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Abril/2009 | Assunto do dia

O filme de José Padilha superdimensiona o problema da fome?

O diretor de Tropa de Elite acaba de lançar no festival É Tudo Verdade seu mais recente documentário, Garapa, que aborda a fome crônica. O filme acompanha a rotina de três famílias do Ceará que estão, segundo conceito da ONU, em situação de insegurança alimentar grave ou, nas palavras de Padilha, fome crônica.

Por Gabriela Rassy

O tema já é polêmico por si só, mas o jornalista Ali Kamel esquentou ainda mais. Em artigo publicado em O Globo Online, ele contesta Garapa e Padilha em referência ao programa do governo Bolsa Família. Segundo Kamel, essa não é a solução do problema da fome, pois "a enorme abrangência do programa pode ser contraproducente". Outra crítica do jornalista se refere à pesquisa do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) feita entre beneficiados do Bolsa Família para verificar a segurança alimentar. Para ele, a pesquisa é falha e não detalha com precisão o problema.
 
Confira a seguir a íntegra da entrevista com o cineasta:
 
Como foi sua volta ao documentário depois do grande êxito de Tropa de Elite? Por que você voltou ao gênero?
Na verdade eu não voltei porque nunca saí. Filmei o Garapa e o Tropa de Elite juntos, e enquanto filmava os dois eu ainda estava com um outro documentário sobre antropologia, o Povos Selvagens (o filme trata da exploração dos índios Yanomami por antropólogos americanos e franceses), que está hoje na ilha de montagem.
 
A produção do Garapa foi atrasada pelo sucesso do Tropa de Elite?
O problema do filme de ficção é que não dá para filmar em etapas, como o documentário. A filmagem do Tropa de Elite, que foi bastante atribulada (com seqüestro de equipe, roubo de armas) consumiu meu tempo de uma maneira que não imaginava que fosse consumir e atrasou todos os filmes que eu estava fazendo concomitantemente. O financiamento do Tropa de Elite determinou isso porque, como eu fiz com dinheiro de fora, tinha risco de investidor, prazo para cumprir... quer dizer, não dava para parar.
 
E quando o Povos Selvagens fica pronto?
Em julho ou agosto. Aí começa a ir para os festivais.
 
Você começou com Ônibus 174, um retrato da violência urbana no Rio de Janeiro. Tropa de Elite, dentro do campo da ficção, também trata da violência, a violência da polícia. Você volta agora com Garapa a tratar de uma mazela social, o problema da fome. Em um artigo publicado em um jornal carioca (O Globo), o diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo de Televisão, Ali Kamel (leia aqui o artigo), contesta o seu filme. Como você analisa mais essa polêmica criada por um filme seu?
A fome é um problema social seríssimo. O Garapa lida com um problema que é muito maior que os problemas que eu lido no Ônibus 174, no Tropa de Elite. Não estou falando que o problema da violência seja pequeno, é enorme. Mas Garapa lida com a fome crônica, algo que existe em todos os países. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), são mais de 910 milhões de pessoas no mundo passando fome. Para ser bem preciso, sofrendo de insegurança alimentar grave, que é um conceito da ONU.
Agora, a forma pela qual o Estado lida com os pequenos criminosos, os meninos de rua também é um problema social grave. A forma que a polícia trata os policiais, o mau salário, o alto risco a periculosidade, o treinamento que torna o policial uma pessoa violenta também são problemas sociais. Todos esses filmes lidam com problemas sociais, então não têm uma descontinuidade temática. O que o Garapa faz - e os outros não fazem -  é lidar com um problema mais universal.
O Ali Kamel não tinha visto o meu filme quando fez o artigo, então o Garapa era um mote. O artigo era essencialmente sobre uma pesquisa do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), sobre os números da desnutrição dentro do universo do Fome Zero. O Ibase tinha mensurado que 11 milhões de brasileiros ainda estavam na categoria de insegurança alimentar grave, que para o Ibase, para mim e para quase todos os países do mundo significa passar fome crônica. O que o Ali Kamel contesta é que o conceito de insegurança alimentar grave não é uma boa medida para a desnutrição e para a fome crônica. O artigo não era sobre o meu filme, era sobre a pesquisa. Eu respondi (no jornal A Folha de S.Paulo - leia aqui o artigo)  com o Francisco Menezes e ficou esse debate. Mas eu não acho que o Ali Kamel seja mal- intencionado, a gente só discorda. Ele propõe uma realocação dos recursos do Fome Zero e do Bolsa Família para a educação. O que falta dizer é que problema de educação é esse, porque o Bolsa Família (leia a opinião do cineasta sobre o programa do governo Lula) é um programa muito fácil de operar: você transfere o dinheiro para a família e ela compra comida ou o que ela quiser, mas prioritariamente, pelo que eu vi, comida. O problema de educação é muito complexo e o governo brasileiro não tem se demonstrado muito eficiente nos seus programas educacionais, então o Ali Kamel precisa detalhar que programa educacional é esse, quem vai operar esse programa, como funciona, porque vai abarcar um universo grande. Por que não a verba de publicidade do governo, ou parte dela, que é 10% do Bolsa Família, ou outras verbas? Então eu não entendi bem a posição dele, mas foi um artigo respeitoso.
 
