
Revista BRAVO! | Setembro/2008
Gisele Kato
Beatriz trabalha desde o início da carreira, na década de 1980, no bairro carioca do Jardim Botânico. Para lidar bem com experiências cada vez mais diversas ela estreou só com pintura e hoje explora também gravura e colagem , a artista reveza-se agora entre dois sobrados vizinhos de uma rua tranqüila e fresca. Em um deles, o mais antigo, ficam sua auxiliar administrativa, o assistente de arte e três mesas gigantes, abarrotadas de embalagens de balas e chocolates, matéria-prima para as colagens que desenvolve há cinco anos. "Acho os papéis incríveis, feitos mesmo para seduzir o consumidor", explica Beatriz, muito interessada nas potencialidades estéticas desses materiais. Com sorte, podem-se encontrar as embalagens ainda com os doces, que são desembrulhados um a um pela artista e seu ajudante, em um exercício de paciência extrema para não se rasgarem. "Juntamos sacos de bombons Sonho de Valsa, balas Mentos e distribuímos na rua", conta Beatriz, que assim promove versões muito particulares do dia de São Cosme e Damião. "As camareiras dos hotéis em que me hospedo no exterior também têm surpresas açucaradas. Deixo os chocolates lá e trago na mala só os papéis."
O outro sobrado, adquirido em 2005 e reformado ao longo de dois anos, funciona mais como um refúgio. Dedicado exclusivamente à pintura, tem moldes de acrílico e plástico espalhados pelo chão, muitas observações da artista sobre cores e formas pregadas nas paredes e, claro, as telas. Atualmente são duas penduradas no primeiro andar e duas no segundo, todas as quatro de grandes dimensões, em estágios diferentes de produção e já com futuro certo: a galeria que a representa em Nova York. "Promovo um revezamento entre as quatro galerias que me representam: a Fortes Vilaça, em São Paulo, a Stephen Friedman, em Londres, a Max Hetzler, em Berlim, e a James Cohan, em Nova York. Isso porque só apresento mesmo uma exposição comercial por ano." Nesse segundo espaço da artista, poucas pessoas circulam. Os janelões deixam entrar a luz alegre da Cidade Maravilhosa, e o silêncio domina o ambiente na maior parte do tempo: "Preciso desse canto porque minha pintura é muito cerebral. De vez em quando, o Marcos (assistente) vem pra cá me ajudar em alguma coisa. Daí até ligo o rádio, por exemplo. Mas, sozinha, passo horas sem ouvir ou falar nada".
No ateliê, dá para ver em um dos vidros de uma das janelas um estudo de uma grande intervenção que tomará em breve o prédio anexo da Pinacoteca, endereço de sua nova exposição. "Vai ficar bonito, não?", pergunta Beatriz com a segurança de quem não deixa que nada saia dali envolto em algum tipo de dúvida, por menor que seja. Feitas com adesivos de vinil, figuras desenhadas por Beatriz serão coladas nas janelas da instituição e prometem remeter a vitrais, provocando sombras coloridas no interior de uma das salas da mostra. O projeto, inédito no Brasil, segue as propostas que a artista vem realizando desde 2004 na Europa: "Comecei com a fachada da Selfridges (loja de departamentos) em Manchester, ocupei depois uma estação de metrô e o restaurante da Tate (Modern, um dos principais museus britânicos), ambos em Londres, e a loja da Taschen (editora de livros de arte), que tem desenho de Philippe Starck, em Nova York. Agora faço a Estação Pinacoteca e, em outubro, o Museu de Arte Contemporânea de Tóquio", diz Beatriz. "Mas há uma novidade no que preparei para São Paulo. É a primeira vez que crio algo para ser visto de dentro do prédio, interagindo com a luz natural do dia." Para Ivo Mesquita, curador da exposição paulistana, o trabalho lembra muito Matisse, o pintor francês que, no começo do século 20, se tornou célebre pelo uso das cores.
Pela Arte Cerebral
Beatriz tem um pouco de dificuldade em enxergar em suas criações o tom expansivo e sedutor que muita gente alardeia. A matéria escrita pela crítica Jennifer Higgie na revista inglesa Frieze em 1993 usava expressões como "jardim de delícias" e "caleidoscópio psicodélico de cores, flores, amor". Mas cada vez mais ela se assume como dona de uma linguagem abstrata, geométrica e carregada: "Acho difícil conviver com um quadro meu. Eles são pesados", diz a pintora, que só há pouco pendurou na própria casa, no bairro carioca da Gávea, uma obra sua, "de uma fase mais antiga". Essa seriedade com relação à arte tem muito a ver com sua personalidade. "Minha filha sempre foi muito reflexiva e forte. Depois que decidiu pelo caminho da pintura, nunca mais se deixou abalar. Quando o furor da Geração 80 passou, ela continuou insistindo nos seus elementos, no que acreditava como linguagem", conta a mãe, Glauce. O professor do Parque Lage Charles Watson, que Beatriz aponta como uma das figuras definitivas para a sua trajetória e famoso por ser justamente rigoroso em suas classes, concorda: "Ela me chamou a atenção logo de cara por sua inteligência, disciplina e concentração. A combinação de tudo isso era notável, e eu já apostava que ela iria fazer sucesso, só não podia imaginar quanto!".
