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O cineasta israelense Avi Mograbi refletido sobre a imagem do casal de jovens que tiveram suas feições alteradas digitalmente, a fim de proteger suas identidades
O cineasta israelense Avi Mograbi refletido sobre a imagem do casal de jovens que tiveram suas feições alteradas digitalmente, a fim de proteger suas identidades

 

Abril/2009 | Assunto do dia

O cinema tem o poder de promover a paz?

Para Avi Mograbi, que exibe no É Tudo Verdade nesta terça e sábado em Brasília o filme Z32, o cineasta é muitas vezes um ativista, mas a capacidade de transformação social de suas obras é questionável. Seu filme conta a história de um soldado israelense que admite ter sentido prazer em assassinar um palestino numa operação de represália.

Laila Abou Mahmoud

Avi Mograbi, o homenageado esse ano do 14º É Tudo Verdade, é um dos mais respeitados cineastas israelenses no gênero documentário político. Junto a uma retrospectiva de sua obra acontecida em São Paulo, ele exibe essa semana em Brasília sua mais nova produção, Z32 (veja abaixo os locais e horários).

 

Z32 é o código de identificação de um soldado do exército israelense que rememora sua participação numa operação de represália, na qual foi decidido que inocentes seriam mortos. Em seu relato, ele admite ter tido prazer ao ter matado um policial palestino.

 

Com alguma similaridade com Valsa com Bashir, do também israelense Ariel Folman, o documentário de Mograbi se vale de efeitos digitais para resguardar a identidade do soldado, um jovem que relata repetidamente o evento à namorada, inconformada com seus atos. Em vez de trazer à tona memórias, como no filme indicado ao Oscar em cartaz em São Paulo, Z32 busca trazer à superfície o perdão - nem sempre alcançável - e o questionamento da responsabilidade da sociedade isralense nas ações militares de seu país, segundo o cineasta.

 

Além da animação, há outros recursos que caracterizam o filme, dessa vez típicos do teatro épico. Eles conferem ao filme a singularidade de uma obra que paira entre o documentário e uma nova linguagem digna da originalidade da abordagem do tema por Mograbi. O cineasta aparece logo nos primeiros momentos diante da câmera com o intuito de conversar com o espectador e explicar o método de construção do filme. Também, acompanhado de músicos, canta canções em tom irônico sobre o destino dos personagens. Dessa forma, se posiciona não só como um narrador crítico mas também como um cineasta em busca de um espectador igualmente em busca do autoquestionamento.

 

" Uma das idéias era fazer um mero filme de entrevistas. Outra, era pegar o texto do relato do ex-soldado e transformar no libreto de uma ópera. De alguma maneira ele é um personagem trágico que cometeu um crime terrível, percebeu depois e está muito triste e procurando por um perdão que não pode ser encontrado. Isso soa como um bom personagem para uma tragédia", disse, em entrevista à BRAVO!.

 

Na entrevista, o cineasta revela sua opinião sobre a produção cinematográfica de seu país e sobre a capacidade de transformação da realidade pelo cinema. "É bom para o cinema pensar assim, é uma fantasia bonita. Mas a vida é muito mais complicada que isso", diz o cineasta cujo filho já foi preso por se recusar a lutar no exército israelense. E que poderia, em vez disso, estar no lugar de Z32 ou de qualquer outro jovem soldado do mundo.

 

Como o senhor descobriu o personagem Z32?

Eu descobri porque eu faço um trabalho voluntário com um grupo de ex-soldados chamado "Quebrando o Silêncio" (Shovrim Shtika, em hebraico), que coletam testemunhos de colegas sobre seu serviço nos territórios ocupados. Meu trabalho é ouvir os relatos, arquivá-los e fazer resumos do que os soldados falam. Eu ouvi dezenas de testemunhos até que encontrei um muito interessante e decidi fazer o filme.

 

Por que o achou interessante?

Porque é um testemunho sobre uma operação de vingança. Você não pensa que Estados normais, Estados democráticos façam isso. Esse é um método de organizações criminosas, organizações terroristas, não de Estados normais. Isso foi o que primeiro me atraiu na história. Outra coisa é que o garoto fala o quanto ele gostou, teve prazer em participar da operação. Ele não disse que gostou de matar, mas que gostou de colocar em prática tudo aquilo para o qual foi treinado. Normalmente você pensa que quando alguém vai lhe contar uma história sobre algo do qual ele não é tão orgulhoso ou tem remorso, algo pelo qual ele está procurando ser perdoado, não vai dizer que sentiu prazer, mas vai tentar apagar a si mesmo do evento. E isso foi muito interessante para mim: ele não se ausenta do evento e admite ter se divertido. Na verdade, eu não pensei que devesse fazer esse filme. Eu achei que era uma boa história para um filme, mas não que ele devesse ser feito por mim.

