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Blog do Paulo Roberto Pires

A viagem da Azriana Galganhoddo

O Chico Buarque, como se sabe, foi dar em Budapeste sem sair de casa, num romance voluntário que se passava na Hungria. A Adriana Calcanhotto, que pegou um avião de verdade e foi cantar em Lisboa, acabou dando no centro de si mesma numa viagem involuntária que resultou num livro não menos involuntário, “Saga Lusa”.

Li ontem de uma só vez, depois de voltar do lançamento. Fiquei com medo de não dormir. Fiquei com pena que acabasse. Fiquei exausto por ela, fiquei exausto pela briga que é às vezes concatenar o que se vive e o que se percebe, o que se percebe e o que se escreve. Caraca, maluco, diria Aristóteles.

Explicando (fiquei contaminado pela digressões que se digressionam da Adriana): esta “Saga Lusa” é um relato, extravagantemente divertido, do piro total em que a cantora entra depois de tratar do que parecia uma gripezinha com remédios que, misturados com outros remédios e outros remédios, lançaram-na numa viagem à roda de sua cabeça. E, no caminho, a Adriana ficou toda “ona”: acordadona (muitas e muitas horas), doidona (demais), viajandona (como já se disse, sem querer). 

Escrever foi uma das formas de tentar agarrar o sentido     à unha. Não o sentido da vida, mas o sentido do banho, da comida, da música que houve, das tremedeiras, da secura na garganta, da fala enrolada como título deste post, do pensamento  que emenda no outro e parece que vai estourar. Ou seja, o sentido da vida sim em quartos de hotel longe de tudo que é casa, dos gatos, dos cachorros.

E o que nós temos com o que aconteceu com a Adriana, toda “ona”? Antes de gritar “egotrip!”, o belo tipo faceiro na frente deste monitor deve viajar na viagem. Pois não é da autora que ela trata, apesar de só tratar dela: a “Saga” é uma luta corporal mesmo da consciência com as palavras, das palavras com o mundo, da sanidade com a despirocação, tão fácil, tão longe, tão perto.

Sabe quando você começa a pensar o que teu interlocutor pode pensar que você está pensando? Pois é. É pouco perto deste micro-odisséia da Azriana. É,  A-zri-a-na,  Gal-ga-nho-d-do.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 29/10/2008 - 20:49
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O fim de uma era

Jean-Paul Sartre, Naguib Mahfouz, Paul Bowles e Arundahti Roy parecem aí em cima no traço, com o perdão do clichê, “inconfundível” de David Levine. Calcula-se que desde 1964 a New York Review of Books tenha publicado mais de 3800 de seus desenhos. Ele é a cara da publicação que, com todas as mudanças e percalços ao longo de sua história, continua sendo uma referência dos bem e mal pensantes, em Nova York ou alhures.

Ano passado, a NYRB recusou pela primeira vez um desenho de Levine. As encomendas já vinha rareando, caricaturas antigas sendo republicadas. Aos 81 anos, Levine está ficando cego.  E esta carreira excepcional vê apontar o horizonte um final melancólico.

Esta história é contada magistralmente por David Margolick na Vanity Fair. É um perfil extenso como os que a revista publica habitualmente e delicado como pouco se vê em suas páginas.  Mas, e NYRB daqui para frente? Se eu fosse Robert Silvers, o editor, só publicaria fotos.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/10/2008 - 17:28
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Nós, autores

Antes da internet, Pierre Assouline escrevia pacas: é autor de 25 livros, incluindo reportagens, biografias e romances. Desde 2004, mantém o visitadíssimo Republique des Livres, blog literário ancorado na página do Le Monde que, segundo o próprio autor, já publicou mais de 150 mil comentários.

Talvez cansado de tanta produção, Assouline acaba de publicar “Brèves de blog”, uma antologia de 600 comentários de seus leitores. É isso mesmo, ele os reuniu em verbetes, pelo tema tratado (sem incluir os posts que os motivaram), e publica-os com uma introdução de 80 páginas em que defende a idéia, não exatamente nova, de os blogs terem se tornado os equivalentes possíveis dos salões literários de nossos dias. Com a palavra, o, digamos, autor (em francês):



A idéia dá panos para manga.

Quem é o autor de “Brèves de blog”? Quem reuniu os textos ou quem os escreveu? Tendo em vista que boa parte dos comentários vem de pseudônimo, como creditá-los devidamente? Ao comprar “Brèves de blog” você compra um livro exatamente sobre o quê? O que interessa mais, uma opinião inteligente e anônima sobre, digamos, “As benevolentes”,  ou uma banalidade abundantemente identificada? Se já há dúvidas se um blog pode “sobreviver” ao ser transportado para o papel, o que se dirá dos comentários feitos nele?

Chega de pergunta difícil.

Não consigo deixar de associar a publicação do livro de Assouline (será dele mesmo?) com as teses, com as quais não concordo muito, do jornalista americano Andrew Keen. Em “O culto do amador” ele denuncia, em tom apocalíptico e panfletário, o que promete o quilométrico subtítulo de seu livro: “Como os blogs, MySpace, YouTube e as outras mídias alimentadas por usuários de nossos dias estão destruindo nossa economia, nossa cultura e nossos valores”. Ufa.

Estou com o Lee Siegel: a Internet é um grande barato mas é bom e saudável que tenha alguém para apontar alguns de seus enguiços. Keen fala, em tom um pouco exaltado demais,  de um destes enguiços, a indistinção entre o profissional e o amador, entre, por exemplo, o artista e o usuário sedento por “auto-expressão” (outra palavra da moda). Procurei em seu blog menções ao livro de Assouline e não encontrei. Mas é um prato cheio.

