Por André Nigri
Ninguém aguenta mais filmes de favela e violência. O ciclo, no cinema brasileiro, viveu seu auge quando diretores importantes o visitaram - a começar por Fernando Meirelles em Cidade de Deus (2002), seguido, entre outros, de José Padilha (Tropa de Elite, 2007), Bruno Barreto (Última Parada 174, 2008) e Breno Silveira (Era uma Vez..., 2008). Tais filmes, juntos, formaram um subgênero na nossa cinematografia, mas que recentemente tem dado claros sinais de fadiga. Exemplo disso são os números de bilheteria. Os longas de Padilha e Meirelles bateram a marca de 2 milhões e meio de público. Já os filmes de Barreto e Silveira, mais recentes, ficaram na casa de 500 mil.
O diretor Sérgio Rezende, de O Homem da Capa Preta e Antônio Conselheiro, teve a valentia de visitar o gênero mesmo com esse panorama. Salve Geral, seu novo filme (indicado pelo governo para representar o Brasil no Oscar de melhor filme estrangeiro), é uma aposta de risco na medida em que recorre a uma história permeada de violência, a dos ataques de uma organização criminosa durante o mês de maio de 2006, em São Paulo. Em meio a esse cenário está Lúcia (vivida pela ótima Andréa Beltrão), professora de piano em crise financeira. Sem dinheiro, ela se muda com o filho de 18 anos, Rafael, para um bairro distante em São Paulo. O rapaz acaba envolvido em um assassinato em uma uma briga de rua e vai parar atrás das grades - justamente quando a organização criminosa planeja atacar policiais e aterrorizar a cidade.
Lúcia faz de tudo para tirar o filho da cadeia - e é precisamente nesse momento que o filme tropeça. Ela conhece um condenado, o mentor intelectual e chefe do Comando, e se apaixona por ele. Deixa de visitar Rafael várias semanas, e isso é inverossímil porque sua personagem se define, desde as primeiras cenas, como uma mãe obcecada pela libertação do filho.
O filme não desagrada de todo. Tem produção caprichada, cenas de violência bem filmadas, ritmo nervoso e tenso e bons atores, a maior parte estreante no cinema. Sai-se da sala escura, no entanto, com a sensação de que a história não fica de pé por tropeços no roteiro. De dois anos para cá, o cinema brasileiro vinha resolvendo esse problema crônico - nossas produções, desde a retomada, apresentavam excelência técnica, mas frequentemente eram mal escritas e tinham personagens mal desenvolvidos. Os roteiristas brasileiros vêm melhorando consideravelmente, como atestam as narrativas sofisticadas dos recentes Não por Acaso e Saneamento Básico, entre outros. Salve Geral mostra, no entanto, que ainda existe um caminho a percorrer.
20/11/2009
Helen - diz: se esgotou? que saco, a trajédia humana é mais vasta que esse olhar global-tupiniquim...aff!
20/11/2009
Helen - diz: se esgotou? que saco, a trajédia humana é mais vasta que esse olhar global-tupiniquim...aff!
11/11/2009
Elvis - diz: Felizmente, esse tema ainda será abordado por mais algum tempo nos filmes brasileiros. Lembre-se que logo mais estréia o 2 filme da série Tropa de Elite, e pelo que entendi, mais filmes com essa tématica serão rodados nos próximos anos. E na minha opinião, prefiro esses filmes sangrentos e reias, do que alguns filmes dos anos 80, que não tinham nem enredo, nem roteiro adequado...
11/11/2009
Elvis - diz: Felizmente, esse tema ainda será abordado por mais algum tempo nos filmes brasileiros. Lembre-se que logo mais estréia o 2 filme da série Tropa de Elite, e pelo que entendi, mais filmes com essa tématica serão rodados nos próximos anos. E na minha opinião, prefiro esses filmes sangrentos e reias, do que alguns filmes dos anos 80, que não tinham nem enredo, nem roteiro adequado...
