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Revista BRAVO! | Outubro/2008

Leia trecho do livro "Cordilheira" (2008), de Daniel Galera

Os argentinos se reproduzem por osmose, garantiam meus amigos que já tinham passado pela excruciante experiência de tentar seduzir uma argentina. Volta e meia eu trazia essa teoria à mente apenas para tentar afugentar a imagem que me perseguiu durante todo o vôo para Buenos Aires, a de um homem meio narigudo, magro e atlético, com corte de cabelo estilo mullet, a barba por fazer, cheirando a cigarro, sussurrando cafajestadas em castelhano e despindo seu belo casaco de lã imitado de alguma grife nova-iorquina para então montar em cima de mim e meter com força até esporrear o colo do meu útero e então desaparecer da minha vida. Não era nisso que eu queria pensar.

Pelo menos não o tempo todo. Queria pensar no que diabos ia dizer no dia seguinte, para uma platéia de argentinos que não falam português, a respeito de um romance que por vezes mal lembrava de ter escrito. A edição argentina estava sobre minhas pernas e eu tentava folheá-la de tempos em tempos procurando compreender o que aquele livro ainda significava para mim, mas ele não significava quase nada, era uma história de amor trágica inventada por uma garota que eu já não era. Tinha recebido no dia anterior um e-mail empolgadíssimo do meu editor argentino dizendo que El País havia publicado uma resenha favorabilíssima, que o livro estava distribuído nas livrarias e em todos os estandes da Feira do Livro de Buenos Aires e que um programa de televisão local viria me entrevistar após o evento de lançamento para falar sobre a nova geração de autores brasileiros. Tudo isso me assustava e eu pretendia usar o tempo do vôo para reavivar temporariamente em mim a condição de escritora, algo que já tinha decidido que não era. O problema é que ninguém acreditava.

Pensavam que uma menina que ganha um par de prêmios literários mais ou menos importantes aos vinte e cinco anos jamais poderia deixar de escrever, negando-se a compreender que eu já rejeitava aquele livro como essas mães que rejeitam os filhos, ao passo que para mim a percepção era exatamente inversa. A literatura era passado e, num mundo em que mães rejeitam filhos, eu não conseguia parar por um instante sequer de pensarem ter um.

