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Blog do Paulo Roberto Pires

A crítica como missão

O tema do logo texto que Louis Menand publicou semana passada na New Yorker é Lionel Trilling, um dos críticos literários mais influentes nos EUA dos pós-guerra. O gancho é a publicação, na coleção de clássicos da New York Review of Books, de A imaginação liberal, o grande clássico do autor de Sinceridade e autenticidade, tido por muitos como uma conservador de esquerda – na verdade, um opositor ferrenho ao autoritarismo de qualquer latitude. Mas o longo texto de Louis Menand é, na verdade, sobre...  Louis Menand.

Trilling é seu herói intelectual. Generosas citações de correspondências e diários – Menand também escreveu o prefácio da nova edição de The liberal imagination – podem indicar que vem por aí algo mais longo e parrudo sobre o critico brilhante e escritor fracassado. Sendo tão específico e particular, tratando de um autor traduzido apenas episodicamente no Brasil, este texto tem, no entanto, muito a nos dizer.

Fala, em primeiro lugar, de um grande nome do meio universitário americano que teve o bom senso de não se restringir a seus muros. Movido a álcool, frustrações e uma inteligência retumbante, Trilling interessava-se pelo debate o mais amplo, papel de um intelectual público, sempre empenhado em construir pontes entre seu conhecimento específico e o debate geral das idéias. É por tudo isso um espelho no qual nossos homens que falam javanês devem mirar-se com vergonha.

Depois, Menand expõe-se ao detalhar por que um intelectual não se faz com láureas e congressos internacionais, mas com a possibilidade de compreender, da forma mais complexa possível, a experiência humana. E que a arte pode ser um bom, ótimo,  atalho para isso – e não um panteão para cobrir-se de glórias. E é assim que o autor de O clube da metafísica resume a influência do crítico sobre suas idéias:

“Aprendi a pensar a literatura como uma parte da história das idéias e a acreditar que as pessoas escrevem romances, peças e poemas porque têm algo a dizer. Ainda acho que isso é verdade. Acho que a literatura é um produto da experiência. E não um produto privilegiado da experiência. Ela é, como Trilling compreendia em seu temperamento sombrio e antropológico, tão simplesmente uma parte da atividade cultural de produzir significado, sentido”.

Por sua clareza e destemor e fincar pé num ponto de vista, heranças do mestre, Menand soa como Bach aos ouvidos cansados pelo muzak do consenso.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/09/2008 - 20:49
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Vanguarda na cozinha







Fui ao teatro. Pronto, falei. Fui ao teatro em Nova York, contrariando alguns de meus princípios fundamentais, como por exemplo evitar o constrangimento de presenciar pessoas no palco que, quase sempre, me lembram uma montagem amadora do Rapto das Cebolinhas que vi na escola primária. Uma amiga diz que sou jeca, pois não vou ao teatro no Rio e sempre vou quando viajo. É que ainda gosto de atores que sabem falar. Mas desta vez foi pior: não abri um exceção por Peter Brook ou pelo Théatre du Soleil: fui ver uma, ahn, digamos, “performance”. Off-Broadway. Na verdade, Off-off-Broadway. Pronto, agora contei tudo.

Anger/Nation é o nome do negócio. The Kitchen é o nome do lugar. Um ticket na Broadway custa até US$ 250. No off-off, de agora em diante O.O., US$ 15. Na Broadway, é impossível não chegar. No O.O.,  só com o GPS do motorista africano que pilotava, falava no telefone e me inebriava com um capuccino do Starbucks. Quando chegou no endereço  - 19th entre 10th e 11th Avenues – ficou preocupado: é aqui mesmo que o senhor vai? E me apontou um beco escuro, entre estacionamentos vazios e carros depredados. Sim, era ali mesmo.

O Kitchen tem como presidente Philip Glass. Na prática, é um galpão escuro, com uma arquibancada íngreme e uma longa história de performances – Laurie Anderson e Meredith Monk fazem parte do conselho artístico. Talvez por isso não haja diferença sensível entre palco e platéia: há muito não vejo tanta gente de chapéu fora do palco ou de uma tela de cinema. Ah, e echarpes. E óculos de aros grossos. E mulheres gordas. E homens carecas.  

O nome do grupo (quatro pessoas) é Radiohole e o, digamos, espetáculo, junta os nomes de Carrie A. Nation, uma das ideólogas do puritanismo e defensoras dos bons hábitos dos americanos (no século XIX), e do cineasta de vanguarda inglês Kenneth Anger. Sacaram? Pois é, eu também não. Mas significado é algo que não tem mais sentido. Agora sacou, né?

Ir a um teatro de vanguarda (sic) é olhar de frente para a sua própria decrepitude. Pois, pense bem, quando você é jovem tende a levar a sério estas coisas. E, não por um acaso, a platéia era esmagadoramente formada por pessoas abaixo de 30 anos.  Havia os que, aos 50, usam rabos de cavalo, camisetas apertadinhas e fazem cara de conteúdo. Mas, dizia o Otto, ultimamente se passaram muitos anos e eu não estou me sentindo muito bem. E  o teatro de vanguarda, assim como Minas Gerais, está onde sempre esteve, numa brecha espaço-temporal entre o sublime  e o ridículo – mas perto deste do que daquele, bem entendido.

