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O escritor dominicano Junot Díaz, que recebeu o prêmio Pulitzer de ficção pelo romance. De um lado, o popular; de outro, a indústria cultural
O escritor dominicano Junot Díaz, que recebeu o prêmio Pulitzer de ficção pelo romance. De um lado, o popular; de outro, a indústria cultural

 

Revista BRAVO! | Julho/2009

Crítica - As Duas Pontas de Uma Maldição

Em “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao”, Junot Díaz espelha a ditadura de Rafael Trujillo com a vida dos imigrantes dominicanos nos Estados Unidos

Por Heitor Ferraz

Oscar de León carrega uma maldição. Para os habitantes da República Dominicana, ela tem nome e se chama fukú, rogada pelos nativos tainos contra os colonizadores espanhóis. Nos séculos que se seguiram, a expressão acabou servindo para qualquer tipo de maldição. Oscar é apenas um garoto gordo, do tipo nerd, que ama revistas em quadrinhos e livros de ficção científica e, por ser feio, não conquista nenhuma garota. Mas ele é só a ponta de um fio que começou muito antes, com seus antepassados. Mais especificamente com o seu avô, que enfrentou Rafael Trujillo, o tirano que governou a República Dominicana durante 31 anos e, segundo a crença popular, seria um "protegido" da maldição.

Claro que esse resumo brevíssimo não dá conta do universo complexo criado, com muito humor, pelo dominicano naturalizado americano Junot Díaz em A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao. O romance, premiado com o Pulitzer de ficção de 2008, saiu 11 anos depois da estreia do escritor com os contos de Afogado (1997). Durante esse tempo, Díaz elaborou a história desse herói predestinado, um garoto criado em Nova Jersey que sonha com histórias fantasiosas de heróis fortes e esbeltos enfrentando as forças do mal.

Escrito originalmente em inglês e com muitas expressões em espanhol, o livro traz a referência cultural do próprio autor, que também vive o conflito e a mistura destes dois mundos: o da origem familiar e o do imigrante nos Estados Unidos. O destino trágico do garoto e sua formação amorosa frustrada constituem o eixo condutor do livro, mas o pano de fundo que o autor estende da primeira à última página é o regime autoritário e terrorista de Trujillo.

O narrador, Yunior, também de origem dominicana, é o ex-namorado de Lola, irmã de Oscar. É alguém próximo do protagonista, mas também com alguma distância para poder narrar a saga familiar de Oscar na República Dominicana, em busca da origem da tal maldição. Desloca-se no tempo, recapitulando toda a brutalidade de Trujillo (pontuando a narrativa com notas de rodapé), até a fuga da família para os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, se desloca no espaço, indo e vindo de Nova Jersey a Santo Domingo.

A narrativa, envolvente, é escrita com a mesma agilidade dos livros policiais. Mas esse vaivém entre dois mundos aponta, talvez, para dois imaginários que se chocam: de um lado, o popular, nascido com o Novo Mundo, do fukú, com fundo histórico de dominação; de outro, o dos heróis da indústria cultural, cuja dominação é de outra ordem. Um espelhamento brutal que é o ponto mais forte do romance.


Heitor Ferraz é jornalista, editor e poeta, autor de Coisas Imediatas, entre outros livros.

O LIVRO
A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, de Junot Díaz. Tradução de Flávia Anderson. Record, 336 págs., R$ 45.

 

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