A web gera um tipo específico de fenômeno: o fenômeno da web. Depois do “Tapa na pantera” e do “Vai tomar no c*”, temos a Mallu Magalhães. O problema é que, ao contrário destes dois, ela não quer ser uma piada: tem 16 anos, canta suas próprias composições em inglês acompanhando sua voz enjoadinha por um violão enjoadinho. E uma gaita enjoadinha. E um banjo enjoadinho.
“É FOLK, SEU IDIOTA!”, grita bem no meu ouvido o Grilo Falante Cabeça. Ok, entendi, então é para gostar. Mas não está sendo possível, my dear Cricket.
E não está sendo possível porque Mallu Magalhães não é boa, ou pelo menos AINDA não é boa – eu sei, não se pode mais dizer se algo é bom ou ruim, quem sou eu para afirmar, etc., mas seu eu disser que é bom e fenômeno aí pode, porque estou eu a descobrir um novo talento, etc. Mas Malu Magalhães não só AINDA não é boa como é inapelavelmente chata – eu sei, eu sei, as amargas, não: adjetivos, só os positivos.
A internet tem dessas coisas, tento pensar, otimista, mas o que me parece é que, neste caso, o “fenômeno” está fenomenal demais, muito cuidado em seu descuido, muito bem planejado em sua falta de planejamento. A Mallu Maglhães está me parecendo a Marisa Monte indie.
Lembram quando MM surgiu? Uma semana no falecido Jazzmania, o início de uma nova era, a das cantoras ecléticas, nada de disco, só shows para pequenas platéias, nada de indústria, uma artista pura, que não se curva às regras do estrelato. Era a forma de preparar seu lançamento rigorosamente dentro das regras do jogo que aparenta não jogar.
Como os tempos são outros e o disco não vai lá bem das pernas, vamos para a web. E, depois, para a imprensa. E, depois, para os shows. Mas aí já estamos nos celulares e, é claro, lá vem o CD. Mallu nasceu destinada a ser um caso exemplar de marketing na web – o que, em si, é muito bom, pois mostra-se na prática o que se pode fazer com um modem e uma conexão.
Mas e a música? É boa como pode ser boa a música de uma menina de 16 anos sem dúvida alguma talentosa (veja bem, quem insiste em destacar a idade é a própria divulgação, ou “fenômeno” se preferirem) e sem medo. Pouca idade, talento e coragem podem ser um começo, mas não fazem de ninguém artista.
Antes de celebrar Mallu como uma cantora e compositora folk, é bom lembrar que voz fanha e poucos acordes não fazem de ninguém Bob Dylan, embora Bob Dylan use poucos acordes e seja fanhoso. Mallu encarna, talvez à sua própria revelia, o universo de resultados sem causas, de fatos sem conseqüências. Por que não esperar mais um pouco? Por que se deixar ser fenômeno?
Menina prodígio por menina prodígio eu ainda prefiro a Sandyjunior – cá entre nós, fica difícil ver a diferença entre “Tchubaruba” e o “Turu Turu”.
Assisti, seguidos, documentários sobre John Cage e Phillip Glass. Foram realizados nos anos 1980 por um Peter Greenaway iniciando carreira como diretor de ficção. Capítulos da série televisiva Four american composers – os outros dois são Meredith Monk e Robert Ashley - os filmes duram 55 minutos cravados e, por isso, preocupam-se menos com cronologias do que em mostrar a idéia central na obra cada um destes compositores.
Cage (1912-1992) e Glass (1937) são o que se chama de artistas “difíceis”. “Vanguarda” também é rótulo, vazio e pejorativo, que se gruda bem às suas obras, sobretudo se o cidadão não se der ao trabalho de fazer o que interessa diante da música, ou seja, ouvir. Por este verbo entenda-se a disponibilidade e a atenção, a falta de preconceito e, acima de tudo, a consciência de que alguns tipos de música (e de literatura, teatro, artes, etc.) não trazem recompensas tão imediatas quanto as que nos oferecem diariamente por todos os cantos.
Cage trabalhou a vida toda sobre o silêncio, os ruídos e o acaso. Inventou, dentre outras formas de pensar e executar musica, o “piano preparado”(interpondo entre as cordas diversos objetos); escreveu partituras em que cada músico executa o que quiser ou tem de correr de um piano para um rádio ou ainda preencher silêncios cronometrados; criou peças a serem executadas por instrumentos pouco ortodoxos como, por exemplo, tudo o que estiver ao alcance do música num escritório. Sua música põe em questão o que é música - no filme, ele defende com vigor, por exemplo, que não devem existir gravações ou discos, que a música é puro acontecimento, irrepetível.
Greenaway acompanha-o nas comemorações de seus 70 anos, quando uma igreja abandonada nos arredores de Londres foi preparada para exibir, por sete dias, o essencial da obra do compositor. O grand finale fica por conta de arranjos sobre fragmentos do “Finnegans Wake”, através dos quais Cage forma acrósticos com o nome de James Joyce. Experimente um trecho do concerto, precedido por uma ótima história narrada em off:
Infinitamente mais popular, se é que o adjetivo cabe aqui, Philip Glass é flagrado por Greenaway com seu Essemble também na Inglaterra, numa série de concertos. Alguns de seus clássicos como “Facades”, registrados ao vivo, são emocionantes e os vemos quando as trilhas de filmes como “Koyaniskatsy”, “Mishima” e “As horas” ainda não tinham apresentado sua obra a um público mais amplo.
