Revista BRAVO!
A nossa casa é a Caixa. Você pode ouvir os vizinhos sussurrando. A nossa casa é uma coisa que os deixa incomodados. Não se pode ter uma vida normal dentro dessa casa, é o que eles pensam. Não sabem quase nada e ficam tentando adivinhar, isso lhes dá diversão à beça. Dona Yeda, por exemplo, com seus vestidos floreados como toalhas de mesa. Sua pele enrugada pra burro faz a gente achar que durante toda a vida, a longa vida, ela fez um milhão de caretas que, sem terem para onde ir, ficaram ali pelas dobras. Mas agora Dona Yeda tem sempre a mesma cara, a de câmera de filmar, e nem um carro entrando a toda pela esquina tira alguma parte de sua concentração na Caixa. Anda aqui pela frente indo até o mercado ou à farmácia, e as bolinhas pretas dos olhos parecem decididas a pular o nosso muro e conferir o que é mesmo que se passa aqui dentro. Na certa cachimbos de crack pelo chão.
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Um espaço vazio já estava aberto no meio do verde amontoado. Era de onde um homem dava ordens e indicava direções às retroescavadeiras, e sua barriga gorda e mole aparecia cada vez que levantava o braço. Seis dias sobre sete e era isso o que ele tinha que fazer, derrubar. Passou as costas da mão pela testa e olhou em volta. As meninas se abaixaram ainda mais, uma empurrava a outra por um pedaço maior de moita. O homem limpou a garganta, o som de um animal selvagem que vai atacar. Cuspiu na terra. A terra antes não parecia tão vermelha quanto estava agora. O homem gritava, apontava, cuspia. Uma retroescavadeira estava brigando com uma grande árvore que não podia correr. A máquina ficou mais barulhenta e foi com tudo. Deixou o tronco lascado, e ia então mais uma vez. Cheiro bom. De seiva. De terra mexida. Mais uma vez. Ouviram que se soltava, que perdia, como um rasgo, um som seco, o que faz fogo atiçado. A árvore daí de ponta-cabeça no amarelo da máquina, carregada sem jeito, como princesa levada pelos cabelos.
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Como a casa dos Larsen estava abandonada desde o ano anterior, as folhas secas cobrindo o caminho até a porta, o que Tomás fez foi tirar uma tábua e passar pela janela quebrada, vendo então com raiva ao chegar lá dentro que outros já haviam estado ali, que haviam trazido garrafas e cigarros cujos restos amarelados lembravam confetes num final de festa, que haviam assinado seus nomes nas paredes e desenhado corações, o spray amador levemente escorrido em vermelho. O cheiro de lugar fechado, de coisa molhada e esquecida, bem marcava a tragédia dos Larsen. Tomás colocou a tábua no lugar e acendeu a lanterna. Fez o feixe de luz dançar pelas paredes até que cruzasse com a presença melancólica de uma poltrona rasgada, bem no meio da sala vazia. Não lembrava dela, mas por que os Larsen teriam deixado uma poltrona para trás?, com aquela postura aristocrática e perturbadora de qualquer coisa imitando o século dezenove. Subiu as escadas e, à medida que subia, sentia menos a presença dos invasores e mais a sua própria e também a dos Larsen. Subiu até o sótão e as tábuas rangiam e a janela estava difícil de abrir, mas cedeu num estalar de vencida. A melhor maneira de ver todo o bairro era mesmo a partir do topo do dois-cinco-um, como agora Tomás lembrava de ter feito com Alice tantas vezes e tantos anos antes, e olhando assim reencontrou primeiro as sombras dos jacarandás esticadas na calçada e logo mais a fila de casas adormecidas com seus sacos pretos de lixo à espera. Tomás sentou como sentava nas outras vezes, na beirada da janela e com a boa sensação de ter as pernas no ar. Tudo ainda se parecia. Nos pátios, lá estavam as piscinas, agora sem razão porque as crianças já haviam crescido. Os carros diminuíram de tamanho com os anos, mas os telhados ainda eram pontudos e com chaminés, mesmo que nunca fizesse tanto frio. Como em desenhos infantis.