Revista BRAVO! - Agosto/2009

Explosão Planejada

Pela primeira vez diante de um número significativo de obras do francês Henri Matisse, os brasileiros terão a oportunidade de acompanhar a evolução do “gênio das cores” - que, muito mais que intuitivo, era também um artista cerebral e meticuloso

Por Gisele Kato

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Intérieur Jaune et Bleu (Interior Amarelo e Azul), óleo sobre tela - ©Succession H. Matisse, “Intérieur Jaune et Bleu ”, 1946 / Licenciado por AUTVIS, Brasil, 2009 - (abre)
Intérieur Jaune et Bleu (Interior Amarelo e Azul), óleo sobre tela

Ele seguia à risca a rotina. Acordava cedo e passava a manhã toda no ateliê. Voltava às telas por mais um tempinho depois do almoço. O fim da tarde era reservado às aulas de violino. No jantar, servia-se sempre do mesmo cardápio: salada, uma sopa de legumes, dois ovos cozidos e uma taça de vinho. Volta e meia, confidenciava que a convivência com os filhos, Marguerite, Jean e Pierre, atrapalhava um pouco seu processo criativo. Precisava de um ambiente tranquilo para desenvolver as peças. Para ele, uma boa obra de arte era aquela capaz de transmitir equilíbrio e serenidade às pessoas. Serviria como uma espécie de refúgio à mente dos observadores. As manias e crenças, por si sós, não surpreendem. Tudo muda, no entanto, quando se avisa que o artista em questão é Henri Matisse (1869-1954). A princípio, o apego às regras e a busca por um estado de calma não combinam muito com as cores nervosas e as cenas repletas de detalhes associadas imediatamente ao pintor francês. Mas insistir em olhar seu trabalho dessa forma significa manter-se sobre a superfície de uma influência fundamental para a arte do século 20, que se estende até o século 21. Há silêncio por trás das padronagens chamativas de seus quadros. Há, também, muito esforço e menos intuição, ao contrário do que se pode pensar diante de composições tão explosivas. Perceber isso vai ser bem mais fácil a partir do mês que vem, quando a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta Matisse Hoje, a primeira exposição individual do artista no país.

Com cerca de 80 obras, entre elas 12 fotografias do mestre em seu ateliê, tiradas por nomes como Cartier-Bresson e Man Ray, e um filme captado por François Campaux entre 1945 e 1946 — em que o artista aparece desenhando, em câmera lenta —, a mostra certamente se impõe como o evento mais importante das comemorações do Ano da França no Brasil. Nunca antes os brasileiros puderam ver Matisse nessa dimensão. Com peças provenientes de coleções públicas e privadas e curadoria de Emilie Ovaere, do Museu Matisse de Le Cateau-Cambrésis, a cidade natal do pintor, a iniciativa ainda contempla cinco franceses contemporâneos que têm — ainda hoje — Matisse como principal referência: Philippe Richard, Pierre Mabille, Cécile Bart, Christophe Cuzin e Frédérique Lucien. Distribuída pelas sete salas climatizadas do museu, a exposição pontua todos os períodos da produção do pintor francês, começando pelas paisagens do início da carreira, perto de 1890, e finalizando com seus "papiers découpés", os famosos papéis recortados a que tanto Matisse se dedicou no fim da vida. Vistas assim, lado a lado, as criações provam a estabilidade de sua trajetória. "Os recortes são uma fase interessante porque Matisse já é um senhor na época em que os inventa. Ele não teve um momento de glória, de auge, e depois decaiu. Ele foi se renovando. Criou uma nova técnica mesmo", diz Regina Teixeira de Barros, que presta assistência de curadoria a Emilie na mostra.

Da extensa seleção feita pela dupla, destaca-se Nature Morte au Magnolia (Natureza-morta com Magnólia), tela de 1941, emprestada do Centro Pompidou, de Paris, e declaradamente a preferida do pintor. Até chegar à composição de fundo vermelho fechado com os vasos e jarras distribuídos pelo espaço, o artista fez vários estudos minuciosos. Alguns deles são praticamente obras prontas, bem diferentes do que Matisse resolveu depois apostar como resultado final. "Isso prova como ele era racional também. É, sem dúvida, um trabalho de muita reflexão", observa Regina. Diante da peça, dilui-se, portanto, um lugar-comum bastante divulgado nos livros de história da arte: a ideia de que Pablo Picasso, com quem Matisse alimentava uma relação de amor e ódio, seria o protagonista exclusivo de uma pintura mais cerebral, como pregava o cubismo, e que Matisse, por sua vez, se entregara, sem momentos de exceção, a uma combinação quase instintiva das cores. "Há aproximações incríveis entre Picasso e Matisse. Algo difícil de imaginar se nos restringirmos às duas correntes estéticas", explica a curadora brasileira.