Quando você entra, o espetáculo já começou. Três homens feios estão em frenética atividade: tiram chope morno e distribuem pela platéia. O que circula entre o público com um bandeja, grita o tempo todo e não veste nada sob sua toga de centurião romano. Ou seja, aqui e ali você tem vistas piores que a do beco onde fica a cozinha, quer dizer, the Kitchen.

A atriz, com seus 30 e tantos, muito bonita, está grávida de uns quatro meses.  E, entre um discurso e outro, corta com um machado grandes latas de cerveja, dando um banho nos felizes jovens das primeiras filas. Dois dos atores vestem ceroulas e perucas femininas; um deles, caprichosamente, recortou um buraquinho no meio das pernas, deixando coisas pendentes ao longo do espetáculo – Nice balls!, gritou algum ser humano da platéia. Sério.

Não há, como se pode prever, muitos objetivos evidentes. Todo mundo fala e mostra suas partes pudendas. Música alta. Barulho. Deboches camp, a famosa estética gay. A mulher vira uma sacerdotisa, desce a escada peladona mas nem parece, já que claramente desconhece aquele verbete do Webster’s, brazilian wax. Os rapazes deitam-se lânguidos no chão.Aplausos, acabou.

Um rapaz na minha frente dá gargalhadas. Eu também. Mas, claramente, o riso dele é inteligente. O meu, é burro. Ele faz parte daquilo. Eu, não. Mas aí vem o golpe de mestre do Radiohole: acende-se a luz de serviço, o rapaz das coisas pendentes e seu companheiro sentam-se no cenário e começam a simular estes insuportáveis debates que se costuma fazer depois do teatro. E o público, muito jovem, muito crente, muito inteligente, custa  a entender que está sendo sacaneado.

Por uns dez minutos (eu contei) todos “participam”do debate. Até que a ficha começa a sair quando a atriz, já em trajes civis, simula estar indo embora. E o outro ator começa a desligar tudo. Mas o debate continua.  E muita gente continua acreditando nele. Quando para mim já é suficiente, mais da metade do público ainda está lá.

Saio no beco, vejo que a decrepitude está cercada de prédios chiquérrimos, coberturas espetaculares no meio do O. O. E vejo o quanto envelheci, o quanto dou risada sem conteúdo de como se faz pose neste extremo da cidade. E o Luiz Severiano Ribeiro que me perdoe, mas o teatro é que é a maior diversão.

P. S. – Eu agüentei uma hora e meia. Vejam o quanto conseguem destes dois minutos e meio aí em cima...

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/09/2008 - 19:28
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Cocoon jazz

Cleo Laine e John Dankworth têm 80 anos. São casados há 50 e vieram comemorar as datas redondas com um show no Blue Note, nome pelo qual é conhecido aquele cafofo forrado de espelhos e cercado de turistas por todos os lados.

No primeiro set de ontem, que abriu a temporada, a hedionda casa que virou sinônimo de jazz estava lotada. Tive que ver o show de pé, com aquela síndrome de Bye-Bye Brasil: tinha um japonês atrás de mim.

Fui com medo, o medo que sempre bate quando as chamadas lendas do jazz fazem temporadas especiais. Muitas vezes, o que se houve é um pálido reflexo do que foram.

Mas Cleo & John estão espantosamente em forma. Ele, mais comedido nos solos (mas também nunca foi de grandes malabarismos); ela, com a voz naturalmente mais grave, mas entortando tudo, desmontando as músicas de uma forma que, ainda hoje, é rigorosamente inventiva.

Os arranjos de Sir Dankworth  - que se reveza em sax e clarinete a frente de piano-baixo-trombone-bateria - são ellingtonianos até à medula e, claro, escritos para Dame Cleo Laine - que é apresentada por ele assim, ao rufar da bateria.

Ambos me lembraram os velhinhos sacudidos de Cocoon: fazem piadinhas sacanas com a idade, com o casamento e, é claro, têm uma integração telepática.

No repertório, standards como "On a slow boat to China", "Peel me a grape"(espetacular), um "Easy living" de chorar e energia de meninos em "Don't mean a thing" e "Fascinantin' rythm

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/09/2008 - 19:27
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Parque temático de intelectual

Intelectual também é gente. Por isso, gosta de parque temático igualzinho ao adolescente que vai para a Universal e ou para a Disneyworld. Fui apresentado por amigos a um destes brinquedos: o Library Hotel.

É isso mesmo: um hotel que é uma biblioteca. Livros por todos os lados, gavetinhas das antigas salas de leitura forrando uma pareda recepção, monito batizado de Hemingway  - e por aí vai.