Numa das entrevistas, Glass conta a repetição obsessiva de seus temas, a qual o ouvido anestesiado reage como “entediante”, vai, ao longo de uma peça, vencendo as resistências do ouvinte como ele viu, ao logo dos anos, um público muito jovem de seus concertos misturar-se cada vez mais com ouvintes mais “tradicionais” na música clássica. Aqui, o Essemble faz “Train/Spaceship”, da ópera “Einstein on the beach”:
Mas o que interessa mesmo, tanto num caso quanto no outro, é o empobrecimento de nossa capacidade de ouvir o que não é confortável, de ler o que não é literal, de não desprender nenhum esforço para transformar as vivências em experiências. Um empobrecimento que não deve ser lamentado como fatal, mas transformado em problema, discutido e, sobretudo, vencido pela vontade, pura e simples, de não aceitar apenas as formas prontas. O que é simples, mas não é fácil.
Keith Jarrett praticamente curou-se de uma rara doença, a Síndrome de Fatiga Crônica, e aos 63 anos entrou para o Hall of Fame da Downbeat, o que não é pouco. Seu trabalho espetacular com o trio que forma com Jack de Johnette e Gary Peacock faz 25 anos e, em fevereiro, vem disco novo. Aqui estão eles, "My funny valentine"
Dave Brubeck, o gênio de "Take five", metade amputada de Paul Desmond, já marcou um show para comemorar os 88 anos. Pelo que vi outro dia na web, ainda está tocando o fino. Confiram:
George Shearing está completando nove décadas. Lindão, posou com a mulher para a Vanity Fair, nessa foto que ilustra o post. E, é claro, faz planos para o futuro.
Quando digitei este titulo, quase saiu The crack-up, que é um dos textos de F. Scott Fitzgerald que mais gosto e foi traduzido aqui (faute mieux) como A derrocada, o que já diz tudo - ou quase tudo. Trata-se de uma memória do buraco que se abriu sob os pés do mais charmoso e triste escritor dos anos 20, o anti-Hemingway em sua fragilidade comovente. O meu também é primeira pessoa, muito pior do que o dele (por razões óbvias, de autoria) mas também anuncia uma derrota: a do homem, de quarenta e um anos, diante de sua decrepitude.
Passei seis horas na mão (ôpa!) de médicos, sendo revirado (êpa!) sob todos os ângulos (opssssss....) para saber mais sobre minha saúde. Ou melhor, sobre minhas doenças. Pois a primeira coisa, líquida e certa, que sai de um chécápi é um prontuário de como seu corpo não está funcionando do jeito que devia. A segunda, decorrência da primeira, é que sua cabeça passa a funcionar muito pior do que estava antes.
Duas ou oito coisas que descobri de mim: ouço bem sons graves e agudos, enxergo cada vez pior de perto; sou estressado e sedentário; minha gordura, mal distribuída, me põe em riscos nada estéticos; minha próstata é linda, muito bem na foto, ao lado de um fígado que já quase virou foie gras; estou corcundinha e a flacidez vem aí; sento mal e bebo pior ainda; consigo correr oito minutos plugado em fios multicoloridos e soprar o suficiente para estourar o chiclete de uma criança feia que aparece no monitor do computador como sendo “eu”; trabalho demais e durmo de menos; e, única notícia boa, pelo menos para mim: “não é preciso fazer o exame de toque”.
Ou seja, aquele elevador panorâmico (brrrrrr), que descortinava a cada andar o mais estranho dos bairros cariocas, me levou para outra dimensão, como num episódio reprisado do Twilight Zone: entrei ali com sono, mas feliz; saí corcunda, obeso e com o risco iminente de alguma coisa ruim. Qualquer coisa. Mas, certamente, muito ruim.
Ouvindo o Elevador para o cadafalso aguardo, a qualquer momento, que alguém bata à minha porta. Não será, por certo, Jeanne Moreau, mas um funcionário educado e gentil trazendo o pacote com os resultados e, o que é pior, recomendações para “reverter o quadro”, “diminuir o risco”, “negociar com minhas heranças genéticas”. Tenho vontade de recusar, imaginando no envelope mais um original de 749 páginas das poesias completas de uma senhora muito interessante, inédita, que começou a escrever aos 76 anos.
Mas já tive uma prévia do que vem por aí: tenho que comer menos gordura, beber pouquíssimo, sentar ereto e passar menos horas no computador. Ou seja: morri. Não é morte clínica (toc toc toc), mas morte diagnóstica.
Já combinei com um amigo, em condições também não muito boas, o que faremos numas próximas férias em Paris: tirar um foto ao meu lado, o Corcunda, na torre de Notre Dame. E ir ao melhor restaurante da cidade, o Père Lachaise, onde o freguês, que não corre risco, só come mato. E pela raiz.
“Absolute Wilson”, dirigido por Katharina Otto-Bernstein, é um documentário convencional sobre um artista pouco ortodoxo. Bob Wilson revolucionou o teatro americano na virada dos anos 60 para os 70 e hoje revoluciona o que é ser diretor: não é raro que, em uma mesma semana, óperas, peças de teatro, exposições e desfiles de moda assinados por ele estejam em cartaz em Paris, Hamburgo, Nova York, Zurique ou Copenhagen. Como muitos do rebeldes, virou marca; mas, como poucos, viaja bem pelo mundo e pelas tendências.