Por que você optou pelo preto e branco e pela forte granulação em seu filme?
Eu não optei pela imagem granulada, foram as condições de luz que optaram por ela. Mas as pessoas imaginam erradamente que o diretor de cinema tem uma opção, que ele pode captar as coisas de maneira completamente fidedigna ou não. Quis fazer um filme em que o espectador sentasse na sala de cinema e logo de cara visse que era um filme sobre a falta. Ausência de comida, de roupa. Aqueles personagens têm uma grande sensação de falta. Eu optei esteticamente por retirar coisas que o público está acostumando a ver no cinema. Então, não tem dolby surround, o som é mono; não tem fusão, é tudo corte seco; não tem música nenhuma; o filme é quase todo com lente fixa e não tem cor. Poderia fazer um filme a cores e ser completamente fora da realidade, e alguém talvez não falasse nada. Também, essa ideia de que a arte representa bem quando é fidedigna é muito inocente. Acho que o problema da arte não é o problema da representação fidedigna. É o problema da expressão e eu fiz a opção estética que achei que exprimia melhor o que eu vi. 
 
Você está com outro filme no gatilho, "Nunca antes na história deste país".
É um filme sobre o processo eleitoral no Brasil, financiamento dos partidos. É sobre corrupção. Como é o processo eleitoral, fala um pouco também sobre essa transferência de renda dos pobres pros ricos e depois como essa renda entra no mundo político. O antropólogo Luiz Eduardo Soares é o autor do roteiro. É muito bom e eu estou animado para fazer.
 
Como você enxerga essa questão que parece ter tomado conta do cinema autoral hoje, no qual a realidade e a ficção estão tão imbrincadas? Pergunto isso porque foi a partir de "Ônibus 174" que o Bruno Barreto resolveu filmar a história do Sandro. E foi a partir de "Notícias de uma Guerra Particular" que você fez o "Tropa de Elite".
Eu só fiz um filme de ficção e um número razoável de documentários (foram seis ao todo), então me sinto mais à vontade para falar de documentário. O cinema de documentário sempre teve uma tradição de engajamento social.  A ficção pode ser a representação de um aspecto da realidade, o Tropa de Elite é assim, como Cidade de Deus e Carandiru. E não só no cinema brasileiro, tem o Platoon (filme de 1986 com Charlie Sheen, no qual interpreta um recruta voluntário do Vietnã que perde a inocência ao adentrar o universo da guerra), por exemplo. É uma coisa muito comum no cinema. Eu me interesso por esse tipo de filme, não me interesso por fazer filmes totalmente deslocados da realidade. Não faria Star Wars! Não existe o Luck Skywalker, ai já me atrapalho (risos).


Assim como "Tropa de Elite", "E Se eu Fosse Você 2" (dirigido por Daniel Filho e recordista de bilheteria da chamada era da retomada com 5.324.387 milhões de espectadores)  é um sucesso. Você é a favor de filmes populares?
 Não acho que um filme comercial e um filme engajado socialmente sejam coisa excludentes. Dá para fazer as duas coisas e eu tento fazer isso o máximo que posso. Às vezes não dá. Nunca imaginei que Tropa de Elite fosse ser um sucesso comercial. Fiz o melhor filme que eu podia fazer. As músicas que usei foram as músicas que os policiais ouviam na época. Filmei com a câmera na mão, porque eu gosto. Narrei do ponto de vista do policial violento, assim como eu narrei Ônibus 174 do ponto de vista do menino de rua que se comportou de maneira estupidamente violenta dentro de um ônibus. Eu gosto de narrar todos os meus filmes do ponto de vista da pessoa que está dentro da história.
 