Mas o mais divertido é que, cada andar é batizado como uma seção da bilbioteca: Clássicos, Artes, Literatura, Filosofia, etc. E cada quarto tem uma particularidade, devidamente dotado de uma estante abastecida com os títulos afins.

Fico pensando como deve ser dormir num quarto Stephen King. Eu não topava. Mas também há uma outra estratégia: escolher um autor bem pretensioso - ou muito prolixo - como forma de garantir um bom sono.

Já imaginaram se este hotel fosse no Brasil? Eu ja. Mas não conta nem sob a mira de uma arma.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/09/2008 - 19:19
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É o Lobo!

António Lobo Antunes chega à uma sala lotada da Biblioteca Pública de Nova York com 10 minutos de atraso. Umas cento e poucas pessoas o esperam. Figura difícil em Portugal e nem tanto em outros países, ele parece bem mais moço do que nas fotos de divulgação de seus livros – fato raro, já que orelhas costumam ser uma eficiente máquina do tempo para escritores.

É estranho vê-lo pela primeira vez tão longe do Brasil ou de Portugal e, ainda por cima, falando em inglês fluente, atravessado aqui e ali por frases e raciocínios em francês. Calça e camisa jeans, extremamente simpático, nada deixa evidente a fama de “difícil” – até, é claro, começar a falar.

Seu interlocutor é, de longe o melhor entrevistador de escritores que já vi ao vivo. Chama-se Paul Holdengräber, é responsável pelo pelo programa educacional da NYPL e pela série de debates batizada “Live from the NYPL”. Seu lema é “fazer os leões rugirem”, numa alusão às figuras de pedra que guardam as escadarias da biblitoteca. E o que não falta é cutucada nos bichos: semana passada, Bernard Henri-Lévi e Slavoj Zizeck saíram no pau num debate sobre o destino das esquerdas. Esta semana, ainda tem Paul Auster e Spike Lee. E, nas próximas, um elenco eclético que vai de Joan Didion a Ferran Adrià, passando pelo maestro Daniel Baremboim.
 

Com a mesma doçura com que se derrama para seu editor americano – que o apresentou apaixonadamente, contando a história da edição americana de O que farei quando tudo arde?  – Lobo Antunes falou mais de uma hora sobre seu assunto preferido, a escrita, e tranquilamente, relatou seu enfrentamento com a morte: há 18 meses foi diagnosticado com um câncer e, depois de operações e quimioterapia, sente-se quase “envergonhado” por estar vivo, tantas foram as pessoas que viu morrer nas salas de hospitais que freqüentou.

Pois Lobo Antunes tem que reconsiderar, e logo, os convites para ir ao Brasil. É brilhante em seus raciocínios e, ainda que às vezes pareça artificialmente provocador, o que atravessa sua fala é uma sincera paixão pela escrita. Tudo o que eu escrever será pior do que ele falando, então segue um rápido pingue-pongue entre o escritor e seu entrevistador:

-    Qual a inspiração para O que fazer quando tudo arde? ?
-    Não gosto desta palavra. Isso não existe.
-    O que há de errado com a palavra inspiração?
-    Parece uma iluminação, uma coisa divina não gosto.
-    Certo. Como então surgiu a história que está contada neste livro?
-    Não conto histórias, eu escrevo.
-    Mas a história não tem o origem?
-    Não sou naturalista, já tem muita gente fazendo isso, não conto histórias. Escrevo sobre a angústia do homem no tempo.
E agora, os melhores momentos:

“Quem conta história é García Marquez. Gosto de ler seus livros. Mas não gostaria de escrevê-los”.

“O que é Ana Karenina? Uma mulher que tem um casamento entediante e tem um caso. O velho e o mar? Um homem tentando pegar um peixe.  Isso é história? E a Odisséia? Hoje eu vou vhegar em casa mais tarde”.

“É claro que tudo já foi dito, já foi escrito, mas as pessoas esquecem".

“Não há nada como Faulkner para um principiante: está tudo lá”.

“Quando escrevi o Fado Alexandrino, dei para o Cardoso Pires ler. Como vocês sabem, em Portugal não há editores”

“É mentira quando escritores falam de grandes nomes como influência. Eu comecei a escrever por causa do Flash Gordon.”

“Se houver cinco grandes escritores em todo o mundo já estamos bem.”

“Às vezes acho que pessoas tê a idade com que nascem. Algumas podem nascer grisalhas”.

“Nabokov é bom escritor. Mas está o tempo todo dizendo: ‘olha como sou inteligente!’ Victor Hugo, por exemplo, às vezes é estúpido.”
 
