
Revista BRAVO! | Junho/2009
Por Bruno Moreschi
Num brilhante texto sobre o pintor norte-americano Jean-Michel Basquiat, o crítico australiano Robert Hughes desafiou a aura de mito que cercava o artista no início da década de 1980. Enquanto revistas como a Artforum o chamavam de "um gênio da pintura tocado por Deus tal qual um santo negro", Hughes ateve-se à arte que ele produzia e questionou se suas obras eram mesmo tão admiráveis. A conclusão foi um taxativo não.
Nos últimos meses, a qualidade do trabalho de Vik Muniz ofusca-se por uma tietagem semelhante. Numa unanimidade pouco vista, o paulistano é celebrado como um artista surpreendente tanto pelo público quanto pela mídia. A obsessão por usar materiais inusitados na composição de suas fotografias se tornou apenas um argumento secundário para os confetes. A exaltação acontece agora mais pelo fato de Vik levar multidões aos museus do que pelo inegável domínio de uma técnica. Entre janeiro e março, sua individual atingiu 50 mil visitantes no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Em cartaz até 12 de julho no Museu de Arte de São Paulo (Masp), a exposição deve atingir aproximadamente 140 mil pessoas — o recorde de visitação nesse museu foi de 400 mil com a mostra do pintor francês Claude Monet em 1997. Por se considerar um "criador do povo", o próprio artista intitulou a exposição com a simplicidade de seu primeiro nome, Vik.
As benesses de mostras tão visitadas como essa são indiscutíveis. A mais óbvia é a criação de um público que, impressionado pelas artimanhas de Vik, possa vir a visitar outras exposições. Todavia, a lotação atípica do Masp não pode servir de subterfúgio para evitarmos um olhar atento diante das fotografias clicadas pelo artista — tal qual Hughes fez com os rabiscos do fenômeno Basquiat.
Deparar-se com uma obra isolada de Vik é sempre uma surpresa. Entretanto, a exposição no Masp reúne 120 trabalhos de uma carreira que começou nos anos 80 e continua até hoje. Tamanha abrangência desnuda a ressalva que permeia sua arte. Há 15 anos, Vik teve a ideia de reproduzir imagens emblemáticas da cultura ocidental com materiais peculiares. Suas fotografias da Mona Lisa recriada com pasta de amendoim ou da atriz Elizabeth Taylor feita de diamantes são frutos de um único estalo criativo — que resultou num método interessante, mas tão severamente repetido que acabou escravizando o artista.
A arte brasileira é perita em viver na margem. Dificilmente compreendida pelo público, ela recebeu a alcunha de "a forma difícil" num livro homônimo do crítico Rodrigo Naves. Vik peita esse conceito, apoiado pela multidão que lota suas exposições. Resta perguntar se a insistência na "nova" forma não se converteu apenas em simplificação.
A EXPOSIÇÃO
Vik. Masp — Museu de Arte de São Paulo (avenida Paulista, 1.578, São Paulo, SP, 0++/11/3251-5644). Até 12/7. De 3ª a dom., das 11h às 18h; 3ª, até 20h. R$ 15.