A história contada por ele mesmo e alguns de seus parceiros mais notórios como Philip Glass e Susan Sontag, é tantas vezes ouvida em grande artistas: um garoto reprimido pelos pais, homossexual e frustrado que deixa o ambiente o ambiente opressivo de Waco, no Texas, para estudar arquitetura e termina fazendo, ele mesmo, performances e experiências no cinema. O que não é comum é o fim da história: ao chegar, finalmente, ao teatro, vira convenções do avesso e, quase de imediato, cria um universo próprio, uma marca.
Assisti quatro montagens de Wilson: “Quando nós os mortos despertamos”, o clássico de Ibsen, “POE-try” e “Time Rocker”, “óperas-rock” de Lou Reed baseadas em Alan Poe e H. G. Wells, e “Quartett”, de Heiner Müller. Nenhuma delas faz parte de “era de ouro” de Wilson – que tem seu auge na ópera “Einstein on the beach”, com Glass – mas trazem a marca inequívoca do diretor: lentidão, beleza plástica, movimentos de atores quase coreografados, freqüente dissociação entre o que se ouve o que se vê. É quase sempre hipnótico mas exige uma adesão incondicional do público. É daqueles casos do “ame-o ou deixe-o”.
Em “Quartett”, por exemplo, Wilson manipula até as vozes dos atores, amplificada por microfones e "mixadas"ao vivo. No texto original de Heiner Muller (montado aqui nos anos 1980 por Gerald Thomas com Tônia Carrero e Sérgio Britto) Valmont e Merteuil, os protagonistas de “As relações perigosas”, discutem suas vidas “num bunker durante a Terceira Guerra Mundial”. Wilson dobrou os personagens em seus duplos quando jovens e acrescentou um quinto, um velho que representa o próprio Muller. Na versão que assisti, em Paris, Isabelle Huppert (que fez um famoso “Orlando” com Wilson) arrasta-se pelo palco, imita um sapo, é completamente despersonalizada como estrela. Em uma hora e meia o cidadão sai exausto e cheio de sentimentos ambíguos: é chato e é lindo.
No filme, há trechos espetaculares das montagens mais importantes e uma indisfarçada devoção da diretora alemã por seu personagem. Não é muito difícil de entender, aliás, que no contexto dos Estados Unidos da última década, conservador também em termos de arte, Wilson seja mais prestigiado na Europa do que em seu país.
A nota crítica fica por conta dos extras, onde se reproduz na íntegra (pouco mais de meia hora) o depoimento de Susan Sontag à diretora. Com a franqueza que às vezes beirava a rispidez, Sontag conta de sua admiração profunda por ele e, também, de alguma decepção. Para ela, Wilson operava por contrastes ao, por exemplo, fazer com que o cantor de uma ópera atuasse no palco de maneira diametralmente oposta ao que seu personagem cantava; na verdade, diz ela, isso acontece muitas vezes porque Wilson efetivamente ignora o texto para imprimir sua assinatura à montagem – trata-se, mesmo, da lógica da “grife”, aplicada indistintamente a Puccinni, Müller ou Giorgio Armani. O que não o diminui em nada mas muda, e muito, o sentido da reverência do documentário, que vale uma importação mesmo com o dólar mais esquisito do que o coro de "Einstein on the beach".
Twitter Updates
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 24/11/2008 - 20:44 Comente
♫ Não me importa que a mula manque, eu quero é twittar! ♫
Traduzindo a bíblia da tecnologia em carioquês: hoje blog é que nem bunda, todo mundo tem.
O negócio é o Twitter, o microblog, todo mundo postando tudo em 140 caracteres + um link - e vai embora daqui.
Não deixa de ser um bom exercício de concisão. Quanto menos espaço, menos besteira se escreve. Certo?
Pois é grande a tentação de, no twittês, informar ao internauta (uau, que cafona) que chove ou se está atrasado – sent from my blackberry!
A frase anterior, por exemplo, bateu 138 – sem link. É uma realfabetização, como se um nerd do Silicon Valley encontrasse os hai-kais do Bashô.
(Esta última, por exemplo, f... tudo. Tem 143)
Não me importa que a mula manque, eu quero é twittar, canta Jorge Veiga, que é do tempo do rândevu de normalistas, baile de carnaval e blog.
(140! cravados!)
Como vocês sabem, deixei de ser sério. Mas sou um bocado old fashion. Por isso gosto de Johnny Hartman, de Orlando Silva e de blog. (131! ufa...)
(No flagrante acima, colorido pela pátina momesca, um alegre corso de blogueiros desfila pela infohighway Rio Branco, cantando a marchinha do Jorge Veiga.) (155!)
Quando acordei, ela já estava lá. Qual um Monterroso de quinta, tentei burlar o calendário, a lógica e a visão mas, implacável como o Dudu Paes, ergueu-se na Lagoa Rodrigo de Freitas o abominável abajur gigante popularmente conhecido como “Árvore da Lagoa”.