 

Por que você mudou de idéia? Como foi a concepção da estrutura do filme?

A idéia não foi minha. Ele é muito diferente do meu trabalho habitual, eu não faço entrevistas nos meus filmes. Claro, se você quer fazer um filme sobre a história, você deve fazer uma entrevista. Um dos pilares básicos para uma história é contar o que aconteceu. Mas a maneira como eu faço filmes, na maioria das vezes, se aproxima de um método subjetivo. Eu não faço entrevistas porque eu não estou interessado em ouvir gente contar as memórias do que aconteceu. Eu quero ver e filmar, com a minha câmera, o que está acontecendo neste momento. Isso é o que interessa. Claro que nesse filme eu faço entrevistas. Porque essa história é mais forte que meu método de trabalho.

 

O senhor acredita que um cineasta pode ser um ativista, segurando uma câmera em vez de uma arma?

Talvez isso seja algo que, quando você vê minha produção, filmes como "Vingue tudo mas deixe um de meus olhos", (Avenge but one of my two eyes, exibido na retrospectiva do É Tudo Verdade em São Paulo - confira aqui a programação de Brasília), talvez ajudaram a criar uma visão do cineasta como um militante, com a câmera digital sendo sua arma, correndo pelas colinas dos territórios ocupados, fiscalizando a polícia e registrando os momentos em que ela atira. Tudo isso claro acontece, mas não acho que seja a realidade de fato. Em Israel a realidade é que os ativistas judeus têm a possibilidade de facilmente viajar e ir a lugares onde palestinos não podem ir. Eles têm um acesso ao exército israelense e podem se permitir a discutir coisas com o exército que ninguém mais pode. Isso faz pensar que eles têm poder. Mas o único poder que eles têm talvez seja gritar. Sua influência é pequena. Então, o cineasta muitas vezes é um ativista. E você pensaria que sim, com essa energia, essa disposição, algumas mudanças aconteceriam. É bom para o cinema pensar assim, é uma fantasia bonita. Mas a vida é muito mais complicada que isso.

 

O senhor acha que filmes são capazes de promover a paz?

Sou muito desiludido quanto ao poder do cinema em ser um condutor da mudança social. Acho que a mudança social acontece em outros lugares e, algumas vezes, o cinema está lá para colher os frutos. Mas não acho que é o cinema que cria a mudança social ou a atmosfera para a mudança social. O que temos em Israel são muito poucos documentários que criticam a situação sócio-política, mas em termos de influência para uma mudança social eles são insignificantes.

 

Como você vê a produção de cinema israelense hoje? Você acha que a nova geração em Israel tem um ponto de vista diferente sobre o militarismo, com uma visão anti-militar? Porque existem hoje algumas organizações, como os Shiministim, cujos membros se recusam participar do exército.

Não são muitos os filmes em Israel que lidam com a realidade sócio-política do país. E definitivamente eles não representam a grande maioria da sociedade israelense. O número de pessoas que participam do movimento Shiministim - e meu próprio filho é parte desse grupo -, que recusam a servir o exército e vão para a cadeia por isso, é ainda muito pequeno. Não é nem meio por cento da população. O fato de você conhecer o que os Shiministim são significa que o mundo está sedento por ouvir novas vozes de Israel, mas esse grupo é totalmente insignificante com relação ao restante do país. A população jovem de Israel não é radical ou anti-militar. É verdade que 30% da população israelense não serve o exército, mas 70% ainda serve. Quando a guerra em Gaza começou, muito poucos foram os que disseram que não iriam participar.

 

Mas boa parcela das produções que chegam ao nosso país, sobretudo em festivais, questionam essa realidade. Valsa com Bashir é o mais recente deles, e assim como o do senhor, fala da memória de um soldado. O senhor vê alguma similaridade com seu filme?