Comentem que eu prometo não reunir vossas opiniões em um livro.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 28/10/2008 - 00:13
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A lenda urbana de Hermano Vianna

Num "balanço" (sic) do festival, os curadores do TIM fazem a defesa do indefensável: não, o barulho das outras tendas não acrescentou um grave e profundo  "mmmmmmmmmmmmmmmmm" aos shows de jazz.

E Hermano Vianna vai mais longe: vazamento de som é uma "lenda urbana". Ah, tá, agora entendi. Descobri, de quebra, que eu e muitas outras pessoas reclamando somos parte do fabulário urbano, como a Mulher de Branco, o Bebê Diabo e o Rendezvous das Normalistas.

Hermano insinua ainda que há provincianismo nas reclamações, pois segundo ele no Roskilde Festival, na Dinamarca, Kayne West tocou "a 20 metros" de Sakamoto e este nem reclamou. Problema do Sakamoto, que não estava tentando ouvir a Carla Bley na Marina da Glória.

Sou espectador de carteirinha desde o Free Jazz. Acho a abertura para outros caminhos do festival mais do que desejável  - se não, como teria visto no Brasil um show do Kraftwerk e do citado Belle et Sebastian? Mas fazer papel de palhaço é um pouco demais, quando o mais simples é tentar isolar a tenda, sim, e fazer uma festa ainda melhor do que é.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 26/10/2008 - 10:06
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Carla Bley ou a perfeição

Aos 72 anos, Carla Bley pertence à velha guarda do jazz só cronologicamente. A música não é uma relíquia de tempos idos, mas uma obra em movimento, complexa pra burro, belíssima e exigente. Felizmente, quando ela entrou no palco, os gritinhos já tinham cessado com Esperanza, os suspiros já se tinham ido com Stacey.
Quase metade da platéia vazia, foi Possível assistir a um show em paz – tendo ao fundo, é claro, o bate-estaca de outras tendas.
Mas tia Carla não estava nem aí. Toda de preto, com a banda de preto, o maridão no baixo (um maridão brilhante e bravo, que expulsou do palco o invasivo câmera do festival de suas investidas contra a banda), ela anunciou uma suíte longe, em seis partes. Todos lendo as partituras, cheias de silêncios e ataque do sax e do fluglhorn. Uma viagem.

Bley é das atmosferas, na linha do mestre dos mestres, Gil Evans, e refeltindo muito na genial Maria Schneider, que há dois anos fez com sua orquestra um show memorável. Bley organiza sua viagem com rigor, torna as repetições hipnóticas e nem passa perto daquele “muito-esforço-para-nada” de muitos artistas do free jazz.

Falou pouco, para anunicar a falta de necessida de anunciar uma “La Paloma” evansiana. E ainda voltou para um bis, em mpouco mais de uma hora. Aí, o batidao de fora já tinha cansado, a madrugada corria solta e, desfeita a confusão de uma sala de música com uma boate, deu-se o grande show de jazz depois da festa comanda por Sonny Rollins na quinta.

Aqui, um trecho da organização do TIM, a que botou a câmera quase entrando no piano de Carla Bley.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 25/10/2008 - 14:11
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Stacey Kent ou 'viva o maridão!'




Eu amo Stacey Kent. Quem me apresentou a ela foi o Flávio Pinheiro. Me disse que era uma Blossom Dearie mais velha, com uns, hummmm, 19 anos. Desde 2000 acompanho razoavelmente a americana radicada na Inglaterra e que tem como maior defeito não desgrudar do maridão, o inexpressivo saxofonista Jim James Tomlinson.

Stacey é um charme. Estava genuinamente emocionada de tocar no Brasil. Seu último disco, base desta turnê que a trouxe aqui, “Breakfast in the morning tram”, é Brasil na veia nos arranjos e em duas escolhas: “So many stars” (Sérgio Mendes) e “Samba –Saravah”( a charmosa versão em Frances do “Samba da bênção”). No show, acrescentou a elas uma linda “Águas de março”(aí em cima), o grande momento musical da noite.

Para começar, a banda pilotada pelo maridão (insistentemente elogiado por ela, reverenciado por ela, endeusado por ela) é quase anódina. Mas funciona bem em ambiente pequeno, onde a voz de Stacey pode brilhar em suas sutilezas – como a vi em 2002 num lindo show no Ronnie Scott’s. Mas ontem, tudo ficou um pouco pior com a tenda vazada por gravíssimos graves de shows vizinhos  - um descaramento da organização do TIM, que cobra preços astronômicos e está se lixando para o isolamento acústico das tendas. É um elenco de primeiro mundo com infra-estrutura de festa junina e colégio público de subúrbio, que conheço bem.

Mas entre uma ode e outra ao marido, Stacey foi brilhante, como se funcionasse à parte de banda. Especialmente em sua versão para o “Ces petits riens” de Serge Gainsbourg, também melhor do que no disco. É uma artista da sutileza, talhada para palcos bem precisos, que ficou deslocada neste TIM. Mas melhor com ela, do que sem. Mesmo com o maridão.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 25/10/2008 - 14:00
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Esperanza Spalding ou gritinhos na platéia

Esperanza Spalding abriu ontem os trabalhos no TIM Festival (Rio) com público de rock em casa de jazz, ou seja: gente mal educada, que chegou muito atrasada, ficava saracoteando pra lá e pra cá, falava alto e transformava os “u-huuuuuuus” em parte das músicas. Tudo isso entre mesinhas apertadas.

Teoricamente, era o que tinha de mais novo neste festival: uma garota de vinte e poucos anos, que toca (bem) baixo acústico e canta, mistura world music, standards, funks e  pop. Uma garota que poderia estar em qualquer tenda e que, depois de ter visto o show, achei melhor que tivesse sido alocada em outra que não o clube.