Árvores, na Lagoa, há muitas. Ninguém quer saber delas, é claro, pois há 13 anos só parece haver esta, horrenda e jeca, acendendo e apagando como um carro enguiçado. Este frondoso entrelaçado de gambiarras terminou virando um sinal de que, cumprindo ameaças bíblicas, o Natal se aproxima.
Pois esta árvore é para deixar o mais pio pastorinho verde como o Grinch, esta simpática criatura aí de cima que, como se sabe, odeia o Natal. Primeiro porque, sob qualquer ponto de vista, apagada ou acesa, a árvore é feia. Depois, porque vira o epicentro de uma confusão apocalíptica durante TODO o mês de dezembro.
Sou voto vencido e minoria absoluta, já que a cidade parece achar normal transformar uma de suas paisagens mais belas num gigantesco outdoor para um banco. É aquele negócio, bota-se um coro e uma orquestrinha assassinando “Noite Feliz” e “Carmina Burana” e, pimba, a quermesse vira um “empreendimento cultural”. Mas é outdoor mesmo.
Eu gostaria sinceramente entender qual a graça de se meter num engarrafamento monstro, ser achacado por um flanelinha, comprar uma latinha de cerveja, abrir a cadeirinha de praia e ficar ali, largado, assistindo o troço acender e apagar. Um programa tão empolgante quanto o DVD da Marisa Monte lavando roupa na banheira do hotel.
Mas todo ano a família carioca – e de outro estados – faz tudo sempre igual. Os mais ousados podem até dar um passeio de pedalinho e contemplar, de perto, o portento natalino. Mas é o máximo de emoção que se consegue entre uma carrocinha de pizza (sim, isso mesmo, com chaminé e tudo) e um vendedor de Biscoito Globo.
Ela já está lá. Ainda ancorada, em breve “inaugurada” e tornando a vida mais difícil. Bimbalham os sinos e eu não estou me sentindo muito bem.
Quando era jovem, levava tudo a sério. Como dou aulas, toda semana encontro pessoas que levam tudo a sério. Ou seja, toda semana encontro comigo mesmo como eu era há mais de 20 anos. E, confesso, muitas vezes suspiro aliviado, comemorando a grande liberdade que é não levar nada muito a sério.
Pensei nisso por perceber a grande – e surpreendente – dificuldade destes jovens, que levam tudo a sério, com a tecnologia. É Orkut, MSN e olhe lá – uma amiga, também professora, notou a mesma coisa. No mais das vezes, a tecnologia é séria. E, por isso, não deve ser levada a sério.
Mas quem disse que blogs e twitters e facebooks da vida foram feitos para gente moça?(isso me lembra um disco da Sylvia Telles, que definitivamente não é coisa de gente moça) No fundo eu acho que tudo isso combina mais com quem já passou dos inte e dos inta e adquire a espetacular liberdade dos enta – inversamente proporcional à decrepitude física, bem lembrado.
Quando fui sério tratava os livros com respeito – é, já houve uma época, meninos, em que só se lia em papel. E a escrita com mais respeito ainda – o que pode ser, e foi, fatal. Destes dedos, meio chumbados pela tendinite, só era de se supor saírem palavras justas e pensadas. Ou seja, destes dedos, que ainda não tinham tendinite, não saía praticamente nada que prestasse de verdade.
E assim foi até que a internet bagunçou o meu coreto. Um coreto de pobre, bonitinho, limpinho, arrumadinho, em que se escrevia em português certinho sobre coisas muito sérias. Reli outro dia uma matéria dos tempos d’ O Globo e lembrei como já fui velho, ou melhor, jovem. E sério.
Pois outro dia, uma aluna, às voltas com a monografia de fim de curso, me confessou um certo pânico da enxurrada de informações da rede, medo de se perder nos blogs, dar um mau passo num link errado. E a angústia de como, sem ter lido o que achava importante ler para ser séria, perder tempo com as bizarrices que encontra por aí, boiando no espaço virtual.
E também teve um jovem, intelectual sério a sério, admitiu: o Twitter lhe assustava. Assim como os comentários, em sua maioria pouco inteligentes, que se faz nas caixas de blogs. Tudo também lhe parecia vulgar, fútil, dispersivo. Longe da “real thing”.
Pois este casal, que não se conhece, é sério. E está mesmo na idade de sê-lo. E despertou em mim uma ternura de vovô, não pela diferença de idade (também não sou Matusalém), mas pela seriedade. De repente me vi avô da seriedade, ou seja, aquele que deseduca, deixa fazer tudo, acaba com a disciplina. Aquele velhote que empenhadamente quer que a seriedade coma doce antes do jantar e deixe de ser séria.
E, da minha cadeira de balanço, onde balanço o muito que confundo do muito que li e do pouquíssimo que efetivamente sei, resolvi postar essa viagem completa e absoluta. Coisa que gente séria, de jeito nenhum faria.
Em tempo: eu sou daqueles que, quando o Twitter pergunta o que estou fazendo, tenho vontade de responder mesmo. A sério.
A Copa de Literatura Brasileira é, já pelo seu nome, uma brincadeira divertidíssima. Põe livros para brigar dois a dois e, através da decisão de juízes, os títulos passam por eliminatórias até sagrar-se um campeão. Mas este ano a CLB deu chabu. E dos bons. Numa das mais divertidas polêmicas literárias que já vi nos últimos tempos.