01/11/2009
maria mic - diz: Acho estranho que um filme seja considerado fadado ao fracasso em função de sua temática. Repetição temática é o que mais se vê, isso é fato. A questão é que se parece creditar o fracasso de um filme ruim a circunstâncias maiores, o que me soa em alguma medida discurso de uma classe social que realmente se encheu desses filmes porque eles tocam em questões não resolvidas as quais, por sinal, são interessantes enquanto produzem uma estética de afastamento e, quando muito próximas (pensemos por exemplo na quantidade desses filmes) assustam e causam ojeriza. Salve Geral não é bem sucedido justamente porque conta a história, em alguma medida, do ponto de vista dessa camada social e aí a coisa não emplaca, simplesmente porque essa ótica não é interessante para grupo algum. É uma ótica que não quer chegar a lugar algum, por isso essa sensação ser relatada por tantos espectadores do filme.
27/10/2009
Alysson Nogueira - diz: Filmes de violência e favelas no Brasil não se esgotou. Digo com muita certeza porque isso agrada os olhos de uma grande parcela de público que é atraído pelo realismo introduzidos nessas obras. Se o filme "Salve Geral" não mostrar um roteiro emocionante, envolvente e o mais próximo do real possível, ele vai ficar de fora, porque os consumidores desse tipo de mídia já estão acostumados com linguagens de ficção/realismo. Sem contar que os diretores não perdem por fazer um filme em que o seu espectador está dentro da história. Enredos realistas bons são enredos sem histórias de "novelas" como paixão por A, B ou C. O que o povo quer mesmo (infelizmente) é sangue, bombas, tiroteio, perseguições, sexo etc.
21/10/2009
Fabiano Gustavo dos Santos Ozga - diz: Filmes são para sere vistos e analisados com críticas e elogios. Penso que um longa não deve ser considerado como esgotado por um simples suposto tropeço da sequência dos fatos. Quanto a mulher amar e após abandonar o filho, entendo que isso seria uma análise em relação ao Estado (Mãe, que deve proteger) e o cidação (menino, que deve ser amparado) e no final acaba sendo, por vários motivos que estão à tona em nossa sociedade (violência atual nas favelas do Rio de Janeiro é um exemplo que deveria ser sanado, para um País que mostra-se preparado para uma Olimpída), com tantos outros aspectos relacinados entre si à criminalidade e suas consequÊncias. A realidade é real demais para sairmos do conformismo das atitudes de uma sociedade brasileira moderna. Talves o filme seja um exmplo de como caminha a sociedade, nem sempre é como queremos, mas está podemos mudá-la pensando no que aquela nos tenta transmitir.
05/10/2009
Tainá - diz: Este filme é muito incoerente, justamente porque quer afirmar este "cinema de violência" e acaba levando o roteiro a lugar nenhum. Por isso prefiro os filmes que não são propositalmente de gênero. As produções atualmente, para irem às grandes telas, têm de se encaixarem ou no "cinema de violência" ou na comédia romântica... O que é um desperdício de talento e dinheiro.
05/10/2009
Nícholas Sampaio - diz: Concordo com André Nigri e também com a leitora Maria. Vi os três filmes citados pela crítica e eles são muito bons. Em Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite, (2007), Última Parada 174, (2008) e Era uma Vez..., (2008), os diretores conseguiram realizar uma inovação e com isso alcançaram o sucesso da mídia, do público e da crítica. Porém novos filmes que usam a violência como sua linha principal, não conseguiram criar nada de novo, nada de diferente do que já existe no mercado e nisso que fica a pergunta será o fim dos filmes de violência? Creio que não. Fernando Meirelles, José Padilha, Bruno Barreto e Breno Silveira tiveram êxito nas suas inovações por que se atualizaram, viram que a sociedade mudou sua forma de pensar e de agir. O ser humano sendo um animal racional consegue ser criativo quando quer. Não vi “Salve Geral”, mais pelo que eu li, ele estaria sendo acusado por que tentou criar um vínculo afetivo entre o público e os presidiários. Há quem considere o Salve um filme muito liberal e por isso seria ele ruim, porém esquecemos de tropa que foi acusado de fascista entre outras coisas pela mídia e mesmo assim ganhou o Urso de Ouro. Então creio eu que os filmes da linha de violência ainda têm muito caldo para dar.