Fazia três meses que tinha parado de tomar pílula e cinco dias que tinha encerrado um relacionamento de quase dois anos porque o filho-da-puta simplesmente se recusava a me engravidar,por mais que eu implorasse. Apesar de ter quase trinta anos de idade e uma vida profissional que lhe dava estabilidade financeira mais do que necessária, Danilo não pensava em ter filhos nem agora nem daqui a sei lá quantos anos. A palavra filho chegava
a lhe dar certo mal-estar, e ele franzia a testa como se estivesse sofrendo o ataque de um inseto ou como se algum tipo de freqüência sonora quase inaudível porém perturbadora invadisse seus ouvidos. Pior que isso, ele julgava inconcebível que eu desejasse
ter filhos e ao tratarmos do assunto me encarava como se eu fosse uma mutação genética, uma louca ou uma donzela do passado que tinha acabado de viajar para o futuro e pousado no tapete fofinho do estúdio do apartamento dele, em meio a um divã comprado em loja de antigüidades, um pufe vermelho, uma luminária futurista com um imenso braço articulado de metal escovado e lâmpadas dicróicas, duas lava lamps e — e mais um monte de coisa, mas o que importa é que eu amava ficar esparramada no tapete enquanto ele trabalhava no computador, pintando as unhas ou lendo e perturbando-o de vez em quando, e nas três ou quatro vezes em que lhe disse que pensava o tempo todo em ser mãe, que nosso filho seria lindo porque nós dois éramos lindos, que o nome poderia ser esse ou aquele, ele tentava me ignorar e, sendo impossível, dizia:
— Anita, eu realmente não consigo imaginar a gente tendo um filho nesse momento das nossas vidas.
Ou:
— Anita, preciso mesmo finalizar essa animação até amanhã cedo ou vou me foder, é sério.
Ou:
— Como é que você pode pensar em ter um filho agora?
Tá falando sério? Você faz idéia da complicação que é cuidar de uma gestação e depois criar um filho? Não é assim. Daqui a um tempo eu vou comprar um apartamento, não é melhor esperar?
E a sua carreira de escritora? Devia estar terminando um livro novo, escrevendo pra revistas, pra jornais. Tem que aproveitar que você está por cima agora, que a mídia ainda te conhece.
Você escreve tão bem. Você vai ser grande, muito grande. Acho que não se dá conta disso. — Sai da cadeira em frente ao computador e deita do meu lado no tapete. — Sabe por que
que eu te amo? Porque você é linda e talentosa. Tão mais inteligente que as outras pessoas, tão mais inteligente que eu. Mas você está desperdiçando isso. Com vinte e sete anos e fica aí jogada pela casa, toda esculhambada, passando o tempo com bobagem. Sei lá. Escreve, baby. Você é uma escritora. Isso é maravilhoso. Se você deixar o momento certo passar, quando for mais velha vai se arrepender de não ter aproveitado. Vai pensar, eu fiquei
pensando em ter um filho quando era nova, muxoxando pelos cantos, enquanto podia ter feito isso e isso e aquilo e escrito outros livros e ganhado muito dinheiro com minhas idéias.
Podia ter escrito roteiros. Não ia escrever um roteiro pro Marcão? Falei com ele esses dias. Ele tinha adorado seu argumento pro longa. Adorado. Tá me ouvindo? Eu me preocupo com você desse jeito. Faz um tempão que você não faz nada. Lê um pouco, lava a louça, dorme. Eu te admiro tanto. Não quero que seja dependente de mim, sabe. Quero que a gente fique junto,
mas quero te ver com a tua própria vida. Não acha?
— Eu quero um bebezinho...
Com minhas amigas eu também não encontrava muita compreensão. Éramos quatro inseparáveis, eu, Julie, Amanda e Alexandra. Julie era minha irmã desde os tempos de colégio, a irmã que nunca tive, e das três era a que de fato mais procurava entender o que se passava comigo. A família era francesa mas mudou-se para o Brasil quando ela era bebê. Era bailarina, começou a fazer balé antes mesmo de aprender a ler e dava workshops de dança moderna que eram disputados a tapa. Foi a última da turma a brotar peitinhos e quadris, mas quando botou corpo se transformou num mulherão de curvas quintessenciais com um metro e setenta e sete de altura, cabelos loiros translúcidos como fios de náilon e um rosto delicado de nariz e queixo pequeninos, uma potranca com rosto de francesinha. A partir daí, foi alvo de abordagens incessantes de homens de todas as idades, e minha impressão é de que cedia a todos, sem exceção, ao passo que eu exercitava minha seletividade com grande determinação. "Tu as besoin de baiser avec quelqu'un, Anita", me dizia ao perceber que eu estava com raiva do mundo, e ela tinha razão, eu tinha que ter dado para muito mais caras do que dei nessa vida e isso me fazia falta agora. Julie não se apegava aos homens, e o sexo para ela era sobretudo uma questão de vaidade. Cada homem comido não passava de uma afirmação de sua beleza e elegância de movimentos. Não trepar era sinônimo de estar feia e desengonçada como nos anos adolescentes.

Seus casinhos eram classificados como "o fofo", "o gracinha", "o paizão". Assim era a Julie, minha irmãzinha dançarina, e eu a amava. Desde que meu pai morreu, ela era o mais
próximo que eu tinha de uma família.
— Tudo bem, Anita, eu entendo — Julie me disse meses atrás, de madrugada, na casa dela, dando colheradas numa lata de leite condensado fervida. — Acha que eu também nunca tive vontade de ter um filho? Penso nisso de vez em quando. Mas acho que você tá obcecada com isso agora. Não adianta. Você tem um lance legal com o Danilo, mas ele não tá a fim por enquanto, então dá um tempo.

Dei o golpe de misericórdia na segunda garrafa de vinho.
— Não quero dar um tempo. Vou parar com a pílula.
— Danada. Avisa o Danilo, pelo amor de Deus.
— Vou avisar.
— Você é uma menina, Anita. Nós somos meninas. Curte
a vida. Larga o Danilo se cansou dele. É esse o problema? Vai
viajar, escreve um livro. Tu as besoin de baiser avec quelqu'un,
só isso.
— Nós somos mulheres, não meninas. E faz tempo, Julie.
No dia seguinte ela me mandou um link para um site desses
femininos onde respondem perguntas das internautas:
Minha imensa vontade de ter um filho pode atrapalhar
na hora de engravidar?
Isadora, de Vitória-ES
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Resposta:
Você está certa quando diz que a sua "vontade imensa" de ter um filho pode atrapalhar. Isso ocorre porque acima de sua vontade está o seu cérebro que manda em todo o seu corpo e quando as emoções são muito intensas elas passam a acionar necessidades que entram em conflito com as razões. Em casos mais extremos, isso pode alterar até a sua ovulação. Esses bloqueios ocorrem através de ações chamadas de neuroendócrinas.

O equilíbrio entre razão/emoção é fundamental em tudo nesta vida. Procure pensar não só em gerar um filho, mas também em ter uma vida saudável, feliz e tranqüila.

Corra atrás de seus sonhos e realize seus projetos. Tente moderar sua ansiedade. Isso lhe trará benefícios. Difícil? Com certeza. Mas não é impossível!!! 

 

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