Revista BRAVO! | Julho/2009
Por Redação
Leia a matéria de Jonas Lopes
A cidade
Tu dizias: "Irei para outras terras, outros mares
em busca de cidade melhor do que esta.
Aqui, todos os meus esforços são natimortos.
Meu coração - amortalhado - aqui se enterrou.
Por quanto tempo minha alma permanecerá no abandono?
Para onde meus olhos se voltem, até onde a vista alcança,
vejo os negros escombros de minha vida,
que vivi, estraguei, destruí aqui".
Não encontrarás outras terras nem outros mares.
A cidade te seguirá. E nas mesmas ruas sem fim
errarás, nos mesmos bairros te perderás,
e nas mesmas moradas teus cabelos embranquecerão.
Onde quer que vás reencontrarás esta cidade.
Para ti nenhum barco, nenhum caminho alhures te levará.
estragastes a vida em toda parte, pelo mundo inteiro,
e mesmo aqui, nesta mínima pátria.
Konstantinos Kaváfis
Tradução: Priscila Manhães
À Espera dos Bárbaros
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinus Kavafis
Tradução de José Paulo Paes
O Leopardo
Cosi fan Tutti
Quarteto nº 14