Com a Lei do Audiovisual, a Ancine procurou levantar a indústria do Audiovisual. O que falta para isso acontecer?
O cinema no mundo inteiro é subvencionado estatalmente - a não ser pelos Estados Unidos e pela Índia, mas mesmo assim vai começar a ter subvenção nos EUA. Então, o cinema funciona em algumas economias que têm certo porte para fazer cinema. Mas acho que há um erro aí na estruturação comercial do cinema brasileiro. As distribuidoras operam no Brasil no mesmo molde que operam no mercado americano e esse formato é antieconômico, ele não funciona no ambiente brasileiro. As distribuidoras nos Estados Unidos entram com o dinheiro inteiro do filme, que podem às vezes custar US$ 70, US$ 80 milhões, e negociam seus contatos com as produtoras com base nessa realidade. No Brasil, as produtoras colocam uma fração do dinheiro do filme para lançar, em comparação ao orçamento do filme. E, no entanto, a posição comercial é a mesma que têm nos EUA. Está errado. A gente não podia fazer cinema adotando os modelos contratuais americanos no ambiente do Brasil onde a correlação de forças é totalmente diferente. Eu e meu sócio achamos um modelo diferente e vamos lançar dois ou três filmes para ver como vai funcionar.
 
E como é esse modelo?
É mudar um pouco a correlação de forças entre distribuidor e produtor. Quero ter uma experiência prática pra depois listar e explicar como funciona. Eu acho que tem uma maneira de viabilizar o cinema brasileiro economicamente. Eu era cético com relação a isso, mas acho que é possível, pelo menos para uma certa categoria de filmes. 

 

17/11/2009

cora corinta macedo de oliveira - diz: Me bata uma “GARAPA”!. A fome brasileira atualizada no cinema. Me bata uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata; como de sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um dito baiano que “... exprime um sentimento de um momento raivoso do tipo não me enrole, ou...”. No lugar comum desta expressão tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação cinematográfica do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA. Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos chegou como remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente no uso de terras brasileiras. Roubados e largados à própria sorte como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações indígenas e quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que (a despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a fome) parecia estar em plena forma de vitalidade física – subindo e descendo os muros do casebre. Outro sentimento foi à satisfação de pensar que a GARAPA, largamente batida pelos protagonistas do documentário pudesse significar uma desdita a soberba do diretor quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu estomago. O Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da descoberta da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma leitura critica da produção acadêmica à fome castreana? Como ele descobriu a fome? como a inventou desde 1930?


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03/08/2009

Carlos Theobaldo - diz: A ESTÉTICA DA FOME? A fome é um problema social grave, em que vozes se levantam para clamar o radicalismo. Parece que radical é a fome. Críticas de estudos a parte observamos que muito mudou, os tempos, os costumes, mas ainda existe um grande número de dependentes de auxílio ora do estado, ora de outros meios como a caridade para sobreviver. As condições mínimas para se viver com dignidade é uma realidade ainda distante para muitos, não tão pequeno número da população. Doloroso saber que no século XXI enfrentamos um antigo problema que não parece ter fim, assim como um dia teremos de enfrentar a escassez de água...Todo alerta se faz necessário. Todo sonho de um vida livre de medos e inseguranças deve ser sonhado. E todo mundo tem direito a ter sua vida. Com dignidade. Contudo...


14/07/2009

Aline - diz: Não acho que o filme superdimensione o problema da fome, ele apenas mostra um fato que muitas pessoas fazem questão de não enxergar. O Bolsa Família pode não ser a melhor solução, mas pelo menos representa uma tentativa de melhora, mesmo que muitas vezes esse programa tenha mais objetivos eleitoreiros do que propriamente de ajudar a população. Acho totalmente válida a tentativa de passar para a tela cenas da realidade, já que a indústria cinematográfica está tão inundada de ficções sensacionalistas.


11/06/2009

Rodney - diz: para o escritor padilha. tenho um roteiro escrito, o filme tem o seu perfil, mas gostaria d obter seu e-mail pra enviar o conteudo e quem sabe o aprove. Vale a pena ver. Ou entao como faço para ve-lo.


22/05/2009

Roberto - diz: A todos nos interessa que podemos ter a oportunidade de ver, através da tela grande, um pouco mais da realidade de nosso país, realidade que às vezes nos choca ou nao queremos ver. Parabéns por tudo que você faz Padilha. Mas, e aqui fora, no exterior? Isso tudo SEMPRE, infelizmente, é mais um ponto negagivo para o Brasil e vejo cada vez mais as pessoas dizerem: tenho vontade de conhecer o Brasil, mas tenho medo.


13/04/2009

Luise Diamare - diz: Considero muito oportuna a preocupação de cineastas como José Padilha em tratar os temas realísticos da forma óbvia: REALISTICAMENTE. Não adianta dourar a pílula com "ficção sobre a realidade". Fica ridículo, porque na maioria das vezes o olhar do diretor ou do iluminador, ou do próprio intérprete está a anos-luz daquele que vive o problema. É doloroso, é mortificante encarar a realidade. Mas é preciso, principalmente num país em que tudo é escamoteado ou maquiado. Parabéns a José Padilha.


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