 “No fim da vida meu pai escreveu contos. Pediu que os lesse. Como filho ou escritor?, perguntei. Como escritor, disse ele. Seus contos são uma merda, respondi. E eram mesmo, ele não tinha imaginação”

“Quando era médico, cuidei de crianças terminais, com câncer. Quando um adulto morre, vêm dois enfermeiros e levam o cadáver numa maca. Quando uma criança morre, um enfermeiro a enrola em um lençol e carrega no colo. Tinha me apegado a um menino e, depois de morto, vi quando era levado por um enfermeiro, com o pé balançando, para fora do lençol. Eu escrevo para o pé daquela criança”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/09/2008 - 00:53
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Sutileza de elefante

Babar é um elefante muito do simpático. Não sei fez parte da infância de vocês. Da minha fez mas eu tinha esquecido. Tudo voltou como uma Madeleine paquidérmica na delicada exposição que a Morgan Library dedica à criação de uma das histórias infantis mais populares na França, “Drawing Babar – Early drafts and watercolors”.

Ali, lado a lado com manuscritos de Lizst, Bíblias de Gutemberg (três delas) e com a coleção de obras raras de John Pierpoint Morgan estão as aquarelas que o francês Jean de Brunhoff criou a partir de uma história que contava para os filhos antes de dormir. Lançado em 1931, Babar, Le petit éléphant,  foi um baita sucesso mas seu criador não teve muito com aproveitá-lo: ele morreria dois anos depois.

Laurent, seu filho mais velho, ficou órfão do pai mas não do personagem e, em 1946, retomaria – para toda a vida – a série de desenhos do elefante que, depois de testemunhar o assassinato da mãe por um caçador, vai para a cidade, passa a se comportar e vestir como gente e vira rei de seu povo, criando um mundo animal à imagem e à semelhança da civilização francesa.

Laurent de Brunhoff tem hoje 83 anos e vendeu para a Morgan o acervo do pai e o seu, base da exposição que mostra, passo a passo, a criação de Babar e seu renascimento. Os originais são sublimes e a transformação dos esboços em impresso fazem salivar qualquer um que gosta de livros.

Mas, como diria Sempé, nada é simples e Adam Gopnik, o francófilo jornalista da New Yorker conta numa ótima matéria da revista o problema que Babar virou  com o politicamente correto de um Ariel Dorfman (que é muito interessante mas vive pisando no quiabo), para quem o personagem dos Brunhoff reafirma o imaginário colonial da França, bla bla bla. Gopnik também assina um longo texto no catálogo da exposição e vai fazer conferência na Morgan sobre os elefantinhos franceses.

Nos anos 70, quando minha mãe me deu de presente uma coleção de, se não em engano, cinco livros, acho que Babar não chegou a fazer minha cabeça sobre a inferioridade dos povos africanos. E, reencontrá-lo tanto tempo depois, só me trouxe boas lembranças. Como vocês podem ver, Monsieur e Madame Babar (e seu bebê) até posaram para este blog, perdidos num hotel em Manhattan.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 22/09/2008 - 20:49
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Marsalis convida Jamal

Aos 78 anos, Ahmad Jamal tem energia de um garoto. Mas estatura de um mito do jazz, o suficiente para ser convidado por Wynton Marsalis para estrelar este início de temporada do Jazz at Lincoln Center – que desde 2004 não acontece mais no complexo de salas de concerto que lhe dá nome, mas no moderníssimo prédio da Time-Warner, entre o Allen Room, o Rose Theater e o Dizzy Coca-Cola Club (ninguém é perfeito e o patrocínio é necessário), duas salas e um clube que são nada menos do que perfeitas em acústica e confroto.

Jamal não se apresentou com uma pomba branca no ombro, como nessa foto aí de cima, mas bem que poderia. Sua placidez é a mesma diante do trio com que fez toda a primeira parte do concerto ou tocando com a excepcional Lincoln Center Orchestra, uma big band da pesada que, na segunda metade, executou três longas peças suas. Todo o repertório, aliás, era de sua autoria – com a exceção de “Poinciana”, o standard que deu nome a seu álbum de 1951 e tornou-se uma marca registrada.

Calorosa, a platéia é reverente como o próprio Marsalis, que entrou no palco com os demais músicos e não assumiu o lugar de band leader nem no seu primeiro e alucinante solo, tocando sentado. Tenho restrições ao tradicionalismo de Marsalis, mas é burrice da grossa não reconhecer sua importância, sua dedicação apaixonada e um empreendimento do tamanho do jazz at Lincoln Center. Uma sinceridade cristalina quando ele anuncia, cheio de orgulho: “Welcome to the house of swing!”.

Cheio de sutilezas, Jamal alternava pauleira e silêncio com o trio e consegui a mesma proeza com a orquestra, ellingtoniana de fazer chorar. O teatro, hiperlotado, veio abaixo. E fez ainda mais sentido a frase da bilheteira, quando, na manhã de ontem, sem esperanças, perguntei se havia ingressos. “You’re a lucky man!”. Restava um. Bom lugar. E por US$ 10.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 21/09/2008 - 23:11
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Quando eu ando pelo Soho...

... eu me lembro da Gamboa - depois de o Tom me ensinar, é claro. E hoje, no outono meio frio que às vezes vira verão, a música do Paulo Jobim veio muitas vezes à cabeça, pois dá para entender perfeitamente porque o Maestro era apaixonado por esta cidade.