Não digo isso pelo purismo do que é “jazz”, postura que odeio,  mas pela pegada mesmo de Esperanza, mais até para dançar do que para ouvir, misturando tudo sem muito critério mas com um resultado muito interessante. Entusiasmo, razão de ser e às vezes problemas dos mais novos, é o que não falta na estrelinha ascendente.

O show é melhor do que o disco, “Ponta de areia” é incrivelmente mais bem resolvida (com direito a citação de “Paula e Bebeto”), “Wild is the Wind” bebeu na dramaticidade de Nina Simone e “Body and soul”, felizmente, foi tocada sem a letra em espanhol da gravação.

O que é grave: Esperanza Spalding tem síndrome de Flora Purim. Exagera nos scats até rachar o cano. Há momentos nada menos do que insuportáveis, de exibicionismo vocal e chatíssimos “badabadabauíiiiiiiiiii”. Momentos bons para pegar uma cerveja. Ou gritar “U-HUUUUUUUUUUUU”. “UUU”!

Abaixo, um bom momento do show de ontem, já no You Tube: “I kow you know”. Fique diante do computador e dê você também o seu gritinho: “U-huuuuuu”!

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 25/10/2008 - 13:33
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"Quando ouço falar em cultura...

... saco um suplemento cultural",   diria Goebels depois de ler a ótima reportagem de Lucia Guimarães em seu site recém uploadado. Este blogueiro é entrevistado da matéria, digo logo, mas não é a auto-referência que cimenta este post.

É o diagnóstico, preciso, do terreno baldio, para o bem e para o mal, em que a área se transformou. Vale a leitura e a boa provocação da Lucia.

 

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/10/2008 - 19:00
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O Sonny reencontrado

Assim se passaram 23 anos. Só conta redonda dá bolero, eu sei. Mas esta aí, quebradinha, bem pode dar jazz, pois era só isso que pensava na noite de ontem, assistindo à abertura do TIM Festival no Rio tendo ao lado dois amigos, encontrados por acaso, que também estavam em outro show de Sonny Rollins, histórico,  realizado em 1985 no Parque da Catacumba.

Naquela época, eu comprava os primeiros discos de jazz, não tinha ouvido Sony Rollins e lembro com nitidez assustadora ele de chapeuzinho, tocando uma versão infinita de “Isn’t she lovely” (que tocou em São Paulo mas não ontem), andando no palco de um lado para a outra, o sax como parte de seu corpo.

Naquela época, Fernando Gabeira queria ser governador e, menos de um ano depois do show da Catacumba, “abraçamos” a Lagoa em apoio a uma candidatura movida menos pela conseqüência do que pela importância de se posicionar. Ontem, um sujeito que, naquela época, deveria ter  a idade que tenho hoje, vira para mim na fila da bebiba e, sem mais, pergunta: “Vai votar no Gabeira, né?”.

Digressiono, pois, porque o show de ontem não foi jazz. Foi uma viagem ao tempo do blogueiro, que não necessariamente é de interesse público, mas também ao tempo em que um músico ganha seu lugar no cenário apenas pela primeira nota que sopra. Não precisa bula conceito, ou teoria. Só a nitidez, a clareza das idéias e das emoções depurada nos 78 anos que fazem de Sonny Rollins não uma “lenda viva”(risos), mas tão simplesmente um  estilista de precisão flaubertiana, “a nota justa”não desperdiçada nos brilharecos dos solos de tirar fôlego.

Assim se passaram 23 anos, daquele gramado da Catacumba para as mesas dispostas no galpão do TIM que mais parecia uma churrascaria. Falatório danado, eu desconfortável até em cadeiras, e a pergunta daquele meu amigo que foi ao show de 85: “Esse cara aí é o que toca com os Rolling Stones, né”? Muita gente, ontem, só sabia isso de Mr. Rollins. Uma casal até dançou, romanticamente, ao som de “In a sentimental mood”, como seu o Colossus fosse Severino Araújo.

Mas é melhor assim.  Foi show de jazz com jeito de show de rock, música de primeira,  solos debateria medíocres para o público fazer “uhu!!!!” e o biscoito finíssimo de Rollins para servir de madeleine para um tempo felizmente passado. Na noite de hoje, para ver Esperanza Spalding, Stacey Kent e Carla Bley teremos silêncio. Mas não mais os gramados da Catacumba. É assim mesmo? É, claro.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 24/10/2008 - 08:40
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A besta da Tina Brown

Tina Brown ataca de novo. A super-editora agora vem de web e vem com tudo. The Daily Beast, o site que começou a editar, promete ser referência de boa leitura  - e também muito bochicho, nem sempre consequente - na nossa poluída blogosfera.

Para quem não liga o nome à pessoa, Tina Brown é daqueles editores que deixam a posição de maestro para serem solistas  - ou se sobreporem a estes, numa versão menos edulcorada de seu brilho.

Passou, sempre com estardalhaço, pela "Vanity Fair" (com quem a identifico), balançou a ortodoxia da "New Yorker"(e quase levou a revisa para o buraco) e, finalmente, criou a já finada "Talk" (muito boa e muito fútil também).

O fato é que poucos editores são notícia, e no "New York Times", por tocarem um novo projeto. Tina Browné desta raça de estrela. Poderia estrelar uma versão intelectualizada de "O diabo veste Prada".

Mas, ao contrário da loura burra de "Lost in translation"(a amiga do fotógrafo casado com a inacreditável Scarlett Johansson), esta loura inteligente sabe que Evelyn Waugh não é mulher. E, mais ainda, batizou o site como o jornal que este imaginou para o livro "Furo", indispensável para todo mundo que algum dia passou ou quer passar perto da profissão de jornalista.