O juiz André Santanna, escritor, chutou o pau da barraca e, entre “Toda terça”, de Carola Saavedra, e “O dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca, jogo que deveria abitrar, escolheu o segundo. Ele diz que Carola é melhor mas fica com Cuenca porque se considera seu amigo. Reclama da avareza dos críticos em elogios. E impossibilita qualquer discussão e critérios razoáveis ao decidir assim o jogo: “Mas alguém pode insistir e dizer que estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Sim, eu estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Eu acho muito bom ficar bem com todo mundo”.
(Parêntese necessário: sou editor de “O dia Mastroianni”, não li o livro de Carola, não sou amigo de André Sant’Anna. Pouco se me dá quem ganha ou perde a Copa. Mas muito me interessa que este jogo criado por Lucas Murtinho exista. E continue a existir).
Na hora em que digito este post, são exatos 213 comentários no site da Copa. Há baixaria, teoria da literatura diluída, maledicência velada, referências cultas, ofensa aberta, indignação, iconoclastia, revolta, discurseira, bons modos até. Dá um trabalhão danado ler tudo. Mas é o retrato mais realista desde que, a partir do final da década passada, começou a se desenhar no horizonte uma cena literária menos anêmica do que a das décadas anteriores. Uma cena que, antes de virar editor, acompanhei empenhadamente escrevendo sobre ela no site No.com, na revista Época, no Idéias e, finalmente, no falecido NoMínimo. Por tudo isso, não vou me abster agora.
O fiel desta balança doidona é a seriedade, que na maioria dos casos é confundida com bons modos, sisudez e declarações de critérios tidos como razoáveis para a avaliação da literatura. Pois a gente não deve esquecer que a própria idéia da Copa é uma bem humoradíssima forma de ver a vida literária: um jogo em que escritores e livros são times, críticos são juízes e os comentaristas uma barulhenta arquibancada. Mais do que uma gracinha, o Lucas fez uma intervenção primorosa no debate literário, que hoje acontece para valer na internet mesmo e, ainda bem, ao sabor de algumas paixões – mesmo as de motivação mais duvidosa.
Pois estava todo mundo brincando de Copa da Literatura, numa boa. Aí vem um garoto vestido de juiz que, por algum motivo, deu um bico na bola. Mas não para acabar como o jogo, pois ele mirou direitinho em seus pares, os juízes. Acertou na platéia que, ao que parece, estava brincando de brincar – no fundo, levava tudo a sério demais da conta. E vem a divertidíssima indignação, que busca, no fundo, respostas decisivas a perguntas graves: o que é crítica? o que é resenha? o que pode? o que não pode? o que é humor? o que é literatura?
O André, auto-arremedo de homem cordial, é xingado de tudo. Mas só é xingado de tudo porque seu chute foi certeiro, não em uma suposta denúncia de critérios subjetivos (alguém ainda acredita em critérios objetivos?) mas ao expor a malha humana, demasiadamente humana até, que faz o cimento do mundo literário.
Eu sempre me repito, mas não resisto: leiam Brito Broca, “A vida literária no Brasil 1900” e façam as analogias. Está todo mundo lá, o roteiro certinho, se repetindo. Os escritores alpinistas, o crítico “justo”, o denunciador de compadrios, os compadrios em si, as ofensas pessoais, as injustiças, o jogo roubado, o prêmio surrupiado, o favorecimento. Quanto mais muda, mais igual fica.
E isso é menos importante do que a crítica? Claro que não. O que está “na margem” dos livros é parte dos livros também e, na perspectiva do tempo, sempre será parte destes livros. Mas a tendência é que, quando se está dentro do jogo, procure-se fazer as distinções de segurança. Para dignificar escrita e comentário e apequenar gozações e provocações (como a do André), valorizar a “justiça” diante da “injustiça”, a maturidade diante da iconoclastia – ia escrever porra-louquice, mas a torcida da Copa, ao contrario da do futebol, não gosta da palavrão e condena muito quem os usa.
Mas hoje não consigo ler João do Rio sem lembrar de sua patética luta pela Academia Brasileira de Letras (sendo enxovalhado por ser homossexual), não consigo admirar Antonio Candido como admiro sem lembrar que ele já foi chamado de “chato-boy” por Oswald de Andrade, não consigo pensar em Guimarães Rosa sem a derrota de “Sagarana” num júri que contava com Graciliano Ramos, ler Ana Cristina Cesar ou Cacaso sem associá-los aos ataques pós-pós-doutos que sofreram.
Mas até aqui são 810 palavras para conseguir o que Chico Alvim resolveu num poema de uma linha – duas com o título:
“Aqui nos encontramos”, de John Berger,é um livro sobre cidades e mortos. Num dos contos, o narrador (que mistura memórias, ficção e ensaio) vai a Genebra encontrar sua filha e, junto com ela, visita o túmulo de Jorge Luis Borges. É o melhor momento do livro, comovente pela escrita de Berger e também por este hábito, estranho, de visitar túmulos de escritores.
Há fãs de cemitérios em geral. Eu prefiro os escritores – e, eventualmente, os artistas de que gosto. Quase sempre o túmulo diz muito da vida e da posteridade de seu dono. Raramente vou a Paris sem dar uma passada em Montparnasse – o meu preferido numa cidade que tem o Père Lachaise como a grande estrela do turismo funerário mas que, sinceramente, não me encanta.
