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Tony Ramos e Glória Pires em Se Eu Fosse Você 2. A nova comédia brasileira tem vocação politicamente correta
Tony Ramos e Glória Pires em Se Eu Fosse Você 2. A nova comédia brasileira tem vocação politicamente correta

 

Revista BRAVO! | Julho/2009

A Mulher Invisível e a Gargalhada Visível

Os três filmes de maior bilheteria neste ano são comédias. No Brasil, nunca ninguém perdeu dinheiro apostando no riso alheio — e é possível que agora essa tendência se intensifique

Por André Nigri

O ano começou para o cinema brasileiro sob a ameaça de retração, queda de público e receita — e, devido à crise econômica, com expectativas muito baixas mesmo para o mercado de filmes hollywoodianos. Um semestre e três filmes nacionais depois, o que parecia impossível aconteceu. Levando-se em consideração os números comparados dos cinco primeiros meses dos últimos 15 anos, as produções nacionais bateram em 2009 o recorde de público da chamada "era da retomada" — aquela que começa em 1995 com Carlota Joaquina, de Carla Camurati. De acordo com os analistas do mercado, é possível que em 2009 o público total do cinema brasileiro ainda se aproxime do recorde histórico de 2003, quando foi atingido o pico de 20 milhões de espectadores. O ano de 2009 traz outra peculiaridade. Os excelentes números se devem quase que exclusivamente a um único gênero: a comédia. Os três maiores sucessos de bilheteria até agora configuram apostas bem-sucedidas no mercado do riso.

Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, reina soberano em primeiro lugar com mais de 6 milhões de espectadores, recorde absoluto da retomada. Ele é seguido por Divã, de José Alvarenga Jr., protagonizado pela atriz Lília Cabral, que já levou 1,7 milhão de pessoas aos cinemas. Por enquanto, a medalha de bronze — tendendo para prata — está com o filme de Selton Mello, A Mulher Invisível, dirigido por Cláudio Torres, que em apenas três semanas foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. No segundo semestre estreia ainda Os Normais 2, do mesmo José Alvarenga Jr. O primeiro Os Normais, de 2003, teve um público de quase 3 milhões de pessoas. Tudo leva a crer que a continuação com Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres irá superar com folga 1 milhão. Essa cifra é considerada cabalística pelos analistas do cinema brasileiro. É a partir desse número que um filme de médio porte, no Brasil, costuma dar lucro. A produtora Rita Buzzar, de Olga (2004) e Budapeste (2009), disse recentemente que o cinema brasileiro está passando por um momento de reformulação. Afirmou a necessidade de a produção nacional se aproximar do público e segmentar-se em gêneros. Disse também que pensa em produzir uma comédia. Como ensinava o filósofo alemão Theodor Adorno, mercado e arte se retroalimentam. Na indústria cultural, se um gênero começa a fazer muito sucesso, um número cada vez maior de artistas e investidores migra para ele. Se Adorno estiver certo, podemos estar próximos de um novo ciclo da comédia no Brasil.

Sim, porque se pode afirmar que a comédia no país é cíclica. Examinando-se a série histórica, pode-se dizer que ao longo das décadas a comédia sempre foi o gênero preferido dos brasileiros. A começar pelas chanchadas nos anos 40 e 50, que levavam milhões de pessoas aos cinemas para ver seus ídolos, dos mocinhos e mocinhas como Eliana e Anselmo Duarte até os grandes comediantes da época como Oscarito, Grande Otelo e Dercy Gonçalves, entre tantos outros. Como aponta o jornalista Sérgio Augusto em seu clássico estudo sobre o gênero, Este Mundo É um Pandeiro (Companhia das Letras, 1989), a chanchada transpirava brasilidade por todos os poros. Além de fazer crítica dos costumes, ela não poupava políticos e autoridades brasileiros, com muita malícia e esculhambação, a ponto de despertar a ira da censura. Tudo isso entremeado com marchinhas de carnaval. Com o esgotamento da chanchada, a comédia continuou mantendo seu vigor um tom abaixo, com as pornochanchadas das décadas de 1960 e 1970. Elas levavam um público de baixo poder aquisitivo a lotar salas de cinema com ingressos muito baratos. Nesse caso, o apelo, além do humor, estava, claro, na nudez. Não se pode esquecer, durante os anos 70, do fantástico sucesso dos filmes dos Trapalhões, capitaneados por Renato Aragão. Somadas, as dezenas de filmes da trupe dos quatro humoristas batem todos os recordes do cinema brasileiro. Não por acaso, o filme que marca a retomada, Carlota Joaquina, é também uma comédia. Como se vê, há uma continuidade histórica e cultural do gênero no Brasil.

Mas qual é a cara dessa nova comédia cinematográfica, confrontada com o que se produziu no passado? O crítico Ricardo Calil aponta para um traço recorrente: o politicamente correto. Uma das máximas sobre a comédia é que só se pode fazer humor contra, nunca a favor. Nos anos 50, 60 e 70, no entanto, esse humor "do contra" resvalava no racismo e no sexismo. Naquelas décadas, o negro, o gay e a mulher eram objeto de piadas de gosto duvidosíssimo. Basta citar um exemplo, o do humorista Mussum, de Os Trapalhões. Negro, ele vivia se jactando de ser um emérito cachaceiro, numa concessão ao mais grosseiro estereótipo. Sucesso no YouTube, suas performances chegam a chocar no confronto com os padrões de hoje.

Nos filmes atuais, de Daniel Filho e Cláudio Torres, nenhuma das chamadas "minorias" se sente ofendida pelo humor praticado. Em Se Eu Fosse Você, há uma inversão de papéis entre os personagens de Tony Ramos e Glória Pires. Homens fazendo trejeitos femininos sempre provocaram risadas — mas no contexto do filme isso passa longe de uma gozação com o universo homossexual. Da mesma forma, apenas um xiita do politicamente correto poderia enxergar em A Mulher Invisível uma exploração da mulher objeto. Embora Luana Piovani apareça sedutora e em trajes mínimos, sua personagem é uma figura feminina imaginária, uma projeção dos desejos do protagonista. No Brasil, como aponta Ricardo Calil, vivemos um "duopólio": de um lado, filmes de violência (Cidade de Deus, Tropa de Elite, Carandiru, entre outros), do outro, as comédias. Se até recentemente quem ditava a tendência eram os primeiros, sem dúvida alguma é a hora e a vez das segundas.

 

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