Estão no site todo os seus amigos, ou seja, uma mistura bem feita de gente que pensa, faz pensar ou simplesmente aparece e faz aparecer. Gente famosa dá dicas, há blogs e histórias próximas de hard news. Naveguei agora e achei uma delícia. Já está nos bookmarks diários, mesmo com o subtítulo arrogante: "Leia isto, pule aquilo". Ou melhor, acho que é meu favorito justamente por esta pegada, a da opinião que não se traveste de neutralidade.
 


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/10/2008 - 22:09
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Toc, Toc, Toc

"Os negros estão dominando o mundo. Colin Powell, Condoleeza Rice e agora o Obama. Mas ele não devem ganhar, pois no fundo eles (os negros)  não estão preparados para esta vida. Outro dia sentou um aqui do meu lado e deixou o resto de uma maçã. Era da África. É próprio deles se comportar assim. Os Estados Unidos não vão deixar que um seja presidente".

De um motorista de táxi em Frankfurt. Turco. Ainda bem que no caminho para o aeroporto.

Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/10/2008 - 08:41
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Noites brancas

Tentativa de descrição das noites no Frankfurter Hof uma versão atualizada daquelas praças de cidade do interior, a rua do vai-e-vém onde não acontece nada com ninguém (os personagem são verdadeiros mas, esqueçam, nenhum deles é brasileiro):

O editor modernete, não se de que pais, tenta beijar, repetidas vezes, a moça de cabelos vermelhos, que rouba uma garrafa de champanhe (15 euros a taça!) e vai embora. Sozinha.

O outro editor modernete – este sei quem é – bota o sapato propositalmente velho e expões sua calça minuciosamente rasgada para delírio da mocinha vestida como se fosse à Ópera. É moderno, é descolado.

A agente literária que, de uma feira para outra, enlouresceu e, realmente, se acha. A comunidade masculina desaprovou, mas ela não percebeu.

Dois alemães urram como se estivessem num jogo de futebol. Um nos conta que está consolando o outro, que levou um fora da namorada. Livros? Elss não tê, a menor idéia. Entraram ali porque pareciam sozinho.

Há, diz a lenda, casais de Frankfurt, geralmente asados com outras pessoas, que só se encontram ali. Me mostram um destes, lendários, e parece ser isso mesmo. Mas acho a história boa demais para ser verdade.

Pela primeira vez, vi um moicano. Rosa. Parece uma cacatua que bebu anilina. Não estou me sentindo bem e, assim, aterrorizado, encerrei minha participação no lobby do vai e vem.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/10/2008 - 08:38
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Notícias do fim do mundo

Acabou.  Finalmente. Fiquei três  dias sem postar pelos motivos óbvios: não dá para fazer a feira (parece que fui comprar tomate, né?), comer mal e porcamente, cumprir a parte “social” (aspas necessárias) da agenda e ainda escrever. Por isso, é claro, um editor ainda não tinha escrito um diário de Frankfurt.

O lugar comum supremo é que viajamos todos uma quantidade maior ou menor de quilômetros, com mais ou menos desgaste, para um encontro que já fez mais sentido do que faz hoje. Todos anos eles dizem tudo sempre igual, mas este ano parece mesmo que bateu forte esta sensação. Frankfurt é sinônimo de encontrar pessoas e de poucos negócios – o que, também, faz parte do negócio, é claro.

Mas é fato que a cidade, acostumada a restaurantes abarrotados, filas de sair tapa para pegar táxi e hotéis impossíveis de se conseguir vaga em cima da hora, estava mais vazia. “É a crise”, tentavam explicar. E pode até ser mesmo.Mas não se descarta uma mudança de comportamento mas ampla do que o sobe e desce das bolsas e o tobogã do dólar.

O que vocês têm a ver com isso? Sei lá, mas deve acabar diminuindo a quantidade de livros lançados. Se isso é bom ou ruim? Não tenho a menor idéia. O fim do mundo, em animado curso, parece que terá menos livros.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 19/10/2008 - 08:28
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Tá reclamando de quê?

“Tá reclamando, vai trabalhar na Europa e tudo, deixa que eu vou pra Frankfurt”. Uma jovem editora me reproduziu esta frase que a gente ouve mais vezes do que merecia. E me lembra “Nem Sansão nem Dalila”, chanchada de Carlos Manga em que Oscarito, arremetido para a Antiguidade por uma máquina do tempo, pergunta-se onde está para centuirões portentosos. Ao ser informado sobre a época para a qual foi transportado, fulmina: “mas isso aqui está parecendo o Caxambi!”.

É isso. Você viaja 11 horas e tanto faz se está em Bonsucesso (como eu estou todos os dias) ou na pujante cidade germânica. Pois é livro, livro, livro all the time. Mas seria bom se fosse só assim. Há as dificuldades práticas.

Acordei atrasado. Peguei um táxi, enfrentei ruas fechadas e uma fila na entrada. Revista nas mochilas. Um caaaaaalor que faz com que cada editor pareça uma orquídea em potencial – eles, da organização,  não entenderam que não não está frio.

Reunião,  reunião, reunião. Expliquei várias vezes quem sou eu, para minha própria surpresa. Não sei responder à pergunta  “o que você procura?” e me saio sempre com a mesma evasiva sem graça: “todo mundo está fazendo tudo”. É verdade, mas é óbvio.

Almoço. Fila, pequena. Espera, longa. A senhora alemã fala apenas alemão e acabo encomendando um tortelini (sic) à bolonhesa (sic). A espera é imensa, as massinhas cozinham na mesma água das salsichas, o refrigerante não tem gás e eu não me sinto muito bem. Me sinto pior ainda digerindo este arremedo de comida, azia para todo o dia.