Separada do arquiteto Chico Cunha, com quem ficou casada nove anos, sem filhos, Beatriz confessa que muitas vezes precisa quase se obrigar a sair do ateliê para curtir os amigos e a família. Ela se diverte de verdade entre os milhares e não é força de expressão de bisnagas de tinta, na frente de uma tela. Os tubos importados de cores, com etiquetas escritas em japonês e inglês, ficam, em sua maioria, sobre duas bancadas de madeira compridas, que vão de um lado a outro da casa. Não estão exatamente organizados segundo tons ou combinações, mas lá, enfileirados, mantêm-se todos ao alcance de sua dona. Em um bilhete bem pertinho das bisnagas lê-se: "2 rosas em rose bright e very light pink". Nesse cenário, ela se entrega a empolgantes duelos cromáticos e se esquece das coisas do lado de fora.
Com a fama, se ela não bater o pé, o tempo no sobrado silencioso encurta. "Tenho de lidar agora com esse status de celebridade. Eu nunca almejei ter esse tipo de visibilidade que um artista de TV tem de ter, enfim, artista que precisa de público. Artes plásticas são um setor mais fechado mesmo, não funcionam para grandes massas em lugar nenhum do mundo. No entanto, hoje, eu preciso reservar um tempo para dar entrevistas." Esse novo status, porém, modifica e muito até mesmo suas relações mais antigas: "Hoje sou uma artista que vale realmente dinheiro. O assédio dos galeristas se amplia. Eles querem ter um controle maior sobre o que eu faço. A pressão aumenta".
Hoje, a fila de colecionadores atrás de um trabalho de Beatriz Milhazes dá tantas voltas quanto as figuras circulares de suas criações. Soma-se ao poder de sua assinatura a comprovada pouca oferta, já que cada obra da pintora resulta de um embate de pelo menos dois meses, o que leva ao total de seis novas peças por ano. No máximo. Juntam-se a essa equação a popularidade da pintura em um mercado ainda apegado aos suportes tradicionais e o sotaque brasileiro que a artista consegue manter sempre tão presente nos mais variados momentos. "A cor de Milhazes passa por mutações ao incluir Ivan Serpa, pedras preciosas, Volpi, alegorias de Carnaval, Guignard, crochê, Bridget Riley, rendas, Mondrian, festa junina, Yves Klein, chitão, igrejas barrocas, Matisse, bolo de milho, Waldemar Cordeiro, Carmen Miranda, azulejos coloniais, Oiticica, procissão, Ione Saldanha, Salvador, Parati e Tarsila. Entremeiam-se aquelas forças que, não sendo dominantes, são constantes na arte brasileira: o barroco, a antropofagia, a vontade construtiva", enumera o crítico Adriano Pedrosa no ensaio Beatriz Milhazes, O Baú Brasileiro, de 2001, sobre a produção de Beatriz (leia abaixo quadro sobre as influências de Beatriz). Ela confirma: "Sempre me senti muito conectada ao modernismo brasileiro, principalmente à figura da Tarsila (Tarsila, sempre Tarsila...), além do Carnaval, da natureza e suas cores, das igrejas barrocas. O bolo de milho me inspira".
As referências grudadas no Brasil são tantas que, até hoje, Beatriz nem sequer tentou pintar fora de seu ateliê no Rio por medo de que, sem a luz, a paisagem e os cheiros da cidade, seu processo criativo se prejudique. "Já fiz gravuras e colagens no exterior. Mas até pouco tempo atrás tinha bastante receio em encarar uma tela longe desse meu canto. Agora eu vou ter em breve um espaço fora do Brasil, na Europa, e um pouco desse temor passou. Mas continua sendo importante para mim ter um lugar para voltar e dar uma energizada", diz Beatriz. Quando a carreira começou a deslanchar, a artista sentiu uma pressão forte de marchands e galeristas para que se mudasse para algum centro mundial de arte: "É quase a ordem natural das coisas, mas eu nunca quis. Tive de aprender inglês rápido porque o mercado americano é muito agressivo. A parceria com o Marcantonio Vilaça (galerista que morreu precocemente em 2000, responsável pelo início da internacionalização da arte brasileira) me ajudou muito nesse começo. Mas desmanchar minha estrutura aqui nunca esteve em discussão". Ponto para os coqueiros do Jardim Botânico e para o bolo de milho molhadinho no forno.
Cercada por suas mais caras referências, Beatriz controla agora o frio na barriga que invade os sobrados nas vésperas de grandes mostras, uma ansiedade que ela garante ser igualzinha à que sentiu na primeira exposição internacional, na Venezuela, em 1993. "Eu não me acomodo em situações confortáveis, estou sempre adotando alguma ousadia. Agora, estou na expectativa de como vão funcionar os adesivos nos vidros da Estação Pinacoteca", conta a artista, sem no entanto perder a autoconfiança. "Domino plenamente o que apresento. Assim, fico preparada para me defender." Como se Beatriz ainda precisasse convencer alguém de que merece o lugar que ocupa.
Onde e Quando
Beatriz Milhares: Pintura e Colagem. Estação Pinacoteca (largo General Osório, 66, Luz, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3337-0185). De 6/9 a 30/11. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 4.