Blog do Paulo Roberto Pires |
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A viagem da Azriana Galganhoddo |
O fim de uma era |
Nós, autores |
A lenda urbana de Hermano ViannaNum "balanço" (sic) do festival, os curadores do TIM fazem a defesa do indefensável: não, o barulho das outras tendas não acrescentou um grave e profundo "mmmmmmmmmmmmmmmmm" aos shows de jazz.E Hermano Vianna vai mais longe: vazamento de som é uma "lenda urbana". Ah, tá, agora entendi. Descobri, de quebra, que eu e muitas outras pessoas reclamando somos parte do fabulário urbano, como a Mulher de Branco, o Bebê Diabo e o Rendezvous das Normalistas. Hermano insinua ainda que há provincianismo nas reclamações, pois segundo ele no Roskilde Festival, na Dinamarca, Kayne West tocou "a 20 metros" de Sakamoto e este nem reclamou. Problema do Sakamoto, que não estava tentando ouvir a Carla Bley na Marina da Glória. Sou espectador de carteirinha desde o Free Jazz. Acho a abertura para outros caminhos do festival mais do que desejável - se não, como teria visto no Brasil um show do Kraftwerk e do citado Belle et Sebastian? Mas fazer papel de palhaço é um pouco demais, quando o mais simples é tentar isolar a tenda, sim, e fazer uma festa ainda melhor do que é.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 26/10/2008 - 10:06 |
Carla Bley ou a perfeiçãoAos 72 anos, Carla Bley pertence à velha guarda do jazz só cronologicamente. A música não é uma relíquia de tempos idos, mas uma obra em movimento, complexa pra burro, belíssima e exigente. Felizmente, quando ela entrou no palco, os gritinhos já tinham cessado com Esperanza, os suspiros já se tinham ido com Stacey.Quase metade da platéia vazia, foi Possível assistir a um show em paz – tendo ao fundo, é claro, o bate-estaca de outras tendas. Mas tia Carla não estava nem aí. Toda de preto, com a banda de preto, o maridão no baixo (um maridão brilhante e bravo, que expulsou do palco o invasivo câmera do festival de suas investidas contra a banda), ela anunciou uma suíte longe, em seis partes. Todos lendo as partituras, cheias de silêncios e ataque do sax e do fluglhorn. Uma viagem. Bley é das atmosferas, na linha do mestre dos mestres, Gil Evans, e refeltindo muito na genial Maria Schneider, que há dois anos fez com sua orquestra um show memorável. Bley organiza sua viagem com rigor, torna as repetições hipnóticas e nem passa perto daquele “muito-esforço-para-nada” de muitos artistas do free jazz. Falou pouco, para anunicar a falta de necessida de anunciar uma “La Paloma” evansiana. E ainda voltou para um bis, em mpouco mais de uma hora. Aí, o batidao de fora já tinha cansado, a madrugada corria solta e, desfeita a confusão de uma sala de música com uma boate, deu-se o grande show de jazz depois da festa comanda por Sonny Rollins na quinta. Aqui, um trecho da organização do TIM, a que botou a câmera quase entrando no piano de Carla Bley.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 25/10/2008 - 14:11 |
Stacey Kent ou 'viva o maridão!'Eu amo Stacey Kent. Quem me apresentou a ela foi o Flávio Pinheiro. Me disse que era uma Blossom Dearie mais velha, com uns, hummmm, 19 anos. Desde 2000 acompanho razoavelmente a americana radicada na Inglaterra e que tem como maior defeito não desgrudar do maridão, o inexpressivo saxofonista Jim James Tomlinson. Stacey é um charme. Estava genuinamente emocionada de tocar no Brasil. Seu último disco, base desta turnê que a trouxe aqui, “Breakfast in the morning tram”, é Brasil na veia nos arranjos e em duas escolhas: “So many stars” (Sérgio Mendes) e “Samba –Saravah”( a charmosa versão em Frances do “Samba da bênção”). No show, acrescentou a elas uma linda “Águas de março”(aí em cima), o grande momento musical da noite. Para começar, a banda pilotada pelo maridão (insistentemente elogiado por ela, reverenciado por ela, endeusado por ela) é quase anódina. Mas