Reunião, reunião, reunião.  Os livros do Brasil não chegaram no estande. Um editor maldoso diz que a alfândega tem razão, encasquetada com a etiqueta  “Dangerous” pespegada em uma das caixas que contêm a literatura nacional – alguns títulos, diz ele, são realmente passíveis de se confundir com uma bomba.

Com o jetlag, durmo mal. E mal passo o dia todo. E à noite ainda tinha a festa de Paulo Coelho, meu autor. Festança, cem milhões de livros vendidos, Gilberto Gil dando canja, todo mundo vendo e sendo visto. Encontro um querido casal de amigos. Na volta, antes de deitar, lembro do meu querido diário. E aí está a entrada do dia.

“Tá reclamando?”, me lembro. E penso que cada um que diz isso merece uma feira inteirinha para fazer. Com um jet lag beeeeeem pesado. Afinal, você está na Europa.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 15/10/2008 - 21:51
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Vida de lobista

“Vamos fazer um lobby?”, pergunta gaiatamente um escritor. Não ouvi a resposta mas sei que ele não trocou a literatura pelo lobismo. Ele convida para dar uma volta no lobby do Frankfurter Hof, o hotel mais tradicional de Frankfurt, uma espécie de Copacabana Palace mais feio que é o ponto de encontro de todos, TODOS os agentes e editores.

A Feira, na verdade, começa hoje, terça, entre as poltroninhas do Frankfurter Hof. Barulheira, calor e gente olhando e sendo olhada:  esta é a coreografia do início da maratona de negociações. É dificílimo conseguir lugar. Duas mulheres fazem seu reunião numa escadinha ao lado do pátio do hotel. As garçonetes tentam atravessar a multidão com bandejas do café e da água mineral mais caros que você pode imaginar.

Hoje,  de dia, é tudo trabalho mesmo. A partir desta noite, é tudo badalação. O pessoal do hotel arrasta as poltroninhas e instala pontos de venda de cerveja e champanhe. E fica todo mundo parado, copinho na mão, vendo o movimento. Igualzinho a uma cidade do interior. E tome beijinho, aperto de mão e troca de cartões.  E, entre uma coisa e outra, até se resolve uma questão pendente. Ou negocia-se um detalhe.

A cada ano, me prometo não marcar nada no FkfHof. A cada ano, me prometo não passar lá “mais tarde” para as caríssimas cervejas e uma defumação completa de cigarro. Hoje, já fiz minha reunião. Mas amanhã, prometo, lá não passo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 14/10/2008 - 13:28
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©Murakami

Niguém vive só de livros. E antes da maratona começar, uma passada no Museu de Arte Moderna para ver a maior retrospectiva dedicada a Takashi Murakami. O artista japonês é, mal (muito mal ) comparando, uma espécie de Andy Wahrol japa de nossos dias: cai de boca no manga e no anime e faz uma arte muito criticada em todos os sentidos, da criação de teorias mirabolantes sobre as misturas dos diferentes níveis de cultura até a acusação, não sem fundamento, de que o homem não tem um ateliê, mas uma fábrica de arte.

A mostra, que vem de Los Angeles e inicia por aqui um tour europeu, ocupa todo o Museu de Arte Moderna com telas, esculturas, desenhos animados e até estamparias, feitas de encomenda para a Louis Vuitton. Não por um acaso foi batizada “©Murakami”, ironizando que, mais do que uma obra, Murakami criou um copyright, como se tomasse o museu para si – ele cuidou pessoalmente de instalar as obras do museu, criando ambientes com pinturas nas paredes e no chão.

A exposição é tão agradável de se visitar como uma loja modernete – e isso não é uma crítica. Andar em torno de suas bonecas erotizadas e das salas supercoloridas não deixa de ser um alento na paisagem modorrenta de Frankfurt, triste mesmo num dia de sol e temperatura amena como esta terça- feira.  

A cabeça de Murakami é, no mínimo, curiosa. Injeta perversão em símbolos da infância, cria monstros com cara de anjo, como a dupla Hiropon e My Lonesome Cowboy, duas figuras em tamanho real unidas pelo “cream”: ela espirra de seus enormes peitos um jato de leite que é parte da escultura; ele também é envolvido em um jato branco, só que de esperma, que nasce de seu pênis explicitamente exibido. São chamadas de “sado-cute” no catálogo...

Numa sala estão expostos ainda os diversos formatos de Inochi, uma criatura meio humana, meio ET, altamente sexualizada. Murakami produziu para a “coisa”pequenos clips que mostram seu despertar para a vida numa escola primária. Postei aqui em baixo para que se tenha noção do que estou falando. Pois só mesmo vendo Murakami para saber que, se não é boa, sua obra pelo menos dá o que pensar.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 14/10/2008 - 12:43
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O hommus editorialis

O hommus editorialis é uma subespécie de hommus literalis, resultado de um cruzamento deste último com o hommus commercialis. Dependendo  da época do ano e do lugar em que estão, prevalece um ou outro. Há exatos 60 anos, o hommus editorialis migra em massa para Frankfurt nos meses de outubro e, até hoje, não se sabe qual descendência prevalece na semana em que passam por aqui -  no início, dentro da PaulsKirche, uma belíssima igreja no centro histórico da cidade; hoje, nos dez pavilhões da Messe, como é conhecido aqui o centro de convenções que abriga estas e outras feiras que fazem a vida da cidade.

Quando chega em Frankfurt na segunda-feira, o hommus editorialis experimenta uma sensação de infância, a de chegar cedo demais numa festa: os donos da casa ainda estão arrumando o salão, a comida não está pronta, a música ainda não começou. Mas é melhor assim para que aproveite melhor os próximos dias, em que a música é alta demais, a comida nem sempre é boa e, como diria o hommus jornalisticus diante de um pepino de grandes dimensões, a festa não tem hora para acabar.

Uma espessa névoa fez com que com que todos os vôos para a cidade atrasassem. Cheguei mais de uma hora depois do previsto e fui direto para este palacete que me prometia uma vista do skyline da cidade e me dá um prédio amarelo, triste como ele só. Ah, sim, e ao longe, os espigões que fazem da cidade a capital do Euro – que não vive exatamente dias esplendorosos.

Um motorista me conta que, de todas as feiras realizadas na cidade, a do livro é a que mais rende para todo mundo, dos taxistas aos donos de hotel. Poderia jurar que seria a feira de automóveis, mas parece que o hommus editorialis responde de forma mais fiel a seu destino atávico, submetendo-se a diárias exorbitantes, comida exorbitante e, vá lá, uma excelente cerveja.

À noite, jantar com um autor. Sem que eu e ele soubésseos, sentamos ao lado de um grande agente europeu – que o reconheceu imediatamente mas não foi reconhecido. No final do jantar, num restaurante pequeno e bom que teve sua última noite calma da semana, o agente encontrou uma forma de se apresentar, com uma piada. Encontrou um forma de passar um cartão, por pura simpatia mas também marcando presença.

E aí me lembrei que Frankfurt é mesmo uma versão livresca do Prét-à-Porter do Robert Altman, como eterno trabalho disfarçado de festa. Só que  sem a Julia Roberts.

E agora inicio o primeiro dia de trabalho, ainda em ritmo de preparativos para a abertura oficial dos portões que acontece na quarta-feira. Até já.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 14/10/2008 - 03:35
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Ao vivo, da livrarada

A partir de amanhã este blog vira o diário de um editor na Feira do Livro de Frankfurt, o maior e mais tradicional evento deste mercado estranho e curioso numa época que quase ninguém quer ler. São dez pavilhões a percorrer e dezenas e dezenas de reuniões.

Não é muito empolgante, né? Mas, como tudo, Frakfurt, a feira, é um interessantíssimo zoológico humano. E, pela primeira vez em dez anos, me disponho a tentar este registro diário.

Vamos ver no que dá. Também estarei no Twitter. É só seguir aí embaixo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 12/10/2008 - 11:41
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Nós, críticos

Não é novidade que a Amazon, por exemplo, use blogueiros e frequentadores contumazes do site para recomendar livros. Esta força-tarefa vem, inclusive, sendo alimentada pelas editoras, apostando todas as fichas na lógica "viral" do boca-a-boca.

Mas parece que a Disney foi longe demais ao utilizar na promoção de "O garoto do pijama listrado" uma série de citações de... espectadores que frequentam o IMDb, provocando uma grita entre os críticos profissionais locais.

Mas, questões de mercado de idéias à parte, o busílis é saber se alguém vai ao cinema por conta de elogios Theedge-4 ou Mjavfc1 - este último escreveu "Por favor, por favor, vá ver este filme". Uau, já me convenceu!

Vamos combinar que a anarquia da internet é nada menos do que maravilhosa. Mas quem fala o quê para quem é uma questão que não só não está resolvida como fica cada vez mais complicada.

Acho que vou começar correndo a leitura de "Against the machine", o libelo de Lee Siegel contra o uso indiscriminado da web.

Ah, quem me recomendou não foi um leitor da Amazon. Mas a Lúcia Guimarães.
 

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 10/10/2008 - 08:49
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Europa 1 X Provincianos 0

O Nobel de Literatura para Jean-Marie Le Clézio é, de certa forma, natural.
A Academia gosta de nomes obscuros (ou não) que dêem à sua obra um sentido político pronunciado ou, como no caso do escritor francês, de autores que representem uma determinada idéia do "literário", em geral relacionada a rebuscamentos de linguagem e a uma certa literatice.

Mas a premiação fica, no mínimo, estranha em seu rigor depois das declarações desastradas do Secretário Geral do prêmio. Em entrevista comentada aqui  - e em todo o mundo -  Horace Engdahl, o tal secretário, cantava as virtudes da literatura européia sobre o suposto provincianismo da produção norte-americana, anunciando os rumos da premiação.

Numa boa, para este que vos bloga um livro de Le Clézio não vale um diálogo de Philip Roth, o provinciano. E, sinceramente, avaliar a literatura em termos de expressão geográfico-cultural é bobagem mesmo. Mas, se é para entrar nesta lógica Emilinha X Marlene, tenho prefirido o time de Thomas Pynchon, John Ashberry e Edward Albee.

Em tempo: este prêmio é o mesmo que ignorou Jorge Luís Borges e João Guimarães Rosa, né? Ok, só para conferir.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 09/10/2008 - 15:34
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FEBEAPÁ sem fronteiras

O Festival de Besteiras que Assola o País não só não tem fim como não conhece nacionalidade. Na Alemanha, ameçaram Friedrich Schiller de prisão caso não pague o imposto que, em alguns países, é cobrado a todos que possuem televisão e rádio com o objetivo de manter a os meios de comunicação estatais.

A conta, segundo notícia do Telegraph, foi enviada para uma escola batizada em homenagem ao poeta. O diretor respondeu polidamente que Herr Schiller não tinha condições de assistir às transmissões. Mas os credores não desistiram: era preciso provar que Schiller, esse belo rapaz aí de cima, realmente não tinha rádio ou TV.

