
Revista BRAVO! | Agosto/2008
Por Luiz Ruffato
Demonstrando rara consciência de seu ofício, Carol não se deixou seduzir pelos elogios que a acompanham desde então. Formada em publicidade, atuou em agências de propaganda, mas logo abandonou a carreira para se dedicar integralmente à literatura. Hoje, aos 26 anos, é mestranda em teoria literária na PUC-RS e segue trabalhando arduamente em seus textos. Publicou contos esparsos em revistas de circulação nacional (inclusive nesta BRAVO!) e venceu prêmios de revelação literária até, finalmente, sentir-se pronta para seu primeiro livro, Pó de Parede, lançado agora pela pequena Não Editora, de Porto Alegre.
Composto de três histórias que, embora autônomas, têm em comum uma melancólica visão da passagem da adolescência para a vida adulta, o livro consegue apropriar-se desse tema de forma bastante original. Fugindo da banalidade de uma narrativa egóica e linear, Carol constrói personagens verossímeis que vivenciam um mundo reconhecível, por meio de olhares diversos e complementares, e se utilizam de uma linguagem que, como o pó da parede, esconde estruturas sólidas. A Caixa, a primeira história, de carpintaria complexa e escrita densa, tem como personagens Alice e Tomás, pré-adolescentes que se julgam diferentes dos colegas de escola. Alice mora numa casa modernista, conhecida entre os vizinhos, sarcasticamente, como "A Caixa" e desenhada por um arquiteto genial, mas incompreendido. Calada, sente-se excluída por ou chegar "atrasada demais na moda" ou vestir "duas coisas que sim todo mundo está usando, mas não ao mesmo tempo". Já Tomás é "intensamente ruivo com um milhão de sardas", o que gera "um monte de apelidos e implicâncias". A eles, junta-se a ajustada Laura, "bonita, loira e rica", que aos 12 anos parece já ter passado "por tudo na vida" e, em conseqüência, "nada mais a surpreende". De maneira engenhosa, depois de apresentar os personagens, a autora vai desconstruindo a narrativa até desaguar no inusitado destino de Laura.
Filha do período pós-ditadura militar, Carol examina os rumos que certa classe média urbana, consumista e deslumbrada, forjou para si mesma nas duas outras histórias, em que aborda o fascínio contemporâneo pelo simulacro. Em Falta Céu, o cotidiano de uma cidade pequena é transformado pela construção de um condomínio fechado, que tenta reproduzir a liberdade da "vida simples do interior", tão falsa como o sorriso da modelo que posa para os anúncios do empreendimento. Em Capitão Capivara, uma jovem candidata a escritora acredita que, para escrever, necessita de uma "juventude de privações e experiências" e, para tanto, vai trabalhar num hotel tomando conta de crianças.
Pó de Parede é isso, um conjunto de narrativas que se negam a baratear o mundo e buscam compreender "a complexidade inevitável da existência", como afirma o romancista Paulo Scott na apresentação do livro. Vale a pena prestar atenção na trajetória dessa escritora, cujo próximo trabalho, o romance Sinuca Embaixo d'Água, ganhador da Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária, será lançado no ano que vem.
Leia aqui trechos de Pó de Parede, primeiro livro de Carol Bensimon