05/10/2009
Nícholas Sampaio - diz: Concordo com André Nigri e também com a leitora Maria. Vi os três filmes citados pela crítica e eles são muito bons. Em Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite, (2007), Última Parada 174, (2008) e Era uma Vez..., (2008), os diretores conseguiram realizar uma inovação e com isso alcançaram o sucesso da mídia, do público e da crítica. Porém novos filmes que usam a violência como sua linha principal, não conseguiram criar nada de novo, nada de diferente do que já existe no mercado e nisso que fica a pergunta será o fim dos filmes de violência? Creio que não. Fernando Meirelles, José Padilha, Bruno Barreto e Breno Silveira tiveram êxito nas suas inovações por que se atualizaram, viram que a sociedade mudou sua forma de pensar e de agir. O ser humano sendo um animal racional consegue ser criativo quando quer. Não vi “Salve Geral”, mais pelo que eu li, ele estaria sendo acusado por que tentou criar um vínculo afetivo entre o público e os presidiários. Há quem considere o Salve um filme muito liberal e por isso seria ele ruim, porém esquecemos de tropa que foi acusado de fascista entre outras coisas pela mídia e mesmo assim ganhou o Urso de Ouro. Então creio eu que os filmes da linha de violência ainda têm muito caldo para dar.
05/10/2009
Ana Carolina Santos - diz: Acredito que há sempre algo a ser feito, já que o Brasil foi palco para que cineastas produzissem Cidade de Deus, Última parada 174 e Tropa de Elite. Nessas obras são retratados fatos distintos, mas que envolvem a tão comentada e cotidiana violência. Há a necessidade de encontrar o ponto "diferencial", onde já não se retratem mais sequestros, confronto de facções ou algo que mostre o que estamos cansados de ver. Estamos num país onde cada dia acontece algo de novo e "inacreditável" perante os olhos da lei e do cidadão. A violência não dá trégua e a possibiladade de reinventar e reformular faz com que as produções cinematográficas não deixem de tomar novos rumos.
05/10/2009
Fernando Soares - diz: Alguns pontos da crítica de André Nigri, sobre os filmes de violência no Brasil, dever ter suas ressalvas destacadas. Não concordo quando se diz que os filmes de violência no Brasil estão chegando ao fim, todavia sou obrigado a concordar que ninguém agüenta mais filmes de favela e de violência. Pra fazer um balanço, vamos lembrar de um filme deste gênero no qual considero de uma boa qualidade técnica e uma revolução na estética e linguagem do cinema nacional. Estou falando de Cidade dos Homens. Quem não se lembra dos fatídicos Acerola e Laranjinha? A dupla interpretada por Darlan Cunha e Douglas Silva, respectivamente, tratou de um assunto delicado e polêmico que é a vida nas favelas e o tráfego de drogas, de certa forma bem humorada. Mesmo com a abordagem dos ambientes das favelas que é um tanto quanto pesado, Cidade dos Homens demonstra a fragilidade dos dois meninos, que como milhões de outros meninos, enfrentam o desafio da vida com a ausência da figura paterna. Mais do que apenas uma história bonita, o filme do diretor Paulo Morelli, diferencia-se por trabalhar com o elenco vindo das favelas e assim tornando mais real e fazendo os atores a disporem das suas próprias vivencias, construindo então os personagens. Exemplo são os protagonistas Douglas Silva e Darlan Cunha ( Laranjinha e Acerola ) que de fato vivenciaram a ausência do “pai”. Então consigo chegar uma conclusão de que se a busca do novo, do diferente, da tentativa do reinventar, for o objetivo dos diretores, esse cinema no qual se denomina de filmes de violência, favelas e tiroteios, pode ser ter uma vida mais longa, pois o tema é interessante e atraente e existem diferente formas de ser abordado, visto Cidade dos Homens, que mistura o humor e a violência. Então, vida longa ao cinema realista brasileiro.
05/10/2009
Maria Júlia Lledó - diz: Acho que o cinema de violência não se esgotou. O desafio é se reinventar, porque o tema pode ser abordado de tantas maneiras...Temos que olhar com atenção para o trabalho de Andréa Beltrão e Denise Weinberg. Atrizes que roubam a cena e trazem a dor e confusão do "certo e errado", que cerca a facção criminosa em questão. No entanto, confesso, "sobreviver" a um filme desse gênero requer um certo afastamento da emoção. Até porque é comum acreditarmos que, de fato, não haverá solução para a corrupção e ingerência do governo público. Há sempre algo que falta e pode ser feito...