim como não quer nada,  voltou às prateleiras, às leituras, à vida.
 
P.S. em movimento: aqui embaixo, Cortázar e Carol brincam de esconde-esconde nas ruas de Paris, esta “tura”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 06/02/2009 - 20:30
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‘Roland Barthes estaria revoltado’

Foi com esta frase , misto de psicografia e duvidoso zelo pelos mortos, que François Wahl, ex-editor e um dos melhores amigos de Barthes, reagiu ao anúncio da publicação de dois inéditos do baú do escritor: “Carnets du Voyage en Chine”, que reúne as impressões de uma excursão ao país (com o próprio Wahl, Philipe Sollers e Julia Kristeva) no auge do fascínio a esquerda pelo maoísmo, e “Journal du deuil”, o “Diário do luto”, um coleção de quase 300 fichas em que o autor de “A câmara clara” registrou o longo e sofrido luto pela morte de sua mãe.

O livros saem semana que vem e o Magazine Littéraire de janeiro tomou os lançamentos como gancho para um de seus longos “dossiês”.  Mas o que ficou foi mesmo a dúvida, quase sempre irresolvível, sobre o que se deve publicar do espólio de um escritor.

No caso de  Barthes, a defesa da “intimidade” é meio furada. Pois nos últimos anos da vida, o professor do Collège de France incorporou à sua obra, de forma clara e deliberada, um viés nitidamente pessoal – o que contraria a liturgia acadêmica em feral e afrancesa em particular. “Fragmentos de um discurso amoroso” talvez seja suficiente para exemplificar isso. Mas ainda há mais.

“Incidentes”, editado pouco depois da morte de Barthes pelo mesmo Wahl que hoje reclama a privacidade póstuma, é puro diário. Traz o irresistível charme da banalidade e, também, explícitas considerações sobre a noite gay de Paris e a melancolia do homem célebre diante da idade e dos amores comprados nas ruas da cidade.

É claro que sempre se  pode  - e deve - questionar a publicação do que não era, teoricamente, para ser publicado. Sei que é pouco científico, mas minha tese é de que, ao escrevermos, procuramos um leitor; a escrita, como a vida,  é mesmo o que Nelson Rodrigues falou: a busca desesperada por um ouvinte.

É público que “A câmara clara”, o lindo livro sobre a fotografia, é um livro sobre a perda da mãe. Em alguns de seus textos finais, Barthes chegou mesmo a experimentar o diário e defendia que a escrita “íntima” é, também e quase sempre, um exercício de estilo. Ao escrever, me escrevo – e vice-versa.

Barthes estaria revoltado? Taí uma pergunta difícil de responder sem correr o risco da leviandade.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/02/2009 - 15:47
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Allons enfants!

Velho, criança, maluco, operário, rico, pobre, inteleca, garotada, mendigo. A grande manifestação que tomou conta de Paris hoje tinha como alvo as reformas com que Nicolas Sarkozy ameaça a França mas, sobretudo, “tudo isso que aí está”. E, talvez por isso, atravessou classes e profissões. Cabia até turista como eu, enfiado na multidão e fazendo, com o celular, estas imagens que postei aí embaixo, com edição quase zero.

Com a temperatura perto de zero e um sol fracote, Paris amanheceu linda e mobilizada. Quando vi, já tinha pregado no peito o adesivo “RÊVE GENÉRAL”, “sonho geral”, um trocadilho deliciosamente sessentaeioitista com “GREVE GERAL”. O que se reivindicou está mais para sonho mesmo: uma vida melhor, salários mais justos, condições de vida mais dignas. Uma bela resposta para Sarkozy, que disse em entrevista que quando alguém faz greve na França, ninguém percebe. Hoje, todo mundo percebeu.

Há nas senhoras do Partido Socialista, nos estudantes neohippies e nos intelectuais de cachimbo uma pouco disfarçada nostalgia do espírito rebelde de outros tempos. Ainda bem. Pois as 300 mil pessoas que se espalharam da Bastilha à Ópera ( a policia fala em 65  mil, mas só onde eu estava, próximo da Bastilha, tinha mais gente do que isso) deram uma comovente e espevitada resposta a Sarkô –e, por tabela, ao conformismo que a cada dia nos torna mais tristes e submetidos a  todo tipo de modelo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/01/2009 - 20:26
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O americano tranquilo

John Updike foi um grande escritor que viveu disfarçado de homem comum.  Ou seja, pouco encenou a liturgia da vaidade fielmente seguida por seus colegas mais célebres. Transformou o protótipo do “grande autor” no hilariante Henry Bech, um escritor judeu, protagonista de quatro novelas,  que adora ser elogiado e, numa delas, chega a sonhar com nada menos do que a extinção de todos os seus colegas.  Prático, não?

Na avalanche de obituários que se seguiu à morte do escritor, Bech é pouco ou quase nunca citado, pois o grande herói ficcional de Updike foi, justamente até, Rabbit Angstrom, a quem dedicou quatro romances que fazem a crônica  do homem americano médio, das aspirações médias, dos desesperos e perversões sob controle num belo subúrbio arborizado. Li os quatro de uma só vez, há muito tempo, e o efeito é realmente impressionante.

Como todo autor que escreve muito, Updike pisou muito na bola – “Brasil”, por exemplo, é uma bela bomba, ainda que seja perversamente delicioso ver um grande escritor escorregar no quiabo dos clichês sobre um país. Como crítico, foi um craque, como bem nota Christopher Hitchens em “Mr. Geniality”,  texto publicado no NYTimes há dois anos.

Discretamente como sempre, com erros aqui e ali  e certos admiráveis, Updike vai fazer uma falta danada. No que andei lendo por aí, David Remnick, editor da “New Yorker”, deu a declaração mais singela,  emocionante e precisa sobre o escritor: “Nós (na revista) o adorávamos”.  Updike era mesmo adorável e acho que este adjetivo poucas vezes pode ser usado como um elogio literário.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/01/2009 - 08:48
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Chanson & "slam"

Virou moda espinafrar a cultura francesa como decadente. E ela pode ser vista assim se, conservadoramente, botarmos no altar o que um compositor de samba-enredo chamaria de “um passado de glória”. Mas, cá entre nós, com um passado desses, até eu ficaria com preguiça de olhar para a frente.

Neste inverno de frigorífico, Paris está comemorando dois ícones deste passado, Jacques Prévert e Serge Gainsbourg , com exposições cheias de gente com cara nostálgica. Mas o que me espantou mesmo foi a conexão destes dois grandes, que sempre misturaram musica e poesia de alta qualidade, com o slameur Grand Corps Malade, que no sábado passado encerrou apoteoticamente uma série de três shows no Olympia.

Monsieur Malade, como é chamado, nasceu Fabien em Saint-Denis, periferia de Paris. Seu nome artístico, o Grande Corpo Doente, vem de um acidente que estropiou sua perna esquerda. Branco de origem árabe, destaca-se no mundo do slam, um subgênero do rap,  justamente por não maltratar  o francês e, em letras sofisticadíssimas, falar direto a uma juventude que, a toda hora, é lembrada que vive um momento decadente do país. Foi o Arthur Dapieve quem me aplicou nele ano passado. E espero que contamine muita gente mais.

De preferência, o slam é só poesia: muito rimada, dita com ritmo, interpelando o ouvinte. Malade acrescenta a isso um musica acústica fantástica e, com sua voz grave e dramática, cria uma estranha mistura do fraseado de rap com um Jacques Brel. Suas canções não trivializam a vida da periferia; ao contrário, são melancólicas e envolvem qualquer um por não botarem raça ou política na frente de uma paixão pela tal da escura noite da alma. É de arrepiar e emocionar de verdade, como se podia sentir pela temperatura da platéia de mais de duas mil pessoas, que não o deixavam sair do palco.

Pois vendo as exposições, me dei conta de que Malade faz algo muito parecido com o  que, em seu tempo, fizeram Prévert e Gainsbourg: criado na cultura do lycée, do respeito quase sacro à língua, ele mistura seu repertório de ótimo poeta com as formas artísticas, imperfeitas, do seu tempo. Assim como Prévert experimentou o cinema (como ator, diretor, roteirista), as artes plásticas e a música nos anos 20. Como Gainsbourg, que sonhava com o mundo da música clássica e a pintura, escreveu romance e poesia, virou ídolo pop, vanguarda alternativa  e, no fim da vida, tinha sobre o piano retratos de Chopin e Sid Vicious.