Montparnasse é um parque lindo, com mães passeando com seus filhos e, eventualmente, um enterrro chegando. Já vi tórridas cenas de amor, brigas de casal, velhos sozinhos, muitos turistas. E Sartre e Simone, que rebolaram tanto para não ser um casal burgês e terminaram no mesmo buraco, burguesíssimo e tão típico das famílias parisienses? E a adolescente, sentada ao lado de Serge Gainsbourg, ouvindo “Melody Nelson”? Estas cenas valem uma viagem.
Mas tudo isso vem a propósito de um site sensacional, o findagrave.com – um Google Earth do subterrâneo, um Google Maps do além. Você digita o nome do defunto e... pimba: está lá a foto da chamada "morada final", informações, comentários, um grande barato.
Pois foi lendo Berger (“cadê o gancho, Paulo?”, ouço o João Gabriel de Lima gritar) que me lembrei do Borges em Genebra, uma cidade onde nunca fui, de seu túmulo. Pois o site me deu uma mãozinha e até arranjei a foto deste post –para ser lido ao som de John Berger. Ou de Serge Gainsbourg, este da foto aqui embaixo.
Sofisticação, clareza e modéstia (sincera) não são propriamente características mais típicas do intelectual brasileiro. Leandro Konder consegue distinguir-se de seus pares em tudo isso ao longo de sua carreira e militância, e o que é mais difícil, agora que publica uma autobiografia, talvez o momento de maior risco na carreira de um escritor – pelo menos no que diz respeito à auto-indulgência e à edulcoração do passado.
“Memórias de um intelectual comunista” é tão simples quanto seu título: lê-se de uma só vez, numa tarde, como se o leitor tivesse o privilégio de ouvir Leandro falar. Não deve ter sido tão fácil assim escrevê-lo: logo na introdução, Leandro conta ter passado pelas principais memórias de companheiros para estabelecer o escopo das suas. Ao lidar com sua vida – e a de seu pai –lida com pedaços importantes da história recente do país e o faz com justeza de escala, sem supervalorizar o particular, sem apequenar o mais geral.
Advogado de formação atuante em sindicatos, luckacsiano de primeira hora, sofisticado leitor de textos literários (seu “Kafka – Vida e obra” é muitíssimo bom), marxista em diálogo com Gramsci, Leandro pagou todo o alto preço de ser fiel ao que acredita: prisão, exílio, censuras as mais diversas, artilharia pesada de todos os pontos do espectro ideológico. Conta tudo com intensidade e emoção, mas sem dramas: a cordialidade proverbialmente ligada a ele é, na prática, sua forma de mover-se pelo mundo, literal ou intelectualmente.
Escreveu ficção literária e romance policial e publicou ensaios sobre Walter Benjamin, Fourrier, Flora Tristán, Hegel e, at last but not least, o Barão de Itararé. Ao ser perguntado se este último era coerente com sua obra, respondeu, itararerianamente, que sua obra é que não era coerente com a do criador de “A manha”. O humor, comenta ele, sempre foi dimensão fundamental em sua vida e, em muitos momentos do livro, parece divertir-se muito como ao narrar o encontro que teve com Darcy Ribeiro no exílio. Ao ser apresentado a ele, Darcy mandou, de bate-pronto, que Leandro parecia um alemão, não era o sujeito boa-pita de que ouvia falar e concluiu: “Eu sou muito mais bonito do que você”.
Diagnosticado em 1995 com o mal de Parkinson, que muito lhe atrapalha a vida prática, aborda a doença sem tintas dramáticas ou reflexões edificantes. E, se alguém duvida de sua sinceridade, dê uma olhada na caudalosa produção de livros desde então. Estas “Memórias” são, portanto, mais uma forma de dizer sim às convicções – mesmo tendo que dizer não a todo o resto.
As fotos de William Claxton nasceram para serem ouvidas. O maior fotógrafo do jazz - de músicos, de lugares, de momentos - morreu no mês passado, aos 80 anos. Deixou um livraço, "Jazz Life", que é a súmula visual mais completa da grande música americana do século XX. Na "Vanity Fair", um slideshow com 12 imagens como esta aí de cima, que moldaram a cultura visual da música. Charlie Parker na caixa, William Claxton na cabeça.
Terminei “Leila Diniz – Uma revolução na praia” com um travo amargo . Talvez porque a história que Joaquim Ferreira dos Santos conta não seja exatamente uma história feliz. E não digo isso apenas pela morte trágica de Leila, num acidente aéreo, aos 27 anos.
Em cada gargalhada, cada palavrão e cada transa de Leila transparece uma nem tão discreta melancolia. Uma melancolia que não tem a ver com as particularidades de sua vida, mas com a vida de todo mundo. Pois a alegria, como queria o Oswald de Andrade, até pode ser a prova dos nove. Mas também é uma conquista dura, uma forma de negociar com estes imensos vazios de sentido que cercam a gente.