Como vocês já perceberam, a partir de hoje e por uma semana, este blog-por-um-mês passa a ser transmitido  - uploadado? publicado?  - de Nova York. Não, a Bravo! ainda não está pagando a minha passagem, mas como trato é trato, contiua a blogar enquanto fico uns dias por aqui atolado de trabalho.

Mas sempre arruma-se um tempo, é claro, para dar uma de turista-turista ou turista-cabeça, ou seja, passar por lojas e museus. Mas, como sempre, o forte de NY é o meu fraco: não falta show bom. O que falta é tempo para dar conta das listinhas da Time Out.

Já comecei a maratona mas o jet-lag impede algo mais do que estas linhas. Amanhã eu conto.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 21/09/2008 - 00:36
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Podcast: Portugal

O oceano que nos separa de Portugal não é menos na cultura do que na geografia. Na música, por exemplo, somos quase analfabetos como que de melhor acontece por lá. Neste podcast (ouça aqui), procuro mostrar um pouco do que de interessante tem tocado por lá. Depois vocês me digam.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/09/2008 - 16:16
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Cláudio Ulpiano, o mestre




Mal tinha feito17 anos, fui parar numa aula de Cláudio Ulpiano. Tinha acabado de entrar para a faculdade de jornalismo e, diante daquela enxurrada de referências e provocações filosóficas, comecei a achar a profissão o fim da picada. Não fui um “aluno de Ulpiano”, pois minha indisciplina não permitia acompanhar seus cursos sistematicamente. Mas de suas aulas, assim como das de Carlos Henrique Escobar, guardei algumas idéias e muitas impressões de que a vida sempre poderia ser mais rica.

No caso de Ulpiano, estas injeções de vida vinham de uma leitura apaixonada de Gilles Deleuze, o que atraía gente com os mais diversos interesses, da filosofia em si aos usos que se pode fazer de conceitos na arte e, evidente, na vida. Lembro da primeira vez que o vi, uma figura impressionante: barba e cabelos meio desgrenhados, voz belíssima, olhos vivos e uma gentileza em ouvir os alunos e, também, no meio de uma passagem particularmente complicada interpelar a audiência com um “vocês estão acompanhando?” - ou alguma outra frase que te mantinha ali, certo de que iria chegar em algum lugar.

Cláudio morreu em 1999 e deixou pouco escrito. Sua obra é basicamente, suas aulas e, eu diria, o que sobrevive dele em cada um de seus alunos. Foram eles, fiéis ouvintes, cúmplices e parceiros que criaram o Centro de Estudos Cláudio Ulpiano e botaram no ar o site que é um retrato vivo como só a rede permite: textos, voz, imagem, manuscritos. No trecho que postei aí em cima, Ulpiano fala sobre “ a estética da existência” e emociona, pelo menos a mim, pela capacidade de fazer com que o extremamente complexo parece extremamente simples sem baratear o discurso ou jogar para a torcida. É comovente este reencontro com sua inteligência – e um convite para que se conheça um grande, enorme, mestre.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 18/09/2008 - 14:36
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O conselho do Lalau

No dia 30 de setembro, completam-se 40 anos da morte de Sérgio Porto. O criador de Stanislaw Ponte Preta tinha 45 anos e um coração frágil. Dispersou-se por jornais, TV e música para ganhar a vida. Deixou uma obra de rara coerência, talvez porque sempre, mesmo trabalhando sob encomenda, foi fiel à galhofa e a melancolia, atualizando a receita de Machado nos dourados anos 50.

Na condição de editor do Lalau (intimidade é fogo...) participei ontem de um debate, na Casa de Rui Barbosa, no lançamento do livro De Copacabana à Boca do Mato  - o Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta, resultado da tese em que Claudia Mesquita relaciona o carioquismo e as transformações da cidade à figura da fina flor dos Ponte Preta. Ângela Porto, filha de Sergio, aproveitou para acrescentar ao acervo do pai, depositado no impecável Museu Arquivo de Literatura da Casa, uma troca de correspondência entre ele e sua mãe, Dirce, e o caderninho de telefones em que está toda a sua rede de amizades, trabalho e amores.

Em vez de debate, a platéia falou sobre Sérgio. Maria Pompeu, Certinha de primeira hora, estava lá. Lan, o genial, também. Mas a melhor história foi de um fã que, tendo encontrado Sérgio numa praia de Cabo Frio, nos anos 60, fez com que seu ídolo ficasse esperando na areia enquanto foi em casa buscar os livros para autografar. Além de ganhar as assinaturas, levou o telefone de Sérgio para que ganhasse de presente um livro que faltava à sua coleção. No que foi abraçado pelo escritor, que aconselhou: “Meu amigo, não sei quem é mais burro: quem empresta livro ou quem devolve”.

Stanislaw vive!