Há algo de doente na cultura francesa de hoje. E essa é a melhor notícia que se pode ter.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 22/01/2009 - 09:56
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Madrilenhas

O blog volta ao ar, com arquivos devidamente organizados,  e passo aqui rapidinho para deixar algumas.

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Na Casa Toríbio, que recebe “rabo de toro “ de todas as plazas da Espanha, o prato de rabada é uma experiência estética que vale mais a pena do que boa parte do acervo do Reina Sofia.

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Alberto Korda, o homem que clicou Che Guevara na foto que virou o logotipo da contestação, ganha uma restrospectiva na Casa de America. Foi mais do que o criador do ícone: foi boêmio, bon vivant e fotógrafo oficial da Revolução e desse regime sem-vergonha que se seguiu a ela.
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Enrique Vila-Matas está na praça com um diario literário, “Dietário voluble”,  e o livrinho provocação “Ella era Hemingway, You no soy Auster”. Em ambos as obsessões correntes do escritor. Volto a elas depois, pois são também um pouco as minhas.

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 “Import/Export” é uma porrada. Filme do austríco Ulrich Seidl, mostra com excesso de realismo a vida de loosers na Áustria e na Ucrânia. Neve, falta de perspectiva, velhos doentes, prostituição na web. Na saída, num lugar ermo de Madrid, sem-teto dormiam em barracas co temperaturas abaixo de zero. E a ficção vira reality show desta Europa miserável, cada vez mais esmagada pela crise.

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Manifestação monstruosa de apoio à Palestina por todas as partes. Algumas oportunistas e declaradamente racistas, e outras, estas em maior número, numa indignação que lembra a Espanha mobilizada contra a invasão do Iraque.
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Livros, livros à mancheia.
E aí em cima, os tetos da Vieja Madrid às oito da manhã.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 20/01/2009 - 08:09
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No pasa nada!

Desde sábado na gélida e nevada Madri, este blog fecha as portas como a Casa Paco na hora da siesta. Ou melhor, abrirá de vez em quando, para eventuais atualizações ao sabor macunaímico das férias.

No dia 3 de fevereiro, sem mais direito a um soninho depois do almoço, volto com força total.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 15/01/2009 - 16:57
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Dissonâncias e paz



Este vídeo postado aí é o flagrante de um milagre repetido há quase dez anos. Em 1999, o crítico palestino Edward Said e o maestro judeu Daniel Barenboim resolveram criar uma orquestra unindo jovens árabes e judeus. Num workshop em Weimar, Alemanha, nascia a West-Eastern Divan Orchestra, assim batizada em homenagem ao poema de um Goethe que, já velho, descobriu o Oriente e, aprendendo árabe, impregnou-se do que era a imagem mais bem acabada do Outro, de uma cultura que tanto diferia da dele.

No clipe, cuja data e local não consegui localizar, a orquestra toca a abertura de “Os mestres cantores de Nurembergue”, de Wagner, compositor que durante décadas foi tabu em Israel pela identificação do Terceiro Reich com sua música. Eu disse que era um milagre, só que um milagre feito para ateus e céticos, produto não da santidade, mas da pura inteligência. Trata-se de uma rota bandeira de esperança diante do, digamos com todas as letras,  massacre perpetrado em Gaza sob os olhos sonolentos da ONU.

Said, um dos mais inteligentes e finos intelectuais de sua geração, morreu em 2003 depois de uma longa leucemia. Barenboim, uma estrela da musica erudita, incorporou à sua agenda as apresentações da orquestra e, no final do mês passado, lançou o livro “Music quickens time” (Verso). É ótima leitura para acompanhar, de forma pouco óbvia, o que vem acontecendo no Oriente Médio. Não, o livro não é sobre política, mas sobre a música e suas relações com o pensamento e a sociedade. Ou melhor, o livro é, sim, sobre política.