O FAUVISMO
Enxergar essas nuances, no entanto, não implica tirar de Matisse o título de "gênio das cores". Nunca antes e nunca depois dele um artista aplicou tons sobre a tela de forma tão extasiante. Em suas criações, paredes, tetos, toalhas de mesa e pisos sucedem-se em marrons, vermelhos e azuis nada tímidos, e mesmo assim apresentam perspectiva. Depois de uma viagem ao Marrocos, na década de 1910, esse processo se radicalizou ainda mais. Matisse adotou as estampas, geralmente em forma de arabescos, e seguiu sem medo de espalhá-las pelas composições. Roupas de personagens e planos de cena passaram a ganhar, com frequência, o mesmo desenho, nos mesmos contrastes, e, apesar disso, não se confundem. Com repúdio declarado à luminosidade impressionista, o artista, desde o início da carreira, extinguiu as sombras de suas imagens, numa proposta que causou escândalo quando vista em Paris pela primeira vez.

Foi no Salão de Outono, em 1905. No dia seguinte à abertura da exposição, o crítico Camille Mauclair dizia no jornal francês Le Figaro: "Um pote de tinta foi arremessado na cara do público". Mas partiu de seu colega Louis Vauxcelles a frase que batizou imediatamente o grupo de seguidores de Matisse. "Donatello au milieu des fauves!" — algo como "Donatello entre feras!" — circulou no jornal Gil Blas, na manhã de 17 de outubro, em uma citação à escultura do italiano renascentista que dividia a sala com os novos pintores. Não demorou nada, no entanto, para os fauvistas substituí­rem o choque inicial por uma boa popularidade. Matisse mesmo, considerado o mentor do movimento, começou a receber logo muitas encomendas de trabalhos de marchands poderosos na época, como Gertrude Stein, Clarabel e Etta Cone, além de endinheirados colecionadores russos. Em outubro de 1930, ele chegava à capa da revista norte-americana Time. Nessa mesma época, seu filho Pierre dirigia uma importante galeria especializada em arte moderna em Nova York. Entre os nomes representados por ele, além do pai, claro, estavam Marc Chagall, Joan Miró, Jean Dubuffet e Alberto Giacometti. Ou seja, pouco mais de 30 anos depois do alvoroço em torno de seu estilo, Matisse não só tinha prestígio como andava entre os grandes.

ARTE ALEGRE
Lançado pela editora Cosac Naify no ano passado, o livro Escritos e Reflexões sobre Arte, escrito por Matisse entre 1908 e 1953, prova como o artista francês esteve sempre muito atento ao que acontecia ao redor. E ao que houve no passado também. Sabe-se por exemplo que em 1899, quando ainda deveria viver com o dinheiro do aluguel contado, Matisse comprou o quadro Trois Baigneuses (Três Banhistas), feito por Paul Cézanne em 1882. A obra ficou com ele por 37 anos e lhe serviu de impulso em muitos impasses criativos, como ele mesmo declarou diversas vezes.

Sem abraçar causas políticas, o pintor atravessou as duas guerras mundiais buscando sempre oferecer prazer por meio de sua arte. Em nome da alegria, tentava a todo custo esconder na peça o suor gasto na elaboração. Queria que, aos olhos dos espectadores, elas parecessem concebidas e executadas com facilidade. Desejava, ainda, que, debaixo das camadas de cores fortes, suas criações transmitissem conforto. E, de fato, em uma observação mais cuidadosa, como a exposição na Pinacoteca vai permitir, encontra-se paz em Matisse: "Ele pede contemplação. Nada é veloz. Suas mulheres estão quase sempre deitadas. Há um clima de ócio criativo em seus trabalhos", diz Regina. Para a curadora, Matisse respeitava um tempo de maturação de suas figuras. Talvez por isso precisasse tanto do silêncio. Por isso, trabalhou todos os dias de sua vida de forma sistemática. Não fez nada com pressa. E é assim que seu legado deve ser visto para se mostrar em sua totalidade. "Gostaria de captar o frescor da visão característica da juventude, quando tudo no mundo é novo", comentou Matisse certa vez. O mesmo Matisse que, em dado momento da carreira, confessou que sofria por não pintar como todo mundo.

ONDE E QUANDO
Matisse Hoje. Pinacoteca do Estado de São Paulo (praça da Luz, 2, Luz, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3324-1000). De 5/9 a 1º/11. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 6. Grátis aos sábados.

 

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