funciona bem em ambiente pequeno, onde a voz de Stacey pode brilhar em suas sutilezas – como a vi em 2002 num lindo show no Ronnie Scott’s. Mas ontem, tudo ficou um pouco pior com a tenda vazada por gravíssimos graves de shows vizinhos - um descaramento da organização do TIM, que cobra preços astronômicos e está se lixando para o isolamento acústico das tendas. É um elenco de primeiro mundo com infra-estrutura de festa junina e colégio público de subúrbio, que conheço bem. Mas entre uma ode e outra ao marido, Stacey foi brilhante, como se funcionasse à parte de banda. Especialmente em sua versão para o “Ces petits riens” de Serge Gainsbourg, também melhor do que no disco. É uma artista da sutileza, talhada para palcos bem precisos, que ficou deslocada neste TIM. Mas melhor com ela, do que sem. Mesmo com o maridão.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 25/10/2008 - 14:00 |
Esperanza Spalding ou gritinhos na platéiaEsperanza Spalding abriu ontem os trabalhos no TIM Festival (Rio) com público de rock em casa de jazz, ou seja: gente mal educada, que chegou muito atrasada, ficava saracoteando pra lá e pra cá, falava alto e transformava os “u-huuuuuuus” em parte das músicas. Tudo isso entre mesinhas apertadas.Teoricamente, era o que tinha de mais novo neste festival: uma garota de vinte e poucos anos, que toca (bem) baixo acústico e canta, mistura world music, standards, funks e pop. Uma garota que poderia estar em qualquer tenda e que, depois de ter visto o show, achei melhor que tivesse sido alocada em outra que não o clube. Não digo isso pelo purismo do que é “jazz”, postura que odeio, mas pela pegada mesmo de Esperanza, mais até para dançar do que para ouvir, misturando tudo sem muito critério mas com um resultado muito interessante. Entusiasmo, razão de ser e às vezes problemas dos mais novos, é o que não falta na estrelinha ascendente. O show é melhor do que o disco, “Ponta de areia” é incrivelmente mais bem resolvida (com direito a citação de “Paula e Bebeto”), “Wild is the Wind” bebeu na dramaticidade de Nina Simone e “Body and soul”, felizmente, foi tocada sem a letra em espanhol da gravação. O que é grave: Esperanza Spalding tem síndrome de Flora Purim. Exagera nos scats até rachar o cano. Há momentos nada menos do que insuportáveis, de exibicionismo vocal e chatíssimos “badabadabauíiiiiiiiiii”. Momentos bons para pegar uma cerveja. Ou gritar “U-HUUUUUUUUUUUU”. “UUU”! Abaixo, um bom momento do show de ontem, já no You Tube: “I kow you know”. Fique diante do computador e dê você também o seu gritinho: “U-huuuuuu”!
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 25/10/2008 - 13:33 |
"Quando ouço falar em cultura...... saco um suplemento cultural", diria Goebels depois de ler a ótima reportagem de Lucia Guimarães em seu site recém uploadado. Este blogueiro é entrevistado da matéria, digo logo, mas não é a auto-referência que cimenta este post. É o diagnóstico, preciso, do terreno baldio, para o bem e para o mal, em que a área se transformou. Vale a leitura e a boa provocação da Lucia.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 24/10/2008 - 19:00 |
O Sonny reencontradoAssim se passaram 23 anos. Só conta redonda dá bolero, eu sei. Mas esta aí, quebradinha, bem pode dar jazz, pois era só isso que pensava na noite de ontem, assistindo à abertura do TIM Festival no Rio tendo ao lado dois amigos, encontrados por acaso, que também estavam em outro show de Sonny Rollins, histórico, realizado em 1985 no Parque da Catacumba.Naquela época, eu comprava os primeiros discos de jazz, não tinha ouvido Sony Rollins e lembro com nitidez assustadora ele de chapeuzinho, tocando uma versão infinita de “Isn’t she lovely” (que tocou em São Paulo mas não ontem), andando no palco de um lado para a outra, o sax como parte de seu corpo. Naquela época, Fernando Gabeira queria ser governador e, menos de um ano depois do show da Catacumba, “abraçamos” a Lagoa em apoio a uma candidatura movida menos pela conseqüência do que pela importância de se posicionar. Ontem, um sujeito que, naquela época, deveria ter a idade que tenho hoje, vira para mim na fila da bebiba e, sem mais, pergunta: “Vai votar no Gabeira, né?”