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 17/09/2008 - 23:12
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Useless landscape




Para um fim de semana feliz: Ella Fitzgerald no Brasil, em São Paulo, 1971, cantando "Inútil paisagem" na versão de Gene Lees, para um Teatro Municipal lotado e companhada pelo Tommy Flanagan Trio. O improviso na segunda parte é um esculacho, com direito a citação de "A night in Tunisia".

Que a vida nos seja leve.

 

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 13/09/2008 - 13:05
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Clarice, o enigma






Quanto mais diligentes professoras de Letras ocupam-se em decifrar as vírgulas e parágrafos de Clarice Lispector, mais ela se fecha, cheia de mistérios, como bem entendeu Caetano e Capinan. Cioran dizia que a pior coisa que pode acontecer a um escritor é ser completamente compreendido – como, acreditava ele, aconteceu com Borges.

Mais um capítulo de desconcerto e desengano está nas páginas de Clarice Lispector, essa desconhecida (editora Via Lettera). Só que Julio Lerner, jornalista, não se aventura e interpretações: ele faz um memorial da opacidade de Clarice, um encontro de meia hora que reverberou por toda sua vida (Lerner morreu ano passado, antes de o livro ser publicado), tendo sido ele o responsável pela famosa entrevista de Clarice à TV Cultura de São Paulo (há um trecho postado aqui, vale a pena assistir a íntegra).

 Lerner mergulhou fundo, entrevistou pessoas próximas a Clarice (como Olga Borelli, amiga e uma espécie de secretária nos últimos anos de sua vida), foi à Ucrânia conhecer a aldeia de onde os Lispector partiram para o Brasil e, sobretudo, fez uma linda memória de seu encontro com a escritora. Uma entrevista improvisada num estúdio vago, que em menos de meia hora diz muito mais sobre a escritora do que tudo que já se escreveu sobre ela.

No livro, a transcrição ocupa onze páginas apenas. Há muito mais no não-dito e nos silêncios. Transcrevo a última pergunta e resposta, pois de resto é impossível resumir este diálogo:

J. L. : Mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?

C. L.:
Bom... agora eu morri... Mas vamos ver se eu renasço de novo... Por enquanto estou morta... Estou falando de meu túmulo...

Depois da gravação, preocupada, ela pediu a Julio que só exibisse a entrevista depois de sua morte. Perplexo, ele acabou acatando o pedido, mas em menos de um ano o câncer, que ela ainda desconhecia, matou-a.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 13/09/2008 - 12:46
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Olha o Lúcio!

Ainda na pororoca de emoções desencadeada pela exposição do Alécio de Andrade. Na sala dos retratos, falei, naturalmente: “Olha o Lucio!”. E fiquei durante um bom tempo, emocionado, olhando para aquele homem de cabelos ficando grisalhos, bigodinho rodrigueano milimetricamente aparado, sentado numa bergère e envolto numa nuvem, leve, de melancolia. Era o Leblon, era 1964 – três anos antes de eu ter nascido.

O Lúcio em questão é o Rangel. A intimidade poderia se explicar pelo fato de eu ter tido a honra de ser seu editor póstumo, na coletânea “Samba jazz e outras notas”, que o Sérgio Augusto organizou e prefaciou. Mas vai muito além disso: minha folga e impertinência vêm de Maria Lúcia Rangel, filha do Lúcio e minha amiga de infância, ou melhor, de adolescência, embora só tenhamos nos conhecido muito tempo depois das nossas tenras juventudes.

Pela Maria Lúcia eu conheço bem o Lúcio. Eu diria que já saí para beber algumas vezes com ele. Toda vez que ouvimos música juntos, o Lúcio está lá. Quando eu passo os olhos, embasbacado, pela biblioteca dele, posso ouvir um solo de seu trombone imaginário. Quando vejo sua coleção de volumes de Pléiade, trancadinhos num armário antigo, estou ficando mais íntimo dele.

E foi a emoção de rever um velho amigo que eu contei à Marilu, pelo telefone. Mas era mais: ela tinha sido amiga do Alécio, vivido boas histórias com ele em Paris, o Lucio, eu sabia!, adorava o Alécio. E, mais uma vez, constatei que sempre que eu encontro a Maria Lúcia Rangel, são dois amigos que me acolhem: a mais importante é ela, a real, a das afinidades afinadíssimas; e o outro, que não é amigo imaginário. É, isso sim, amigo póstumo. E de infância.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 12/09/2008 - 20:40
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Alécio de Andrade

Estou há alguns dias tentando escrever alguma coisa sobre a exposição do fotografo Alécio de Andrade, que começa um giro de dois anos pelos Institutos Moreira Salles a partir de sua sede aqui no Rio. A Bravo! de papel reproduz algumas destas fotos. É pouco diante da exposição montada em memória deste carioca que faria 70 anos se, há cinco, não tivesse morrido, bizarramente, durante a onda de calor que assolou a Europa como um todo e, especialmente, Paris, onde morou e trabalhou até a canicule fatal.

