
Revista BRAVO! | Julho/2009
Por Sheyla Miranda
"Este foi um ano inacreditável para Vera em Cannes", diz o crítico francês Bernard Payen sobre a participação da cineasta paulistana Vera Egito na 62ª edição do mais importante festival cinematográfico europeu, ocorrido em maio. Coordenador da comissão de curtas-metragens da Semana da Crítica, mostra paralela à premiação oficial do balneário francês, Payen foi o principal responsável pela inclusão dos dois curtas de Vera. Elo, seu segundo filme, abriu a mostra, enquanto o desfecho ficou por conta de Espalhadas pelo Ar, projeto apresentado como trabalho de conclusão do curso de audiovisual na Universidade de São Paulo (USP). Com a presença dupla na programação, a diretora de 27 anos bateu um recorde: pela primeira vez desde a criação da Semana da Crítica, em 1961, o público assistiu a duas produções de um mesmo autor.
Vera ingressou na USP em 2003. Pouco antes de saber o resultado do vestibular, aterrissou em Cuba para um curso na prestigiada Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. "Tinha receio de não passar na prova, mas sabia que a universidade não era o único caminho para fazer cinema. "Escolhi a profissão aos 14 anos", explica a fã do cineasta chinês Wong Kar-wai. No curso de audiovisual, ela conheceu Carolina Ziskind, sua parceira no roteiro de Espalhadas pelo Ar, de 2007. Uma das personagens da produção é inspirada em outra amiga, que, na adolescência, costumava fumar só de roupas íntimas para que o cheiro da fumaça não a denunciasse aos pais. Soma-se à narrativa uma mulher de 30 anos, presa a um casamento infeliz — que também tem de fumar escondida. Em dezembro do ano passado, Espalhadas pelo Ar levou o Prêmio Descoberta da Crítica do Festival Internacional das Escolas de Cinema, sediado na cidade francesa de Poitiers. Ficou assim garantida a sua exibição na Semana da Crítica, já que o prêmio implica também uma vaga na mostra. Quando os curadores tiveram acesso a Elo, que acabara de ser finalizado, enxergaram uma conexão temática e estilística entre os dois títulos. "Destacamos os curtas-metragens de Vera por acreditarmos que ela faz um verdadeiro cinema autoral, que filma com sensibilidade momentos decisivos de nossa existência. Ela é também uma ótima diretora de atrizes", diz Payen. A gravidade e a melancolia de Espalhadas pelo Ar são retomadas em Elo, que conta a história da primeira decepção amorosa de uma garota, em 19 de janeiro de 1982, dia em que morreu Elis Regina. A cantora não aparece nem é citada no filme, mas a sensação de perda que tomou a cidade de São Paulo — relatada a Vera por sua mãe — serve de fio condutor à trama. Vera Egito integrou ainda outra mostra paralela de Cannes, a Un Certain Regard (Um Certo Olhar), pela coautoria do roteiro de À Deriva, também de 2008. Dirigido por Heitor Dhalia, o longa concorreu ao prêmio de melhor filme. O trabalho de Vera com o diretor — hoje seu namorado — começou em 2005, quando ela foi sua assistente em O Cheiro do Ralo. Um segundo roteiro assinado pela dupla, Serra Pelada, será produzido pela Celluloid Dreams, uma empresa francesa de cinema que em maio abriu uma filial no Brasil. Na volta de Cannes, Vera recebeu um convite para se juntar à equipe de criação da Paranoid Brasil, produtora internacional de publicidade recém-instalada por aqui. Está determinada a frequentar sets de filmagem, seja dirigindo ficção ou vídeos publicitários: "Filmar é o que eu sei fazer um pouco. E é sobre o que quero saber muito", diz, esbanjando disposição diante das pilhas de DVDs que tomam seu apartamento.