. Digressiono, pois, porque o show de ontem não foi jazz. Foi uma viagem ao tempo do blogueiro, que não necessariamente é de interesse público, mas também ao tempo em que um músico ganha seu lugar no cenário apenas pela primeira nota que sopra. Não precisa bula conceito, ou teoria. Só a nitidez, a clareza das idéias e das emoções depurada nos 78 anos que fazem de Sonny Rollins não uma “lenda viva”(risos), mas tão simplesmente um estilista de precisão flaubertiana, “a nota justa”não desperdiçada nos brilharecos dos solos de tirar fôlego. Assim se passaram 23 anos, daquele gramado da Catacumba para as mesas dispostas no galpão do TIM que mais parecia uma churrascaria. Falatório danado, eu desconfortável até em cadeiras, e a pergunta daquele meu amigo que foi ao show de 85: “Esse cara aí é o que toca com os Rolling Stones, né”? Muita gente, ontem, só sabia isso de Mr. Rollins. Uma casal até dançou, romanticamente, ao som de “In a sentimental mood”, como seu o Colossus fosse Severino Araújo. Mas é melhor assim. Foi show de jazz com jeito de show de rock, música de primeira, solos debateria medíocres para o público fazer “uhu!!!!” e o biscoito finíssimo de Rollins para servir de madeleine para um tempo felizmente passado. Na noite de hoje, para ver Esperanza Spalding, Stacey Kent e Carla Bley teremos silêncio. Mas não mais os gramados da Catacumba. É assim mesmo? É, claro.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 24/10/2008 - 08:40 |
A besta da Tina Brown |
Toc, Toc, Toc"Os negros estão dominando o mundo. Colin Powell, Condoleeza Rice e agora o Obama. Mas ele não devem ganhar, pois no fundo eles (os negros) não estão preparados para esta vida. Outro dia sentou um aqui do meu lado e deixou o resto de uma maçã. Era da África. É próprio deles se comportar assim. Os Estados Unidos não vão deixar que um seja presidente".De um motorista de táxi em Frankfurt. Turco. Ainda bem que no caminho para o aeroporto. Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr.
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| 19/10/2008 - 08:41 |
Noites brancasTentativa de descrição das noites no Frankfurter Hof uma versão atualizada daquelas praças de cidade do interior, a rua do vai-e-vém onde não acontece nada com ninguém (os personagem são verdadeiros mas, esqueçam, nenhum deles é brasileiro):O editor modernete, não se de que pais, tenta beijar, repetidas vezes, a moça de cabelos vermelhos, que rouba uma garrafa de champanhe (15 euros a taça!) e vai embora. Sozinha. O outro editor modernete – este sei quem é – bota o sapato propositalmente velho e expões sua calça minuciosamente rasgada para delírio da mocinha vestida como se fosse à Ópera. É moderno, é descolado. A agente literária que, de uma feira para outra, enlouresceu e, realmente, se acha. A comunidade masculina desaprovou, mas ela não percebeu. Dois alemães urram como se estivessem num jogo de futebol. Um nos conta que está consolando o outro, que levou um fora da namorada. Livros? Elss não tê, a menor idéia. Entraram ali porque pareciam sozinho. Há, diz a lenda, casais de Frankfurt, geralmente asados com outras pessoas, que só se encontram ali. Me mostram um destes, lendários, e parece ser isso mesmo. Mas acho a história boa demais para ser verdade. Pela primeira vez, vi um moicano. Rosa. Parece uma cacatua que bebu anilina. Não estou me sentindo bem e, assim, aterrorizado, encerrei minha participação no lobby do vai e vem.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 19/10/2008 - 08:38 |
Notícias do fim do mundo |
Tá reclamando de quê? |