Muito compreensivelmente, a West-Easter Divan domina o livro e, sobretudo, sua primeira parte, que reproduz as Norton Lectures dadas por ele na universidade de Harvard em 2006. A montagem da orquestra foi uma experiência radical, que resultou na criação de uma Fundação Barenboim-Said, localizada em Sevilha, na Espanha, cidade-símbolo da miscigenação cultural. Nos textos de Barenboim, fica claro que a orquestra é mais do que uma (boa) metáfora para paz, na medida em que constrói a harmonia pela combinação de diferentes vozes, muitas delas dissonantes. É um trabalho simbólico, mas também prático, de aproximação e compreensão, o único capaz de interromper a tragédia que volta a se repetir em 2009.

“A orquestra não pode, é claro, trazer a paz”, escreve o maestro. “Mas pode, no entanto, criar as condições para o entendimento sem as quais é impossível até mesmo falar em paz. Ela tem o potencial de despertar em cada um a curiosidade para ouvira a narrativa do outro e inspirar a coragem necessária para ouvir o que se preferia ignorar. Uma vez tendo ouvido o inaceitável, talvez torne-se pelo menos possível aceitar a legitimidade do ponto de vista do outro”.

Said, citado por ele, justificava assim a idéia: “escolhemos este caminho por motivos mais humanistas do que políticos, no pressuposto de que a ignorância não é a estratégia para a
sobrevivência sustentável”.
 
Antes que eu me afogue no ódio que transborda de todos os lados na blogosfera, fico com as palavras de Barenboim, publicadas originalmente no Guardian no início deste mês, e, a seguir, com a íntegra da entrevista dele e Said no programa de Charles Rose (vale cada um dos 57 minutos):

“A violência palestina atormenta israelenses e não serve à causa palestina; a retaliação militar israelense é desumana, imoral e não garante a segurança de Israel. Os destinos destes dois povos estão inextricavelmente  ligados, obrigando-os a viver lado a lado. Eles têm que decidir se farãoo disso uma bênção ou uma maldição”.

Em tempo: Barenboim anunciou ontem o cancelamento de parte da turnê da orquestra devido a preocupações sobre a segurança dos músicos.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 06/01/2009 - 18:24
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A angústia do diretor diante do pênalti

A cada minuto do arrebatador primeiro capítulo de “Maysa – Quando fala o coração”, só conseguia pensar em Jayme Monjardim. Ou melhor, pensar na coragem de um diretor em enfrentar a história de sua própria mãe, sendo ela a mulher de excessos, paixões e genialidade que foi  – aquele tipo de personagem que, sem demagogia de qualquer espécie,  costuma ficar melhor em livros, filmes e, de preferência,  na família dos outros.

Pelo que li na excelente biografia de Lira Neto, “Maysa: só numa multidão de amores”, a  relação entre os dois foi conturbada, marcada por separações e desencontros. O livro, que é uma breve aula de como se conta a vida de alguém, passa ao largo de sensacionalismo mas expõe uma realidade dura – que agora volta, para um público de massa, no texto de Manoel Carlos e Ângela Chaves.

Pensar em “exposição” da intimidade é ingênuo e, sobretudo, insuficiente para dar conta do que vejo como a grande dificuldade de Monjardim. Pois quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente. Mas, ao dirigir uma atriz que praticamente incorpora a mãe e literalmente encenar sua personalidade conturbada, o diretor acaba reencenando seu passado, pressionado entre fatos e versões e, antes de mais nada, atravessado pela memória.

A estrutura deste primeiro capítulo só reforça estas dificuldades. Manoel Carlos, que é craque, decidiu começar pelo final e, a partir daí, voltar para cada passo da longa tragédia, do destino que vai armando sua laçada. São violentas, cada qual a seu modo, as cenas em que Maysa se acaba na divisória de pistas da Rio-Niterói e quando, no auge do sucesso, é pressionada pelo marido a assumir seu lugar de “mulher e mãe”.  É possível suavizar a morte? Proteger-se de alguma forma dos conflitos, irresolvíveis, de pai e mãe?

As respostas virão aí, no dia-a-dia da minissérie. Quem tem uma qualidade visual deslumbrante (fotografia de Antonio Beato) e uma protagonista idem, Larissa Maciel. Além, é claro, da música. Daquela música.

