
Revista BRAVO! | Outubro/2008
Gisele Kato
Dado que o segundo andar vai ficar vazio, Ivo adotou um recorte claro para os dois pisos restantes do pavilhão. O primeiro andar vai se transformar em uma espécie de grande praça, ponto de encontro entre artistas performáticos, como os coletivos Fischerspooner, assume vivid astro focus, Los Super Elegantes e Joan Jonas. Festas, shows musicais, projeções de vídeos, dois escorregadores gigantes, um playground e até aulas de dança disputarão a atenção dos visitantes. "É importante que a Bienal seja reapropriada pela cidade. Ela precisa retomar o diálogo com o seu tempo, com o mundo a sua volta", defende o curador. Nesse bloco, sinaliza Ivo, uma vertente forte da arte atual é aquela que pede a participação do espectador. Prepare-se para brincar, dançar, escorregar. Sim: Carsten Höller vai construir dois escorregadores, um saindo do segundo piso e outro do terceiro, passando pela parte externa do edifício e chegando ao térreo. É para o público se jogar mesmo no convite. Nessa mesma linha, o paulista Maurício Ianês decidiu morar no prédio durante duas semanas de 4 a 16 de novembro , dependendo exclusivamente da doação dos visitantes da mostra para se alimentar, vestir e dormir com algum conforto. Vai roubar a cena em muitos momentos.
Esse andar atende também a um ousado desejo desta edição da Bienal: aumentar o número de espectadores, que desde a sua abertura se mantém na casa dos 10% da população da Grande São Paulo em 1951, 120 mil pessoas, de um total de 1 milhão e cem mil moradores da metrópole (que era, então, menor que o Rio de Janeiro), circularam pela exposição. Em 2006, o número cresceu para 1 milhão, diante de um censo de 10 milhões de habitantes. Além de privilegiar a produção que estabelece uma relação lúdica com o público, Ivo fará circular ao longo dos 40 dias de exibição edições de um jornal distribuído gratuitamente nos mais diversos pontos da capital: "O 28b terá uma linguagem acessível e uma tiragem de 50 mil exemplares por semana. Fizemos uma parceria com o Metro para ir atrás justamente de quem busca uma opção de lazer. Muita gente defende que a Bienal não pode acabar, porém nunca entrou em uma", explica Mesquita. Vale lembrar que muitas galerias pegam carona na temporada da Bienal e reservam para este mês a apresentação de seus melhores nomes (confira a agenda nas págs. 56 e 57).
O terceiro andar, nas palavras do próprio curador, é mais "cerebral". "Não tenho nenhum problema em dizer que, lá, falo com especialistas", declara Ivo. O espaço está reservado para 23 artistas, como o americano Allan McCollum, a finlandesa Eija-Liisa Ahtila e o brasileiro Iran do Espírito Santo, muitos deles também com trabalhos desenvolvidos especialmente para a Bienal. Juntos, eles compõem um time sintonizado com as preocupações latentes da instituição, como memória, documentação e os limites entre realidade e ficção. Se no primeiro andar o visitante conjuga os verbos "brinque, "dance", "escorregue", nesse, agora os verbos são "pense" e "discuta". Uma obra como o objeto em forma de buraco de fechadura, feito por Iran do Espírito Santo, subverte a relação do voyeur, já que, em vez de bisbilhotar, ele vê a si próprio refletido na superfície da peça.
A Bienal Em Vivo Contato difere bastante das anteriores, mas não se pode dizer que se trata de uma ruptura total. Muitas mudanças vêm sendo experimentadas desde 1951. No início se seguia o modelo veneziano, com representações nacionais e relações diplomáticas como critério para definir os países participantes. O curador Walter Zanini, em 1981, começou a diluir essa estrutura, definitivamente abolida por Lisette Lagnado em 2006.
"Estamos tão globalizados que dividir o espaço segundo a geografia é muito ultrapassado, é quase uma visão colonizadora. Nem os artistas se sentem à vontade para se ligar a uma nacionalidade só. Veja o Carsten Höller, por exemplo. Ele é belga de nascimento, mas viveu anos na Alemanha, tem uma cidadania alemã e hoje está casado e tem uma família na Suécia, onde é tratado como cidadão sueco", pondera o curador. Os núcleos históricos, que nas décadas de 1950 e 1960 eram quase a única oportunidade de ver no Brasil obras clássicas como as de Picasso, Van Gogh e Warhol, também já não são apresentados desde 2002. Por que seriam, já que os museus cumprem bem essa função?
Em seu terceiro mandato como presidente da Fundação Bienal, Manuel Pires da Costa é acusado de diversas irregularidades administrativas, denunciadas pelo Ministério Público. Até o fim de 2007, por exemplo, a instituição estava em dívida com artistas e profissionais técnicos que trabalharam na 27ª edição da mostra. O próprio catálogo da exposição de 2006, montada ao custo de R$ 17 milhões, só foi lançado em junho deste ano. Com a fundação mergulhada em déficit financeiro, esta edição se viabiliza, portanto, com recursos bem menores que os de gestões anteriores. Orçada em R$ 9 milhões R$ 1 milhão financiado pelos países dos nomes estrangeiros convidados e o restante vindo da prefeitura e de empresas privadas, via Lei Rouanet , a Bienal paulistana pretende, assim, abraçar gostos e formações de todo tipo. Talvez não seja ainda uma resposta muito clara à dificuldade em que a instituição se encontra, mas é inegável que aponta para um possível caminho.
Onde e Quando
28ª Bienal de São Paulo Em Vivo Contato. Fundação Bienal (Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque do Ibirapuera, portão 3, São Paulo, SP, tel. 0++/11/5576-7600). De 26/10 a 6/12. De 3ª a dom., das 10h às 22h. Grátis.