Desfeita a confusão, os responsáveis pela cobrança prometeram tirar do sistema o nome do poeta. Morto há 200 anos.


 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 06/10/2008 - 00:06
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Buemba! Um mapa da cultura em NY

A Bomb é uma revista muito da moderninha que há mais de 20 anos preocupa-se com um princípio fundamental na arte: o diálogo. Em cada número, ela faz com que artistas conversem sobre os mais variados temas.

Apesar de baseada em Nova York, ela não tem os olhos voltados para o umbigo da Maçã: este ano dedicou um número ao Brasil no qual publicou um diálogo entre Lygia Fagundes  Telles e Manuel Alegre. Tive o privilégio de levar Alegre, que edito, para encontrar Lygia em seu apartamento. A conversa, infelizmente, ainda não está on line.

Mas o que interessa é que, no número corrente, a Bomb traz um mapa da cultura em Nova York de 1900 para cá. É destacável e fascinante, pois permite enxergar desde a criação de revistas literárias até a geografia de ateliês, teatros e cinemas. Em papel, traz no verso depoimentos de gente que viveu a época.

Laurie Anderson conta, por exemplo, que depois de uma longa viagem encontrou seu estúdio invadido por freaks. Não pensou duas vezes: conformou-se em ver seu patrimônio reduzido à malinha que trazia nas costas. That’s 70’s...

Neste link, você pode navegar pelo mapa, ampliando aqui e ali os pontos mais interessantes. Ok, fala-se de NY, mas fala-se, e muito, do que aconteceu de mais interessante em todo o mundo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/10/2008 - 23:22
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Podcast: Patricia Barber

Patricia Barber tem 52 anos e, não tenho dúvidas, é o que há de melhor entre as cantoras de jazz surgidas nos últimos tempos. Como algumas são ecléticas, ela é idiossincrática. Faz parte da linhagem de cantoras-pianistas, que no meu altar está abençoada por Shirley Horn mas que também dá em Diana Krall – que começou bem com o repertório do Nat King Cole Trio, mas... Esta é outra história

Sobre Patricia Barber, que se cirou na cena de Chicago, o que posso dizer é que está cada vez melhor. No Jazz Standard, em Nova York, estava sold out  todos os dias – o jeito era assistir contorcido no bar, com a atração extra de vê-la mandando um conhaque antes de ir para o palco.

Mas chega de escrita e vamos à musica. Ouça aqui o podcast.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/10/2008 - 22:58
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Um clássico do samba-Zeca


O que Zeca Pagodinho conseguiu desde seu primeiro disco, de 1986, não é pouco. Primeiro e mais importante: ele é popular sem ser populista, agrada a inteleca e patricinha, cachorra e pagodeiro, vetustos senhores e sua seriíssima esposas. Tudo isso sem fazer de sucesso sinônimo de porcaria, muito pelo contrário: poucos artistas trabalham com tanta liberdade e a utilizam de forma tão inteligente.

A segunda conquista é parceria com Rildo Hora: com seu produtor mais recorrente ele criou um samba-Zeca que hoje é quase um gênero. Soa inconfundível; às vezes pela repetição, é verdade, mas principalmente pela inventividade com que cordas e metais misturam-se, sem invencionice, a um samba de primeiríssima qualidade que não passa nem perto das entediantes discussões sobre “raízes” e tradição  -  umas e outra em perfeita sintonia com que tudo que faz, sem forçação de barra.

“Uma prova de amor”, o 19o álbum-solo que chegou agorinha às lojas, é um dos melhores da safra mais recente – aquela história de “gafieira”, com aspas, não me convenceu. E vale a pena só por  “Não há mais jeito”, romântico sem melado de Monarco e Mauro Diniz  que, na modesta opinião deste blogueiro, já é um clássico. Bem menos tradicional, mais samba-Zeca, “Ogum” (Claudemir e Marquinhos PQD) é devoção ao santo para arrepiar ateus de todas as extrações com cordas, contracantos e Jorge Ben Jor recitando a oração de São Jorge, que eu postei aí em cima. Pode ficar por aí que está bom.

Mas há mais: Velha Guarda em pot-pourri de clássicos da Portela (“Falsas juras”, “Pecadora” e “Manhã brasileira”), “Esta melodia” para se ouvir de mão no peito, vestido de azul, branco, verde, rosa. Duas crônicas hilárias, “Normas da casa” (Zé Roberto) e “Terreiro em Acari” (Alamir, Roberto Lopes e Nilo Penetra) e uma redondíssima “Sincopado ensaboado” do mesmo Trio Calafrio (Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande) que é responsável pela inacreditável “Dona Esponja”, lançada em “À vera”, de 2005.

Vai lá, bota “Uma prova de amor para rodar” e vê, ouve e dança se é exagero. É um gol, o mais perfeito desde o disco de 1998, que trazia “Vai vadiar”, “Chico não vai na curimba”, “Seu balancê” e “Sem essa de malandro agulha”. É o samba-Zeca em sua melhor forma.

Ah, e ainda há uma faixa-bônus que, como poucas, faz jus ao nome: Zeca e João Donato, arrebentando em "Sambou... Sambou". Esta, só ouvindo mesmo.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 05/10/2008 - 19:24
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O livreiro de Camdem Town

George Orwell, que já esteve na pior em Londres e em Paris, também teve seus dias com o livreiro. É isso que conta num texto surpreendente e agudo, relatando dias entre 1934 e 35 que trabalhou em um sebo num cruzamento entre Hampstead e Candem.

O ponto de vista é dos mais interessantes: uma livraria, as pessoas se revelam como exatamente são: em cada compra confessam o inconfessável, expõem suas carências, eventualmente surrupiam uns livrinhos, mendigam para que o livreiro compre aquela caixa de volumes velhos deixada pelo pai doente.