Vida de lobista“Vamos fazer um lobby?”, pergunta gaiatamente um escritor. Não ouvi a resposta mas sei que ele não trocou a literatura pelo lobismo. Ele convida para dar uma volta no lobby do Frankfurter Hof, o hotel mais tradicional de Frankfurt, uma espécie de Copacabana Palace mais feio que é o ponto de encontro de todos, TODOS os agentes e editores.A Feira, na verdade, começa hoje, terça, entre as poltroninhas do Frankfurter Hof. Barulheira, calor e gente olhando e sendo olhada: esta é a coreografia do início da maratona de negociações. É dificílimo conseguir lugar. Duas mulheres fazem seu reunião numa escadinha ao lado do pátio do hotel. As garçonetes tentam atravessar a multidão com bandejas do café e da água mineral mais caros que você pode imaginar. Hoje, de dia, é tudo trabalho mesmo. A partir desta noite, é tudo badalação. O pessoal do hotel arrasta as poltroninhas e instala pontos de venda de cerveja e champanhe. E fica todo mundo parado, copinho na mão, vendo o movimento. Igualzinho a uma cidade do interior. E tome beijinho, aperto de mão e troca de cartões. E, entre uma coisa e outra, até se resolve uma questão pendente. Ou negocia-se um detalhe. A cada ano, me prometo não marcar nada no FkfHof. A cada ano, me prometo não passar lá “mais tarde” para as caríssimas cervejas e uma defumação completa de cigarro. Hoje, já fiz minha reunião. Mas amanhã, prometo, lá não passo.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 14/10/2008 - 13:28 |
©Murakami |
O hommus editorialis |
Ao vivo, da livraradaA partir de amanhã este blog vira o diário de um editor na Feira do Livro de Frankfurt, o maior e mais tradicional evento deste mercado estranho e curioso numa época que quase ninguém quer ler. São dez pavilhões a percorrer e dezenas e dezenas de reuniões.Não é muito empolgante, né? Mas, como tudo, Frakfurt, a feira, é um interessantíssimo zoológico humano. E, pela primeira vez em dez anos, me disponho a tentar este registro diário. Vamos ver no que dá. Também estarei no Twitter. É só seguir aí embaixo.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 12/10/2008 - 11:41 |
Nós, críticos |
Europa 1 X Provincianos 0O Nobel de Literatura para Jean-Marie Le Clézio é, de certa forma, natural.A Academia gosta de nomes obscuros (ou não) que dêem à sua obra um sentido político pronunciado ou, como no caso do escritor francês, de autores que representem uma determinada idéia do "literário", em geral relacionada a rebuscamentos de linguagem e a uma certa literatice. Mas a premiação fica, no mínimo, estranha em seu rigor depois das declarações desastradas do Secretário Geral do prêmio. Em entrevista comentada aqui - e em todo o mundo - Horace Engdahl, o tal secretário, cantava as virtudes da literatura européia sobre o suposto provincianismo da produção norte-americana, anunciando os rumos da premiação. Numa boa, para este que vos bloga um livro de Le Clézio não vale um diálogo de Philip Roth, o provinciano. E, sinceramente, avaliar a literatura em termos de expressão geográfico-cultural é bobagem mesmo. Mas, se é para entrar nesta lógica Emilinha X Marlene, tenho prefirido o time de Thomas Pynchon, John Ashberry e Edward Albee. Em tempo: este prêmio é o mesmo que ignorou Jorge Luís Borges e João Guimarães Rosa, né? Ok, só para conferir.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 09/10/2008 - 15:34 |
FEBEAPÁ sem fronteiras |
Buemba! Um mapa da cultura em NY |
Podcast: Patricia Barber |
