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'''O Dia Mastroianni' é melhor do que 'Toda terça'? Não, não é. É que eu estive com o João Paulo Cuenca, no começo do ano, e a gente deu umas voltas e batemos uns papos e ficamos amigos e tal'', escreveu Sérgio Sant'Anna na página da Copa Literária
'''O Dia Mastroianni' é melhor do que 'Toda terça'? Não, não é. É que eu estive com o João Paulo Cuenca, no começo do ano, e a gente deu umas voltas e batemos uns papos e ficamos amigos e tal'', escreveu Sérgio Sant'Anna na página da Copa Literária

 

Novembro/2008 | Assunto do dia

Dá para julgar literatura como se fosse futebol?

No jogo em que apitou na 2ª edição do evento, o escritor-juiz André Sant’Anna escolheu “O Dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca, que competia com “Toda Terça”, de Carola Saavedra. André disse que os dois livros são excelentes, mas escolheu o de Cuenca porque o considera seu amigo

Por Paulo Roberto Pires

A Copa de Literatura Brasileira é, já pelo seu nome, uma brincadeira divertidíssima. Põe livros para brigar dois a dois e, através da decisão de juízes, os títulos passam por eliminatórias até sagrar-se um campeão. Mas este ano a CLB deu chabu. E dos bons. Numa das mais divertidas polêmicas literárias que já vi nos últimos tempos.

O juiz André Sant'Anna, escritor, chutou o pau da barraca e, entre Toda Terça, de Carola Saavedra, e O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, jogo que deveria abitrar, escolheu o segundo. Ele diz que Carola é melhor mas fica com Cuenca porque se considera seu amigo. Reclama da avareza dos críticos em elogios. E impossibilita qualquer discussão e critérios razoáveis ao decidir assim o jogo: "Mas alguém pode insistir e dizer que estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Sim, eu estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Eu acho muito bom ficar bem com todo mundo".

(Parêntese necessário: sou editor de O dia Mastroianni, não li o livro de Carola, não sou amigo de André Sant'Anna. Pouco se me dá quem ganha ou perde a Copa. Mas muito me interessa que este jogo criado por Lucas Murtinho exista. E continue a existir).

Na hora em que digito este post, são exatos 213 comentários no site da Copa. Há baixaria, teoria da literatura diluída, maledicência velada, referências cultas, ofensa aberta, indignação, iconoclastia, revolta, discurseira, bons modos até. Dá um trabalhão danado ler tudo. Mas é o retrato mais realista desde que, a partir do final da década passada, começou a se desenhar no horizonte uma cena literária menos anêmica do que a das décadas anteriores. Uma cena que, antes de virar editor, acompanhei empenhadamente escrevendo sobre ela no site No.com, na revista Época, no Idéias e, finalmente, no falecido NoMínimo. Por tudo isso, não vou me abster agora.

O fiel desta balança doidona é a seriedade, que na maioria dos casos é confundida com bons modos, sisudez e declarações de critérios tidos como razoáveis para a avaliação da literatura. Pois a gente não deve esquecer que a própria idéia da Copa é uma bem humoradíssima forma de ver a vida literária: um jogo em que escritores e livros são times, críticos são juízes e os comentaristas uma barulhenta arquibancada. Mais do que uma gracinha, o Lucas fez uma intervenção primorosa no debate literário, que hoje acontece para valer na internet mesmo e, ainda bem, ao sabor de algumas paixões - mesmo as de motivação mais duvidosa.

Pois estava todo mundo brincando de Copa da Literatura, numa boa. Aí vem um garoto vestido de juiz que, por algum motivo, deu um bico na bola. Mas não para acabar como o jogo, pois ele mirou direitinho em seus pares, os juízes. Acertou na platéia que, ao que parece, estava brincando de brincar - no fundo, levava tudo a sério demais da conta. E vem a divertidíssima indignação, que busca, no fundo, respostas decisivas a perguntas graves: o que é crítica? o que é resenha? o que pode? o que não pode? o que é humor? o que é literatura?

O André, auto-arremedo de homem cordial, é xingado de tudo. Mas só é xingado de tudo porque seu chute foi certeiro, não em uma suposta denúncia de critérios subjetivos (alguém ainda acredita em critérios objetivos?) mas ao expor a malha humana, demasiadamente humana até, que faz o cimento do mundo literário.

Eu sempre me repito, mas não resisto: leiam Brito Broca, A vida literária no Brasil 1900 e façam as analogias. Está todo mundo lá, o roteiro certinho, se repetindo. Os escritores alpinistas, o crítico "justo", o denunciador de compadrios, os compadrios em si, as ofensas pessoais, as injustiças, o jogo roubado, o prêmio surrupiado, o favorecimento. Quanto mais muda, mais igual fica.

E isso é menos importante do que a crítica? Claro que não. O que está "na margem" dos livros é parte dos livros também e, na perspectiva do tempo, sempre será parte destes livros. Mas a tendência é que, quando se está dentro do jogo, procure-se fazer as distinções de segurança. Para dignificar escrita e comentário e apequenar gozações e provocações (como a do André), valorizar a "justiça" diante da "injustiça", a maturidade diante da iconoclastia - ia escrever porra-louquice, mas a torcida da Copa, ao contrario da do futebol, não gosta da palavrão e condena muito quem os usa.

Mas hoje não consigo ler João do Rio sem lembrar de sua patética luta pela Academia Brasileira de Letras (sendo enxovalhado por ser homossexual), não consigo admirar Antonio Candido como admiro sem lembrar que ele já foi chamado de "chato-boy" por Oswald de Andrade, não consigo pensar em Guimarães Rosa sem a derrota de Sagarana num júri que contava com Graciliano Ramos, ler Ana Cristina Cesar ou Cacaso sem associá-los aos ataques pós-pós-doutos que sofreram.

Mas até aqui são 810 palavras para conseguir o que Chico Alvim resolveu num poema de uma linha - duas com o título:


Luta Literária

Eu é que presto

E ainda vem final por aí...

 

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