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Revista BRAVO! | Julho/2009

Imagens do Exílio

“Os Emigrantes”, uma das principais obras do alemão W. G. Sebald (1944-2001), ganha nova edição no país. Dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um personagem, o livro combina fotografia e prosa – procedimento reproduzido nesta resenha

Por Almir de Freitas

DR. HENRY SELWYN

Numa narrativa curta, Sebald conta que em 1970 alugou em Hingham, na Inglaterra, uma casa "próxima da igreja erigida num cemitério gramado com pinheiros-da-escócia e teixos" (acima). O dono, o médico aposentado Henry Selwyn, contou ao autor ter nascido na Lituânia e emigrado para Londres aos 7 anos, em 1899. Filho de um polidor de lentes, o personagem aprendeu o idioma inglês com facilidade, tornou-se aluno brilhante na Universidade de Cambridge e resolveu esconder sua origem judia, trocando de nome: chamava-se, na verdade, Hersch Seweryn. Tempos depois, Sebald ficaria sabendo que o homem que inspirou seu personagem havia, no fim de um
verão, se matado com sua espingarda de caça.

PAUL BEREYTER

Sebald mistura fato e ficção. Por isso, não se pode ter certeza de que Paul Bereyter, o segundo personagem do livro, foi, de fato, seu professor primário, como ele diz. Filho de pai meio judeu e mãe alemã, Bereyter rumou para a França em 1935 depois de ter sido proibido pelos nazistas de lecionar. Curiosamente, porém, voltou ao país em 1939 e, por ser "3/4 ariano", foi convocado pelo Exército, no qual serviu, ao longo de seis anos, em vários países. "Os anos e as estações se alternavam, um outono na Valônia era seguido por um interminável inverno branco nas proximidades de Berditchev, por uma primavera no departamento de Haute-Saône, por um verão na costa da Dalmácia ou na Romênia, mas sempre se estava, como Paul escreveu embaixo desta fotografia, a cerca de dois mil quilômetros de distância, em linha reta — mas de onde?"

AMBROS ADELWARTH

Depois de uma visita a parentes nos Estados Unidos, nos anos 80, Sebald reconstitui a história de Ambros Adelwarth, um tio-avô do autor que deixou a Alemanha em 1900, aos 14 anos. Depois de ter passado pela Suíça, Inglaterra e Japão, Ambros foi trabalhar como mordomo de Cosmo Solomon, bon-vivant nascido em uma família de banqueiros judeus de Nova York. Juntos, correram o mundo, com Cosmo fazendo fortuna em cassinos. Numa dessas viagens, em Jerusalém, Ambros posou para uma foto com trajes árabes (acima). Cosmo, contudo, começou a enlouquecer durante a Primeira Guerra, morrendo, em 1923, numa clínica para doentes mentais. Ambros continuou trabalhando para a família Solomon e, aos 67 anos, dominado por uma "dor incurável", se internou voluntariamente na mesma clínica, onde também morreria.

MAX FERBER

Numa cinzenta Manchester, com suas torres expelindo fuligem (acima), o artista Max Ferber, o quarto personagem, se sente em casa: em seu ateliê, deixa o pó e os resíduos de tintas se acumularem no chão, uma "torrente de lava da qual Ferber afirmava representar o verdadeiro resultado de seus esforços continuados e a prova mais cabal de seu fracasso". Hoje se sabe que o personagem, um alemão cujos pais morreram num campo de concentração em 1941, foi inspirado no pintor Frank Auerbach. Foi o próprio Sebald quem, inadvertidamente, se denunciou: na primeira edição alemã de Os Emigrantes, Max Ferber se chamava "Max Aurach". Havia também duas imagens adicionais: a reprodução de um quadro de Auerbach e uma foto do olho do artista, que foram eliminadas das edições posteriores.

O LIVRO
Os Emigrantes, de W. G. Sebald. Tradução de José Marcos Macedo. Companhia das Letras, 240 págs., R$ 43.

 

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