Um clássico do samba-ZecaO que Zeca Pagodinho conseguiu desde seu primeiro disco, de 1986, não é pouco. Primeiro e mais importante: ele é popular sem ser populista, agrada a inteleca e patricinha, cachorra e pagodeiro, vetustos senhores e sua seriíssima esposas. Tudo isso sem fazer de sucesso sinônimo de porcaria, muito pelo contrário: poucos artistas trabalham com tanta liberdade e a utilizam de forma tão inteligente. A segunda conquista é parceria com Rildo Hora: com seu produtor mais recorrente ele criou um samba-Zeca que hoje é quase um gênero. Soa inconfundível; às vezes pela repetição, é verdade, mas principalmente pela inventividade com que cordas e metais misturam-se, sem invencionice, a um samba de primeiríssima qualidade que não passa nem perto das entediantes discussões sobre “raízes” e tradição - umas e outra em perfeita sintonia com que tudo que faz, sem forçação de barra. “Uma prova de amor”, o 19o álbum-solo que chegou agorinha às lojas, é um dos melhores da safra mais recente – aquela história de “gafieira”, com aspas, não me convenceu. E vale a pena só por “Não há mais jeito”, romântico sem melado de Monarco e Mauro Diniz que, na modesta opinião deste blogueiro, já é um clássico. Bem menos tradicional, mais samba-Zeca, “Ogum” (Claudemir e Marquinhos PQD) é devoção ao santo para arrepiar ateus de todas as extrações com cordas, contracantos e Jorge Ben Jor recitando a oração de São Jorge, que eu postei aí em cima. Pode ficar por aí que está bom. Mas há mais: Velha Guarda em pot-pourri de clássicos da Portela (“Falsas juras”, “Pecadora” e “Manhã brasileira”), “Esta melodia” para se ouvir de mão no peito, vestido de azul, branco, verde, rosa. Duas crônicas hilárias, “Normas da casa” (Zé Roberto) e “Terreiro em Acari” (Alamir, Roberto Lopes e Nilo Penetra) e uma redondíssima “Sincopado ensaboado” do mesmo Trio Calafrio (Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande) que é responsável pela inacreditável “Dona Esponja”, lançada em “À vera”, de 2005. Vai lá, bota “Uma prova de amor para rodar” e vê, ouve e dança se é exagero. É um gol, o mais perfeito desde o disco de 1998, que trazia “Vai vadiar”, “Chico não vai na curimba”, “Seu balancê” e “Sem essa de malandro agulha”. É o samba-Zeca em sua melhor forma. Ah, e ainda há uma faixa-bônus que, como poucas, faz jus ao nome: Zeca e João Donato, arrebentando em "Sambou... Sambou". Esta, só ouvindo mesmo.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 05/10/2008 - 19:24 |
O livreiro de Camdem TownO ponto de vista é dos mais interessantes: uma livraria, as pessoas se revelam como exatamente são: em cada compra confessam o inconfessável, expõem suas carências, eventualmente surrupiam uns livrinhos, mendigam para que o livreiro compre aquela caixa de volumes velhos deixada pelo pai doente. Mas o melhor é o argumento de Orwell para jamais, em tempo algum, ser livreiro para valer, full time: “Enquanto trabalhei em livraria, perdi o meu amor pelos livros. Um livreiro têm que mentir sobre livros e isto faz com que enjoe deles”. A regra, é claro, vale para ele, mas acho que tem seu fundo de verdade para todos os momentos em que o objeto de desejo confunde-se com o objetivo do trabalho.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 03/10/2008 - 17:19 |
Literatura + moneyPara quem acha que literatura e dinheiro são incompatíveis, a Forbes publica a lista dos dez escritores mais bem pagos do mundo.Na cabeça, J. K. Rowling, que mandou para o cofre 300 milhões de dólares entre junho de 2007 e junho de 2008. Em segundo, mas bem atrás, James Patterson, com 50 milhões. Na lanterna, Nicholas Sparks, com 16 milhõezitos. Mais detalhes da lista, que inclui John Grisham e Stephen King, na reportagem da revista.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 02/10/2008 - 14:21 |