P. S. para facilitar o trabalho dos comentaristas - “Maysa – Quando fala o coração” é, por todos os motivos, a antítese de “Capitu”, aqui criticada mês passado para desgosto e até agressividade de muitos dos leitores. A eles, os descontentes, descontento ainda mais, pois achei a minissérie de Manoel Carlos e Ângela Chaves um gol de placa. Pois é, acho que sou “antigo” mesmo e, sorry, ainda gosto de histórias bem contadas. E da Maysa.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 06/01/2009 - 12:04
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Meu caro Domingos,

Tem sido para mim motivo de orgulho genuíno, daqueles que pouco se sente e menos ainda se fala, ser seu colega de blog aqui na Bravo!. Por isso, tomo a liberdade de te escrever publicamente, desta nossa vizinhança virtual. Aliás, tomo a liberdade de te escrever de forma tão pessoal porque foi você quem começou,  ao dirigir-se assim a mim (e aos espectadores) no teu filme novo, “Juventude”.

Por isso é melhor a carta, pois não queria que este post se parecesse nem de longe como uma crítica – e também pelo simples e óbvio fato de que não sou crítico. Para mim, assistir a “Juventude” foi assistir a uma conversa entre amigos, entre os três personagens que você, o Paulo José e o Aderbal vivem na tela; mas, foi, também, participar dela.

Você é de 1936, eu de 1967. Os 30 anos que nos separam cronologicamente não são nada perto da proximidade que senti daqueles teus personagens que, como bons personagens, começam como uma colagem das obsessões de seus criadores e transformam-se num espelho das obsessões de teus leitores  - ou espectadores.

Há muito o que comparar entre o teu cinema e o do Woody Allen – se eu fosse crítico, um dia faria isso. Mas ao ver “Juventude” me lembrei de uma discussão no blog da Carla Rodrigues sobre “Vicky Cristina Barcelona”. Lá, ela e outras leitoras argumentavam que toda mulher é a certinha Vicky, que acaba se jogando na vida como a piradinha Cristina; é também a mulher que se joga como a Cristina, experimenta de tudo, e acaba pirando como a outra, vivida por Penelope Cruz; e, de alguma forma, é a maluquete espanhola, ciumenta, gritona e possessiva que, talvez, lá no fundo, só queira uma vida certinha ao lado de seu amor. Certinho.

Pois o diretor de teatro que você interpreta, o médico do Aderbal e o milionário do Paulo José (que ator comovente) são o mesmo homem, são todos os homens do mundo.  É o marido de longos anos, da vida estabelecida, que teme se apaixonar por outra talvez porque ame mesmo a sua mulher; é o que come todas mas não é simplesmente mulherengo, é um homem de amores; é o pai, devastado por de alguma forma perder a filha para a vida.

(Para quem não ainda não viu o filme, fica o registro: os três reúnem-se num fim de semana para falar sobre suas vidas e, como sói acontecer nestes momentos, tudo começa com gargalhadas, atravessa vales de melancolia e, de vez em quando, termina bem. Muito de vez em quando.)

Fiquei pensando em dois ou três amigos com os quais poderia fazer o mesmo – já hoje eles são poucos, é a tal da arte de perder, que não é difícil de aprender, como ensinou a Elizabeth Bishop. Fiquei pensando se nossa história seria substancialmente diferente – talvez o fosse, e muito, mas só nas particularidades dos personagens.

Talvez fosse muito igual nas oscilações entre uma enorme crença na “juventude” e uma desilusão realista com o mundo; nos tremores diante de morte, a nossa e a dos outros; no jeito de criança com que se lida com as mulheres e suas exigências (para bem e para não tão bem); no cultivo de pequenos rituais (como um jantar), na música e na literatura como forma de tapar este buracos de sentido da vida, ou melhor, tapar o grande buraco de sentido que é a vida; na auto-gozação como uma forma de enfrentar isso tudo com dignidade, com a mínima dignidade a qual todos temos direito.

Nada mal para um início de ano, não é? Por isso, meu caro Domingos, esta carta é um agradecimento pela dose de juventude, sincera e caudalosa, neste chuvoso janeiro de 2009.

Um abraço
do Paulo

P.S. – E muita juventude em 2009 para todos que, desde setembro, têm passado por aqui.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 03/01/2009 - 14:34
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