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Em Gomorra, Marco (Marco Macor) e Ciro (Ciro Petrano) são dois jovens da periferia de Nápoles que agem por contra própria sem permissão dos chefões locais.
Em Gomorra, Marco (Marco Macor) e Ciro (Ciro Petrano) são dois jovens da periferia de Nápoles que agem por contra própria sem permissão dos chefões locais.

 

Revista BRAVO! | Dezembro/2008

A Máfia sem Glamour

Esqueça os gângsteres de terno de ''O Poderoso Chefão''. Em ''Gomorra' o crime organizado é sujo, violento e veste sunga

Por André Nigri

No início dos anos 70, um jovem e pouco conhecido diretor chamado Francis Ford Coppola topou o desafio de reerguer um gênero em decadência havia pelo menos duas décadas em Hollywood: o filme de gângster. Obras como Scarface — A Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks, e Os Assassinos (1946), de Robert Siodmak, fizeram grande sucesso quando lançadas, mas o público parecia cansado e queria novidades. O estúdio Paramount procurava novos talentos e resolveu bancar a idéia de Coppola: verter para as telas o romance O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, que se tornara um best-seller nos Estados Unidos. Em 1972, quando a saga da família Corleone estreou nas telas, não só o gênero saiu do coma como O Poderoso Chefão passou a figurar nas listas das obras-primas do cinema. Em seguida ao sucesso, vários diretores descobriram na máfia um novo filão. Vieram Capone O Gângster (1975), de Steve Carver, Scarface (1983), de Brian De Palma, e, quatro anos depois, Os Intocáveis, do mesmo diretor. Martin Scorsese renovou o gênero contando histórias do baixo clero mafioso em Caminhos Perigosos (1973) e mais tarde faria Os Bons Companheiros (1990). O diretor Sam Mendes foi quem mais diretamente dialogou com a obra de Coppola, quando filmou Estrada para Perdição (2002). Todos esses filmes são filhos do Chefão. Todos os seus diretores, com exceção do inglês Sam Mendes, são americanos. Neste mês, entra em cartaz no Brasil o perturbador e excelente Gomorra, do italiano Matteo Garrone, que, como O Poderoso Chefão, parece destinado a romper ou a renovar o filme de máfia.

Gomorra é uma adaptação do romance homônimo do jornalista napolitano Roberto Saviano, que, publicado há dois anos na Itália, chega ao Brasil com o filme, em lançamento da editora Bertrand Brasil. O livro vendeu 1 milhão de cópias em seu país e já foi traduzido para mais de 40 línguas. Saviano conta em detalhes as entranhas da organização criminosa mais perigosa e carniceira do mundo: a Camorra napolitana, conhecida por assassinar uma pessoa a cada três dias, em média. A publicação custou caro ao autor. Saviano vive em lugar desconhecido, com proteção policial 24 horas por dia. Os chefões do vespeiro em que ele mexeu juraram-no de morte até o Natal. O filme adaptado do livro é um marco no cinema italiano, combalido nos últimos anos com produções medianas e sem fibra. Ganhou o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes e chega como um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Em quase tudo, Gomorra — paronímia entre Camorra e o nome da cidade bíblica destruída pelo fogo dos céus — é o oposto de O Poderoso Chefão. A começar pela glamorização. Coppola recriou a Nova York do imediato pós-guerra como um fino ourives. O filme todo foi rodado em locações artesanalmente construídas, não em cenários. A fotografia de Gordon Willis é meio dourada e com iluminação de cima para baixo. A villa onde a família Corleone e seus aparentados vivem é sofisticada, ligada por alamedas imponentes. Em Gomorra, o cenário, real, é um horrível conjunto habitacional da periferia imunda de Nápoles, um lugar chamado Scampia, ninho da Camorra. A luz é natural. As casas são sujas e com mobília velha. Desde que a Justiça italiana colocou em prática a chamada Operação Mãos Limpas, nos anos 80 e 90, vários chefões da máfia tiveram que abandonar seus palacetes e viver clandestinos em lugares sórdidos. E é nesses cenários sem nenhum glamour que as famílias decidem a vida dos milhares de habitantes e diversos negócios da Camorra.

Os negócios da Camorra também se diferenciam radicalmente dos tocados pelo clã dos Corleone. Em uma famosa cena de O Poderoso Chefão, Don Corleone (Marlon Brando — em papel que lhe valeu o Oscar de melhor ator) diz que sua família não iria entrar nos negócios de entorpecentes. As atividades da família eram o controle dos sindicatos, a corrupção política e o jogo. Em Gomorra, isso parece brincadeira de criança. A máfia napolitana controla o porto de Nápoles, por onde entram e de onde saem mercadorias contrabandeadas, inclusive drogas como cocaína e heroína. Mas não é só. Um dos chefes camorristas é dono de vários aterros clandestinos e ilegais nos arredores de Nápoles. Ele negocia diretamente com indústrias do norte rico da Itália, como Milão, os locais onde o lixo tóxico é depositado por preços muito abaixo do mercado. O resultado, ao longo dos anos, é um índice alarmante de contaminação do solo e um número igualmente elevado de pessoas com câncer.

Se O Poderoso Chefão geralmente é comparado a uma ópera na qual os personagens sofrem com as reviravoltas da vida, Gomorra pode ser visto como um grande afresco. Cinco histórias se sobrepõem no filme de Matteo Garrone e, juntas, formam um painel do mundo do crime em Nápoles. Há o já citado chefe do clã dos aterros de lixo tóxico. Há, também, a história de Pasquale, um talentoso estilista obrigado a costurar vestidos de grife falsificados. Ele é um frustrado, pois seu sustento depende de encomendas da Camorra, à qual ele e todos os personagens do filme estão condenados. Suas roupas acabam sendo vendidas, sem crédito, em sofisticadíssimas lojas européias e são comumente vistas sobre a pele de celebridades do cinema.

Se em O Poderoso Chefão a hierarquia prevalece — cada um sabe seu lugar e o chefe é um só, Don Vito —, em Gomorra impera certa anarquia, bem traduzida na história dos personagens Marco e Ciro. Eles roubam armas de camorristas e acreditam poder sair atirando e matando a esmo. Não é difícil prever o destino dos dois. Um dos focos do filme é mostrar o fascínio exercido pela Camorra sobre os jovens da periferia de Nápoles. Nisso, ele se assemelha mais a Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, mas é muito mais seco e árido. Não há concessões. Todos os habitantes vivem da máfia ou aterrorizados por ela. O Poderoso Chefão é uma obra-prima que marcou época e mudou a história do gênero. Gomorra, um excelente filme, não chega a ser uma obra-prima, mas, como O Poderoso Chefão, atualiza a visão do cinema sobre o mundo do crime organizado. 

Assista a vídeos e compare os climas de Gomorra e O Poderoso Chefão

O filme
Gomorra (2008), de Matteo Garrone. Com Toni Servillo e Gianfelice Imparato. Estréia neste mês. 

Veja também
O Poderoso Chefão (1972). De Francis Ford Coppola. Com Marlon Brando e Al Pacino. Um retrato fantástico da máfia italiana na Nova York do imediato pós-guerra. Disponível em DVD, em cópia restaurada.

 

 

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