Começou a loteria suecaJá começou a loteria do Nobel de Literatura. Semana que vem, a Academia Sueca começa a anunciar as premiações mas, como acontece tradicionalmente, o escritor escolhido em 2008 só será conhecido na semana que começa no dia 13, para que o anúncio seja feito em plena Feira de Frankfurt.O blog de livros da New Yorker já entrou na especulação e indica: 1. que o escritor dificilmente será americano, mandando o distinto leitor para a entrevista de um dos principais membros do júri, que dedica à cultura americana palavras não exatamente generosas; 2. que os bookmakers londrinos, que não perdem uma, apontan Cláudio Magris e Amos Óz como favoritos (na verdade, eternos favoritos), seguidos pela prolífica e soporífera Joyce Carol Oates. Duas histórias boas: em 1997, quando fui à Frankfurt pela primeira vez, como jornalista, o favorito era José Saramago, sendo Portugal o país homenageado da Feira. Deu Dario Fo, que foi cumprimentar o suposto concorrente no estande de sua editora. No ano seguinte, Saramago passou por Frankfurt e foi pego no aeroporto, voltando para Lanzarote, com a notícia: o Nobel era dele. Em 2002, fui parar na Feira pela primeira vez como editor. Pouco antes da premiação, geramente anunciada às 13h da quinta-feira, segundo dia da feira, o meu então chefe tirou do bolso um papel amarfanhado e vaticinou: o Nobel será um húngarao, "Kretz, Kertes, alguma coisa assim". No estande da editora espanhola, ninguém levou a sério. Nós, que vínhamos do Brasil e éramos completamente ingênuos, partimos para a internet, descobrimos que o mais próximo deste nome era Imre Kertész e fizemos a oferta pelos direitos minutos antes do vencedor oficial. Sorte de principiante e uma das raras vezes em que vi uma previsão (na verdade, uma inside information) funcionar na mais bem paga loteria literária que se conhece.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 02/10/2008 - 12:51 |
A realidade mordeTrabalho no meio do Complexo da Maré, uma reunião de 17 favelas que pode ser o inferno ou ridiculamente calmas como uma cidade do interior. Pois ontem, saindo do Timbau, uma das comunidades em questão, vejo da Linha Vermelha um enorme muro deo tijolos com a pixação, em letras monumentais:"Brizola vive!" Não, não era uma propaganda do neto do ex-governador, candidato à vereança. Era um statement, puro e simples, da realidade muito alucinada desta cidade.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 02/10/2008 - 08:21 |
O cerco de JoãoA melhor coisa dos 50 anos da bossa nova (que já comemorou seus 43 anos e meio, 44 e oito meses, 48, haja...) foi o show de João Gilberto. A segunda melhor coisa, o lançamento de Eis aqui os bossa-nova, de Zuza Homem de Mello. Trata-se na verdade da segunda edição do livro, publicado pela primeira em 1976 e hoje mexido e remexido pelo autor. Tem sabor de novidade, pelo menos para mim.A idéia não é original e Zuza – que há pouco publicou suas excelentes memórias de contrabaixista e critico, Música das veias – entrega a fonte: Hear me Talkin’ to Ya, em que os americanos Nat Hentoff e Nat Shapiro ouviram mundo e meio do jazz para que, através de seus depoimentos, minimamente editados, contassem sua própria história. Zuza intervém aqui e ali, pontua, esclarece e deixa a memória dos inventores correr solta, sem impor versões, fazer literatice ou levantar bandeiras revisionistas. A melhor coisa dos 50 anos da bossa nova, na verdade, foi ter visto João no Municipal e ler, através de Zuza, a explicação que Johnny Alf dá para o estilo que ele mesmo começou a desenvolver e que um jovem violonista baiano transformaria numa das revoluções mais consistentes da música: “No jazz, o pianista, quando faz o acompanhamento, nunca toca os acordes marcando os tempos; o pianista de jazz fica cercando o solista naquele prisma harmônico da música, apenas nas passagens necessárias. A música é que o orienta, e ele, por sua vez, ajuda harmonicamente o solista. (...) A batida da bossa nova tem justamente um pouco disso, porque no caso de um cantor que se apresenta só com violão, ele se utiliza do instrumento como um cerco para sua voz”. Pois não é outra coisa que João faz na abertura do show do Municipal que segu aí. Reparem na segunda parte de “Você já foi à Bahia?”. João vai cercando, cercando, o mundo parece parar. E acho que pára mesmo.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 01/10/2008 - 08:27 |