Com certeza, meu filme em parte lida com assuntos similares. Ambos são testemunhos de soldados de guerra sobre sua própria participação em crimes de guerra. Claro que Valsa com Bashir fala de um episódio que aconteceu há 25 anos atrás, no começo dos anos 80, e meu filme fala de uma situação contemporânea, que aconteceu em 2002. Mas, basicamente, Valsa com Bashir lida com a memória, o trauma e como o soldado está tentando reavivar sua própria memória sobre onde ele esteve e o que ele fez. Já o meu filme fala de como nós, sociedade civil, lidamos com essas histórias, o que é omitido e o que é exposto para nós. O que nós, sociedade civil, que entendemos as coisas problemáticas que os soldados fazem, soldados que são as crianças que nós criamos e mandamos para o exército, fazemos. O que nós entendemos? Nós estamos engajados em crimes de guerra? É algo que meu filme pergunta sobre os eventos preocupantes mostrados em Valsa com Bashir. Questões que já existiam na primeira Guerra do Líbano e sobre as quais a sociedade israelense nunca se preocupou.

 

Mas seu personagem tem um trauma também. Ele tem dificuldade em falar o que aconteceu com sua namorada em alguns momentos.

Meu personagem está em uma situação pós-traumática e é obrigado a falar. Ele repete a história todo o tempo a quem estiver disposto a ouvir. E claro que o assassinato criou uma vítima, que foi o policial palestino que foi morto no evento, mas criou outra vítima, que é o soldado que foi treinado para matar sem pensar, sem ter dúvidas e que, depois, fica traumatizado quando percebe o que fez. Eu não estou dizendo que o soldado é mais vítima que o policial palestino. É claro que as maiores vítimas são os palestinos mortos. Mas os soldados, todos, não só os israelenses, os que vão para o exército e têm sua humanidade destruída pelo treinamento, pela metodologia militar, são conseqüentemente vítimas do treinamento militar, da opressão militar.

 

Por que o senhor decidiu aceitar as condições de colocar as máscaras nos personagens? O senhor não ficou preocupado em parecer, de certa forma, complacente com as razões dos soldados?

Eu aceitei porque, se eu quisesse fazer o filme, simplesmente teria que aceitar. Isso é óbvio, de outra forma eu não teria filme. A outra questão é: porque eu insisti em fazer esse filme? Ele é importante? Você colabora com ele ao esconder sua identidade. Talvez a melhor coisa a fazer era não ocultar sua identidade, era expô-lo. São questões que estão dentro do filme, com as quais o filme lida. É por isso que eu digo que o filme não é sobre implicações morais históricas. O filme é sobre o que nós fazemos quando nós somos expostos a essa história e nos encontramos socialmente dando abrigo a essa pessoa. Porque a sociedade israelense coloca essa pessoa à prova. E eles são nossos filhos. Você consegue entender psicologicamente, como seus pais conseguem entender essa coisa terrível. Mas eles acham muito duro lidar com isso. O que eles poderiam fazer? Chamar a corte internacional e denunciar seus filhos por crimes de guerra? Toda a sociedade está engajada nesses crimes, não é só uma pessoa. Toda a sociedade tem filhos que vão ao exército e cometem esses crimes.

 

O senhor considera os soldados vítimas, mas também assassinos?

Claro que eles têm responsabilidade. Eles são seres humanos e têm habilidade para pensar sobre o que eles estão fazendo e o que não vão fazer. Mas você pode entender que há pessoas que estão numa situação sem recursos emocionais e psicológicos para dizer não. E há muitas situações dessas na história mundial. Estou certa que se discutíssemos sobre os que estavam ao lado da ditadura no Brasil encontraríamos pessoas que não são monstros, mas que foram educadas e treinadas para cometer terríveis atrocidades com seus colegas. E que não tinham recursos emocionais para resistir, se oporem e não fazerem o que fizeram. Você encontraria uma variedade muito grande de pessoas. Eu acredito que o ser humano é basicamente bom e que sua formação, sua história e sua personalidade, tudo isso junto, trazem uma postura. Há determinadas situações que necessitam de uma decisão ética e, em alguns momentos fazemos a escolha certa e às vezes, fazemos escolhas muito erradas. E, posteriormente, percebemos o que fizemos e sofremos as conseqüências. Por vezes, as piores conseqüências.

 

 

Z32

Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília, DF

SCES, Trecho 02, conjunto 22

0/xx/61/ 3310-7078

15/4, quarta-feira, 14h30

18/4, sábado, 18h30

 

 

 

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