Lembro do Ferreira Gullar em seu depoimento no documentário “Vinicius”: você pode decretar que sua vida é boa ou uma merda. A segunda opção é geralmente associada à inteligência, dá até a prêmio Nobel; a primeira, estigmatizada como superficialidade. Mas no fundo, o chamado “sentido da vida” não passa de uma narrativa, que você escreve com as decisões de cada dia. Leila optou pela alegria. E esta opção cobra seu preço.
A descrição do encontro de Leila com Ruy Guerra, pai de sua única filha, Janaína, é brilhante. Joaquim a toma de empréstimo de Danuza Leão, já que o cineasta jamais comentou sua relação com a atriz. E mostra como a vida, definitivamente, não acontece numa festa – o que não quer dizer que ela se passe num porão. Diante da seriedade de Ruy, numa mesa de bar, Leila vai se despindo do personagem (todo mundo tem o seu, não é privilégio da mulher-mito da liberação brasileira) e expondo-se em sua fragilidade. É comovente.
O doutor Helio Pellegrino, que também foi personagem fundamental daqueles libertários anos 60, escreveu na década seguinte um texto brilhante, “A construção da alegria”. Nele, argumentava que toda alegria que dura é severa, deve ser talhada como um barco num tronco: “Um barco se constrói devagar, com fiel austeridade. Os gestos precisos – navegar é preciso – se sucedem, trabalhando a matéria, dia após dia. À noite se conversa, se ama ou se dorme – semeadura de possíveis. O dia é o tempo da construção do barco, sua forma emerge aos poucos, como uma asa que irrompe. Assim é a alegria – como uma asa que irrompe”.
A alegria de Leila Diniz aparece num realismo impressionante neste pedaço de filme (feito sabe-se lá por quem) de seu último show, que é narrado no final do livro de Joaquim. Dalva de Oliveira, longe de seus grandes dias, canta “Primavera no Rio” , e Leila, com cara de moleque, samba na plenitude de seu borogodó, àquela altura já mitológico. Há sinceridade e emoção brutas neste flagrante, postado logo aqui embaixo. E fico imaginando com quanta angústia se faz esse sorriso radiante, com quanta sombra se produz tanta luz, quanto foi preciso para que, como diria o Hélio, esta asa irrompesse.
Best seller é uma categoria complicada de livro. É, ou deveria ser, uma definição a posteriori: vendeu muito, mais vendido é. Mas virou mesmo um gênero literário que todo mundo sabe definir: livros de entretenimento, com grande potencial de dar uma zerada no QI dos leitores e fazer o tempo passar mais rápido. Certo? Mais ou menos.
Michael Crichton, que morreu anteontem, aos 66 anos, fez parte de uma safra de autores que deram uma das viradas do grande best seller americano. Nos anos 70, quando os números não eram tão estratosféricos como hoje, o livro blockbuster tinha, como sempre, perfumes de sua época: sexo, mulheres, dinheiro, poder, cobiça e algumas drogas. Harold Robbins. Sidney Sheldon.
Crichton era médico, fascinado por cinema e por tecnologia. Dirigiu “Coma”, um clássico do trash médico, e criou o “Jurrasic Park”, “O mundo perdido”, “Congo”. Mas também de sua cabeça mirabolante saiu “Plantão Médico”, uma série de TV que grudava até naqueles que, como este que vos bloga, não suporta série. Com ele, o escapismo literário vinha cheio de informações bem pesquisadas.
Os colegas John Grisham e Scott Turow também inauguraram variações interessantes sobre tramas de suspense, explorando o universo corporativo (“A firma”) ou os eternamente fascinantes tribunais (“Acima de qualquer suspeita”). Zerar o QI passou a dar muito mais trabalho: tome labirintos legais, negociações complicadas e, é claro, muita informação. Muita mesmo.
As listas dos mais vendidos, estes extravagantes oráculos do gosto, nos indicam outros caminhos possíveis. É patente que o leitor hoje quer ter pelo menos a impressão de que leva algo mais de seu entretenimento, seja um maço de confusas informações históricas como no “Código Da Vinci” e em todos os seus sucedâneos, ou a vida numa outra cultura, como no “Caçador de pipas” e na bancada afegã, talibã, iraquiana, enfim, no orientalismo que também nos assolou ultimamente.
Em nossos arraiais, falar de best seller equivale a xingar a mãe do intelectual ou do grande escritor, que não se mete com esse negócio de público – ainda mais numeroso. Mas as flutuações do que se torna ou não mais vendido, hoje em escala planetária, diz muito do tempo em que se vive. E Crichton já é História por ter sintonizado a ficção de entretenimento com o grande fetiche de dias internéticos: informação, informação, informação.
Postado por: Paulo Roberto Pires
| 06/11/2008 - 14:12 Comente
Cortázar, o perseguidor
E para completar este domingo, a voz, impressionante, de Julio Cortázar lendo um trecho de "El perseguidor"sobre uma montagem de fotos e som de Charlie Parker, que o inspirou. São quatro minutos e nove segundos de paraíso.
Me sentia num conto de Cortázar. Não, eu não buscava Johnny Carter, Charlie Parker ou Dexter Gordon em Paris. Ia, sim, atrás de J. T. Meirelles, também gênio, no Rio de Janeiro. Não, eu não era um personagem de Cortázar, mas buscava Meirelles depois de saber que ele, o grande saxofonista do samba-jazz, um dos grandes arranjadores de qualquer gênero, vivia sozinho, num hotel da Lapa, tocando aqui e ali com um sax comprado por fãs – o dele, vendera, desencantado que estava com o injusto segundo plano a que foi relegado pela vida.