Mas o melhor é o argumento de Orwell para jamais, em tempo algum, ser livreiro para valer, full time: “Enquanto trabalhei em livraria, perdi o meu amor pelos livros. Um livreiro têm que mentir sobre livros e isto faz com que enjoe  deles”. A regra, é claro, vale para ele,  mas acho que tem seu fundo de verdade para todos os momentos em que o objeto de desejo confunde-se com o objetivo do trabalho.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 03/10/2008 - 17:19
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Literatura + money

Para quem acha que literatura e dinheiro são incompatíveis, a Forbes publica a lista dos dez escritores mais bem pagos do mundo.Na cabeça, J. K. Rowling, que mandou para o cofre 300 milhões de dólares entre junho de 2007 e junho de 2008. Em segundo, mas bem atrás, James Patterson, com 50 milhões. Na lanterna, Nicholas Sparks, com 16 milhõezitos. Mais detalhes da lista, que inclui John Grisham e Stephen King, na reportagem da revista.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 02/10/2008 - 14:21
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Começou a loteria sueca

Já começou a loteria do Nobel de Literatura. Semana que vem, a Academia Sueca começa a anunciar as premiações mas, como acontece tradicionalmente, o escritor escolhido em 2008 só será conhecido na semana que começa no dia 13, para que o anúncio seja feito em plena Feira de Frankfurt.

O blog de livros da New Yorker já entrou na especulação e indica:

1. que o escritor dificilmente será americano, mandando o distinto leitor para a entrevista de um dos principais membros do júri, que dedica à cultura americana palavras não exatamente generosas;

2. que os bookmakers londrinos, que não perdem uma, apontan Cláudio Magris e Amos Óz como favoritos (na verdade, eternos favoritos), seguidos pela prolífica e soporífera Joyce Carol Oates.

Duas histórias boas: em 1997, quando fui à Frankfurt pela primeira vez, como jornalista, o favorito era José Saramago, sendo Portugal o país homenageado da Feira. Deu Dario Fo, que foi cumprimentar o suposto concorrente no estande de sua editora. No ano seguinte, Saramago passou por Frankfurt e foi pego no aeroporto, voltando para Lanzarote, com a notícia: o Nobel era dele.

Em 2002, fui parar na Feira pela primeira vez como editor. Pouco antes da premiação, geramente anunciada às 13h da quinta-feira, segundo dia da feira, o meu então chefe tirou do bolso um papel amarfanhado e vaticinou: o Nobel será um húngarao, "Kretz, Kertes, alguma coisa assim". No estande da editora espanhola, ninguém levou a sério. Nós, que vínhamos do Brasil e éramos completamente ingênuos, partimos para a internet, descobrimos que o mais próximo deste nome era Imre Kertész e fizemos a oferta pelos direitos minutos antes do vencedor oficial.  Sorte de principiante e uma das raras vezes em que vi uma previsão (na verdade, uma inside information) funcionar na mais bem paga loteria literária que se conhece. 



 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 02/10/2008 - 12:51
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A realidade morde

Trabalho no meio do Complexo da Maré, uma reunião de 17 favelas que pode ser o inferno ou ridiculamente calmas como uma cidade do interior. Pois ontem, saindo do Timbau, uma das comunidades em questão, vejo da Linha Vermelha um enorme muro deo tijolos com a pixação, em letras monumentais:

"Brizola vive!"

Não, não era uma propaganda do neto do ex-governador, candidato à vereança. Era um statement, puro e simples, da realidade muito alucinada desta cidade.

 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 02/10/2008 - 08:21
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O cerco de João

A melhor coisa dos 50 anos da bossa nova (que já comemorou seus 43 anos e meio, 44 e oito meses, 48, haja...) foi o show de João Gilberto. A segunda melhor coisa, o lançamento de Eis aqui os bossa-nova, de Zuza Homem de Mello. Trata-se  na verdade da segunda edição do livro, publicado pela primeira em 1976 e hoje mexido e remexido pelo autor. Tem sabor de novidade, pelo menos para mim.

A idéia não é original e Zuza – que há pouco publicou suas excelentes memórias de contrabaixista e critico, Música das veias – entrega a fonte: Hear me Talkin’ to Ya, em que os americanos Nat Hentoff e Nat Shapiro ouviram mundo e meio do jazz para que, através de seus depoimentos, minimamente editados, contassem sua própria história. Zuza intervém aqui e ali, pontua, esclarece e deixa a memória dos inventores correr solta, sem impor versões, fazer literatice ou levantar bandeiras revisionistas.

A melhor coisa dos 50 anos da bossa nova, na verdade, foi ter visto João no Municipal e ler, através de Zuza, a explicação que Johnny Alf dá para o estilo que ele mesmo começou a desenvolver e que um jovem violonista baiano transformaria numa das revoluções mais consistentes da música:

“No jazz, o pianista, quando faz o acompanhamento, nunca toca os acordes marcando os tempos; o pianista de jazz fica cercando o solista naquele prisma harmônico da música, apenas nas passagens necessárias. A música é que o orienta, e ele, por sua vez, ajuda harmonicamente o solista. (...) A batida da bossa nova tem justamente um pouco disso, porque no caso de um cantor que se apresenta só com violão, ele se utiliza do instrumento como um cerco para sua voz”.

Pois não é outra coisa que João faz na abertura do show do Municipal que segu aí. Reparem na segunda parte de “Você já foi à Bahia?”. João vai cercando, cercando,  o mundo parece parar. E acho que pára mesmo.




 

Postado por: Paulo Roberto Pires | 01/10/2008 - 08:27
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