Para mim, Alécio de Andrade era um nome em letras miúdas que, não por um acaso, sempre associei às fotos de Otto Lara Resende que mais gosto, todas elas feitas no início da década de 70 no La Coupole, no Boulevard de Montparnasse. A melancolia de Otto é flagrante nesta série, que tão bem resume sua personalidade literária, “alma barroca”, como ele mesmo escrevia. Sempre fiquei com estas imagens e com o nome: Alécio.

Não adianta deitar superlativos aqui.  O mundo de Alécio é do detalhe, da sutileza, do pequeno gesto, do olhar interessado não em causas ou conceitos estéticos, mas nas pessoas e na paisagem à sua frente. Mais nas pessoas do que nas paisagens.  E mais em Paris do que em qualquer outra paisagem, cidade que tem os traços de uma mulher daquelas complicadas, sedutora, um pouco vulgar em sua super-exposição e cheia de segredos para quem se dispõe explorá-la e ir além do preço alto do turismo, puro e simples.

Como mundo e meio, Alécio foi discípulo e Cartier-Bresson e, chegou mesmo a ser um amigo próximo, como atestam os carinhosos postais reproduzidos no catálogo – excelente, de excelente preço (R$ 58) e com tiragem de mil exemplares apenas. Mas, diferentemente de Bresson, seu olhar é pouco racional, brutalmente afetivo no interesse por seus modelos e cenários. Entre os primeiros estão crianças, numa séria acachapante que inclui um trabalho feito em conjunto com a psicanalista Françoise Dolto – as fotos mais populares dela, na capa de seus livros, são de Alécio.

Ao escrever sobre sua primeira exposição, justamente a que reúne as impressionantes crianças, realizada no rio em 1964, Carlos Drummond de Andrade matou a charada: “Olha, descobre este segredo: uma coisa são duas – ela  mesma e sua imagem”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 12/09/2008 - 19:41
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O eterno homem triste


Leonard Cohen está tinindo. 74 anos, corpinho de 73, caiu na estrada depois de uma longa reclusão. Para nosso azar, estrada européia: dia 21 de setembro em Bucareste, 24 em Viena, etc. Fui ver onde ele estava depois de assistir, com direito a alguns replays, a “I’m your man”, mistura de documentário e show que acabou não saindo por aqui e vale a importação do DVD. Lançado em 2006, o filme mistura depoimentos de Cohen com gente das novas gerações que, de alguma forma, combinam com sua melancolia empedernida: Nick Cave, Rufus Wainwright, U2, Jarvis Cocker e, dentre outros, o incrível, fantástico, extraordinário Antony (já ouviram? É o máximo).

O dito Antony (“If it be your will”), Cave (“I´m your man”) e Rufus (“Chelsea Hotel n 2” , dentre outras) batem o maior bolão ao conciliar as letras espetaculares com seus vozeirões, deixando meio de lado o recitativo que Ele imprime a qualquer interpretação. Mas foi da voz gauche de Cohen que mais senti falta: sou fã de compositores não-cantores como Tom Jobim, Harold Arlen, Vinicius de Moraes, Michel Legrand. E aqui Cohen fala (pouco, é claro) e só entra num clip, gravado, que postei aí em cima, com o U2 acompanhando-o em "Tower of song" – notem que Bono está humilde (!) como a Madre Teresa de Calcutá pagando um backing vocal para o Ladie’sMan.

Pois é em Leonard Cohen cantando que está a essência de Leonard Cohen. Uma amiga, maldosa, diz que ele, com sua voz sussurada, faz música de motel para intelectual. Seria a falência do estabelecimento, pois uma vez que ele começa a cantar é impossível fazer outra coisa que não seja prestar atenção no que está sendo dito. Chega de papo, “Tower of son” é auto-explicativa:

Well my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And I'm crazy for love but I'm not coming on
I'm just paying my rent every day
Oh in the Tower of Song

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 11/09/2008 - 14:14
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As caras da literatura

Quem gosta de livro gosta também do objeto. O velho Borges, não sem ironia, defendia que o livro é um cubo de papel, “uma coisa entre coisas”. Mas todo mundo que, ao longo dos anos, vem construindo uma biblioteca sabe que, mais do que objeto, eles são seres, com cheiro e personalidade distintas. Sempre achei possível, pelo menos idealmente, escrever memórias exclusivamente a partir de livros que foram lidos em determinados momentos da vida.

Orhan Pamuk me explicou  o porquê num textinho magnífico, “Nove notas sobre capas de livros”, incluído em Other colors, reunião de ensaios lançada ano passado nos EUA. Uma de suas observações, a última delas,  mata a charada:

“Os títulos dos livros são como os nomes das pessoas: eles nos ajudam a distinguir um livro dos milhares de outros com os quais ele se parece. Mas as capas de livros são como os rostos das pessoas: elas tanto nos lembram de um momento feliz que vivemos quanto nos prometem um mundo de felicidade ainda a ser explorado. É por isso que olhamos para as capas de livro tão apaixonadamente quanto o fazemos com os rostos das pessoas”.

Pense bem: quantos autores não estão inevitavelmente associados com as capas de seus livros nas edições que os lemos? Para mim: o  Fernando Pessoa da coletânea O eu profundo e os outros eus; os Dublinenses traduzidos numa cena de rua da cidade de Joyce (na versão de José Geraldo Vieira); o desenho, tão sóbrio e minimalista, que Fernando Sabino deu a seus livros nas últimas décadas; a família de beatniks reavivada nos anos 80 pela Brasiliense e pela L&PM, o Eisenstein, dos anos 60, na Zahar; o Bestiário de Cortázar na Civilização Brasileira; e por aí vai.

E vocês? Que caras tinham seus autores favoritos?

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 09/09/2008 - 22:26
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Raskolnikov no Baixo Leblon

Da série “Critica literária numa hora dessas”.

Jobi, dez horas da noite. Dois amigos dividem uma mesa. Jovens, advogados, ambos de terno, já com as gravatas sem laço, emendando uma happy hour. O que chega minutos depois bota na mesa uma edição, vagabunda, de Crime e castigo. E, batendo na capa do livro, manda ver:

“É dureza, cara. A parada exige, exige mermo. Se é legal? Não, é meio chato. Mas não consigo largar. Tu vai entrando na paranóia do cara, bicho, é uma doidêra. Mas a parada exige, não é fácil não”.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 08/09/2008 - 06:48
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Muriloscopista

Morreu Luciana Stegagno Picchio. Tinha 88 anos e foi responsável pela edição definitiva da obra de Murilo Mendes, o que por si só justificaria uma vida tão longa. Mas fez muito mais divulgando a literatura brasileira e portuguesa pelo mundo a partir de Roma, onde vivia e dava aulas. Era formal como a schollar consagrada que de fato foi e, ao mesmo tempo, muito divertida, cheia de histórias e gargalhadas.

Entrevistei-a em 1994, quando lançou o tijolaço (1782 páginas) da Poesia Completa e Prosa  de Murilo pela Nova Aguilar. Numa varanda do Hotel Novo Mundo, no Flamengo,  falava com paixão sobre a obra do poeta mineiro como se fosse sua e fazia pensar na importância, incomensurável, deste tipo de dedicação, quase anônima, para perenizar um escritor – o extremo oposto da auto-referência que assola o mundinho literário.

Luciana nos deu uma História da Literatura Brasileira; o Brasil retribuiu com um silêncio ensurdecedor na hora de sua morte, em 28 de agosto. Soube da notícia por um leitor do blog de Luis Nassif e, na rede, há o emocionado texto da professora  Vera Lúcia de Oliveira, que ensina na Itália. Em Portugal, o presidente Cavaco Silva  pronunciou-se oficialmente lembrando seu papel para a cultura portuguesa.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 07/09/2008 - 14:03
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05/09/2008

Eu já tenho o meu Correio da Manhã:  ele é o Notícia e Opinião, mais conhecido como NoPonto ou http://www.no.com.br/ .  Não deveria, mas explico: desde que comecei a querer ser jornalista, sempre ouvia histórias dos paraísos perdidos da profissão: o Correio da Manhã , a Senhor , o antigo JB, sempre citados nostalgicamente por professores ou colegas mais velhos como os grandes momentos de suas vidas profissionais, instantes de felicidade que se passaram há muito, muito tempo. Como mudei eu e o tempo, o No. (2000-2002) é minha Pasárgada virtual, perenizada até em trabalhos acadêmicos e desaparecida no cyber-espaço há muito, muito tempo. Um tempo em que trabalhar “na Internet” ainda parecia uma esquisitice. Manter um blog, nem se fale.

A falta de objetividade do parágrafo anterior diz muita coisa: há seis anos, deixei de ser jornalista para ser editor de livros. O leitor, a esta altura exasperado, pode ser perguntar: “e eu com isso?”. Se você chegou até aqui, é bom que saiba,e para isso serve este post inicial,  que este blog-por-um-mês nasce do convite do João Gabriel de Lima, o único Paulista Carioca da vida real, e também da compulsão de escrever e compartilhar algumas idéias e impressões que, vá lá, deverão ficar mesmo em torno de livros e discos  - sendo a vida alguma coisa estranha que se passa, brevemente, entre uns e outros.

Editar livros, dar aulas (de produção editorial) e manter um blog não é tarefa das mais fáceis. Por isso este aqui ganha atualização ao sabor do comichão bloguista, ou seja, algo entre mais de uma vez por dia ou três por semana. Como o tempo, ele de novo, passa rápido, já sou vovô nessa história de internet e volto a ela cheio de emoção, como Cascatinha e Inhana, numa noite tíbia, cantando as belezas do Lago Azul de Ipacaraí.

Muito prazer.

 

Postado por: Bravo Online | 05/09/2008 - 17:19
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