Me vinha à cabeça “El perseguidor”, “Round midnight”, o filme, e os fragmentos de história eram contados entre vinis e CDs piratíssimos na Pedro Lessa, ruela ao lado da Biblioteca Nacional, em frente à Cinelândia. Freqüentar a feirinha de discos dali era descobrir novas coisas, velhas coisas, aprender, perder tempo em conversas cheias de citações, de discos, de nomes – este pequenos rituais de que nos valemos para preencher os buracos da vida, e eles são tantos, imensos.
Eu buscava Meirelles porque soube, ao comprar o antológico “Meirelles e os Copa 5”, que ele já fora figurinha fácil por ali. Um italiano, cujo nome me escapa, já havia inclusive entrevistado o homem para um livro sobre bossa nova que escrevia. Personagens iam e vinham até que um numero de celular me dava a pista mais concreta de que valia a pena tentar uma entrevista – afinal, o que mais eu poderia fazer, dizer simplesmente que adorava sua musica, apertar sua mão e ir embora?
Todos os dias, deixava recados na secretária eletrônica sem identificação. Enquanto isso, para ganhar tempo e justificar meu trabalho, entrevistava críticos, contemporâneos e músicos sobre João Theodoro Meirelles, pessoa “difícil”, me diziam. No meio das conversas, descobri inclusive que minha reportagem tinha “gancho”: a Dubas, de Ronaldo Bastos, ia relançar os discos em grande estilo. Fiz também um amigo, Edison Vianna, produtor dos relançamentos de anjo da guarda de Meirelles. Mas o homem, que é bom, nada.
Ele já sabia que o procurava. Mas preferia não responder. Até que fui encontrá-lo de uma forma da qual não podia escapar: eu, nas mesas de um restaurante do Centro do Rio que, durante a semana, oferecia uma happy hour para seu clientes, em geral casais em atitudes escusas; ele, no palco, ao lado de um teclado, tocando para essa gente conversar. Não era bonita a cena, documentada pelo fotógrafo Renan Cepeda, para estranheza do músico, que quando acabou seu set veio direto falar conosco. Ele já sabia quem éramos.
Conversamos por mais de duas horas. Entrevista, ele não daria. Não tinha nada a falar. Tímido, gago, às vezes agressivo, falamos sobre tudo e todos, ele amolecendo na medida em que era menos o jornalista e mais o fã que perguntava, puxava, queria saber coisas de todas as épocas. Dei uma carona até a Lapa e saí correndo para o computador, despejando, de cabeça, tudo que tinha ouvido, a bebida confundindo um pouco as coisas, eu torcendo para dar certo.
A matéria – que achei no site da gravadora – foi ao ar numa sexta e, no dia seguinte, foi capa do “Caderno B”. Uma multidão foi à Modern Sound, onde ele tocava nas tardes de sábado, por ter ligado o nome à pessoa. Meirelles deu autógrafos em jornais, tirou fotografias com fãs que não sabiam de sua história. Me ligou no início da noite, a princípio zangado por eu ter comentado sobre as brigas, a vida solitária. Mas queria mesmo era agradecer a matéria, docemente. Nestes raros momentos, achava que a profissão valia a pena.
Choveram reportagens e “O som de Meirelles e os Copa 5” teve um lançamento em noite de gala na Modern Sound. Num grupo maluco que incluía Aldir Blanc e João Luís Albuquerque, rebocamos Meirelles pela noite, ele tocou flauta na roda de choro do Bip Bip, fizemos uma farra no velho e bom Alcazar, na Avenida Atlântica.
Há uns dois anos, o Edison, o anjo da guarda, me procurou para dizer que Meirelles havia realizado o sonho de escrever um livro de sua vida. Sonhou com biógrafos importantes mas resolveu fazê-lo por si mesmo. A esta altura estava plenamente “redescoberto”(ele detestaria a palavra; no fundo eu também a detesto): gravou dois discos inéditos na Dubas, tocava pelo Brasil, participou do TIM festival em 2003. e voltei a falar com ele, pelo telefone.
Li os originais de “Sax explícito/som frontal” de uma só vez. Curto, escrito no ritmo das lembranças, tinha problemas, coisas a ajustar. Decidi não publicar por motivos outros e fiz um longo e-mail a ele, falando, sinceramente, do que via como problema. Recebi uma longa resposta, um tanto abespinhada, refratária a minhas criticas, ácida com minha posição “numa grande editora”. Mas que terminava com um “sempre seu amigo” que me fez saber que estava tudo bem.
O e-mail está fresco na memória porque o reli ao saber que Meirelles morreu. Não ontem, mas em junho. O Google me mostrou algumas reportagens lacônicas sobre sua morte, mas eu mesmo não soube de nada na época. E não me perdôo por isso, por não poder homenageá-lo ainda uma vez mais, por não ter publicado seu livro, por não ter escrito em algum lugar sobre ele. Voltaram os e-mails, voltaram imagens desta época, e o som. O perseguidor e o perseguido. Que fiquem agora estas histórias, soltas pela rede, e a música excepcional de João Theodoro Meirelles neste vídeo que posto aqui: