Outubro/2009

Mistério na Montanha - Ficção Inédita

Por Reinaldo Santos Neves

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Somos todos ligados à literatura em nossa família. Eu escrevo textos de ficção; minha mulher faz crítica literária. É essa ­- ou era -a nossa família: minha mulher e eu.


Laura Lemos. Conheci-a numa festa. Chamou-me a atenção porque fumava um charuto. Além disso, era inteligente e tinha paixão por literatura.


Saímos juntos da festa e passeamos pelo parque. Depois, de volta a casa, dormi e tive um sonho. Contei-lhe o sonho na noite seguinte. Esse sonho daria um bom texto de ficção, ela disse. Mais tarde fomos para minha casa e minha cama. De madrugada, enquanto ela dormia, sentei-me à mesa da copa e converti num texto o sonho da véspera. Acrescentei uma coisa aqui, outra ali, mas, no quase todo, era o sonho convertido em texto. Que ela leu assim que acordou. O texto não está ruim, disse ela, mas o sonho é melhor.


Ali começamos nossas carreiras, ela de crítica literária, eu de autor de ficção. Ela foi mais longe que eu: fez mestrado, fez doutorado, tornou-se professora universitária. Quanto a mim, não fiz mais do que algumas ficções, um livro a cada três, quatro anos, recebidos com simpatia pela crítica, menos pela crítica de Laura. Era a primeira leitora de meus textos, mas não gostava deles. Gostava da literatura de nossos vizinhos, escrita naquele dialeto -o hispanículo -que arremeda nossa própria língua. Não é dialeto, é idioma, dizia Laura. Não para mim, dizia eu.


Laura escolheu como projeto de doutorado um romance de Tito Hastaluego, Mistério na Montanha. Fez sucesso, a tese, no meio acadêmico. Mereceu, aliás, carta do próprio Hastaluego, escrita naquela língua bufa.


Tempos depois, Laura recebeu uma bolsa para estudar toda a obra de Hastaluego. O projeto incluía uma entrevista pessoal com o grande autor. Viajamos juntos para a Vespúcia. Era um país agreste, e Hastaluego morava na cidade de Sebástol, no meio das montanhas. A estada em Sebástol me incomodou: fazia frio e falava-se aquela língua que me feria os ouvidos como uma paródia da minha própria e, por extensão, de mim mesmo como pessoa, como escritor.


Hospedamo-nos num hotel cercado de pinheiros. Minha mulher deu início à série de entrevistas com Hastaluego. Recusei-me a acompanhá-la à casa dele, no alto de uma montanha. Recusei-me a conhecê-lo. Constrangia-me a condição de escritor menor? A paixão de minha mulher pela literatura naquela língua? Pela ficção de outro que não eu? Não sei. Passava as manhãs caminhando pelas montanhas. À tarde rabiscava um esboço de romance. À noite descia à cidade para ver as putas nas calçadas e tomar um chocolate quente no Bar Moritz. Ali Laura se juntava a mim e subíamos os dois de volta ao hotel.
No hotel conheci um hóspede: Hoyos. Na minha solidão acolhi-o como companheiro. Era de poucas palavras e me acompanhava em meus passeios monteses. Uma noite encontrei-o no Bar Moritz. Vinha da cama de uma puta, onde passara a tarde. Eu estava em minha segunda xícara de chocolate. O garçom trouxe-lhe uma xícara fumegante e, para mim, um telefone sem fio. Era Laura, muito excitada: descobrira a essência da obra de Hastaluego: pernoitaria na montanha para não cortar a inspiração. Hoyos deu um sorriso e disse uma palavra que não entendi. Laura perguntou: Quem está aí com você?. Eu disse quem. Escute, ela disse: Saia logo daí e volte para o hotel.


Ergui-me para sair e Hoyos ergueu-se também. Saímos os dois em silêncio. A noite estava fria e o carro dormitava no estacionamento. Outro carro veio saindo devagar e parou junto a nós. Havia dois homens dentro. O passageiro baixou o vidro: era Tito Hastaluego. O rosto equino, a barba hirsuta, os compridos cabelos, o charuto entre os dentes — eu o teria reconhecido ainda que nunca o tivesse visto nas contracapas de seus livros. Hoyos exclamou: Carajo. Até nossos melhores palavrões eles copiam e desfiguram. A mão de Tito assomou à janela do carro. Empunhava uma arma. Vi os clarões, ouvi os tiros, e Hoyos desabou em terra. Tito encarou-me, a arma apontada para meu peito. Não me movi. Não atirou. Disse alguma coisa ao motorista e foram embora.


A polícia cozinhou-me a noite inteira num interrogatório todo ele versejado naquela língua pejorativa. Hoyos era jornalista influente na capital: Nicolás de Hoyos. Ninguém sabia o que fazia ali em Sebástol, muito menos eu: mas esperavam que eu dissesse. Contei toda a verdade, menos alguns detalhes. Não identifiquei carro nem assassino. Não queria me envolver em questões que não me diziam respeito.


De manhã descobriu-se um corpo de mulher num pardieiro próximo ao Bar Moritz: era a puta com quem Hoyos passara a tarde. Os detetives perderam o interesse em mim e fui dispensado. Quando cheguei ao hotel, Laura já estava lá: soubera de tudo pela outra pessoa envolvida no caso. Aconselhou minha volta imediata para casa. Eu corria perigo. Perguntei: Então ele se arrependeu de não ter feito o que não fez? Não, disse ela; não é ele, são os outros. Querem você morto para não contar o que viu. Mas não contei nada, eu disse; nem vou contar. Nós sabemos, Laura disse, mas eles temem que cedo ou tarde acabe contando. E você, eu disse, não vem comigo? Ela disse que não. Sou o álibi dele. Para todos os efeitos, passou a noite toda comigo. Vai mentir por um assassino?, perguntei. A obra dele vale muito mais que isso, ela disse. Está dormindo com ele?, perguntei. Não, Laura disse, sem se ofender com a pergunta. Foi a pergunta errada. A pergunta certa seria: Está trepando com ele?.


Desci para a capital e procurei ajuda na embaixada. O embaixador era afetado e presunçoso; tratou-me com desdém. Não conhecia meus livros. Conhecia os de Hastaluego, que ocupavam lugar de honra em sua estante, entre os de Gide, os de Hemingway.


Passaram-se cinco anos sem que eu visse Laura. Seu testemunho livrara Hastaluego de processo: além disso, não se descobriu motivo para o crime: Hoyos e ele nem se conheciam. Logo soube que Laura se tornara amante oficial do grande escritor. Vi fotos em que ela aparecia a seu lado. Era respeitada, minha mulher, como especialista na obra de Hastaluego; dava aulas numa universidade de Vespúcia e falava e escrevia no dialeto do país.


Nesses cinco anos recebi cinco cartas de Laura. Que eu me cuidasse, ainda corria perigo. Alguma coisa na primeira carta insinuava que ficara com Tito para me proteger; para saber as intenções dos outros contra mim. Irritou-me ver que já escrevia algumas de nossas palavras na ortografia hispanícula. Mas não mentira ao dizer que eu corria perigo. Duas vezes, nesses cinco anos, tentaram contra minha vida. Escapei, Deus sabe, por milagre.
O que fiz todo esse tempo? Publiquei mais um livro. Estive - meu diário é testemunha - com 47 putas diferentes, o que não é muito em 260 semanas. Não queria saber de namoradas, nem amantes, nem esposas. Ligava, escolhia o tipo físico, consumia, pagava e não tinha obrigações conjugais nem afetivas.


No sexto ano tentaram de novo matar-me. Desta vez o pistoleiro foi abatido por um policial assim que sacou a arma: outro milagre: a quantos ainda me daria direito a lei das probabilidades?


Logo depois recebi carta de Laura. Tito convencera os outros a deixar-me em paz. Queriam, porém, que eu assinasse uma declaração explícita de que não fora Tito Hastaluego o homem que eu vira atirar em Nicolás de Hoyos.


Um mês depois, Hastaluego veio à minha cidade participar de um congresso de literatura. Laura veio junto: sua conferência sobre a obra dele encerraria o congresso. Ligou, queria um encontro comigo. Chamei-a ao chalé onde eu morava, no alto da montanha, que aqui também temos montanhas. Ela veio. Estava mais madura e mais linda. Beijou-me de leve os lábios. Trazia o documento que me cabia assinar. Passou-me uma caneta. Era uma caneta-tinteiro, folheada a ouro, que achei vulgar; sem dúvida, presente de Tito. Assine aqui, disse ela. Vi que o texto estava escrito no dialeto do inimigo: cada palavra escarnecia de mim. Assinei ríspido. Laura suspirou aliviada. Pronto, agora está tudo bem. Lá se foi feliz até a porta da varanda e abriu-a. Tito Hastaluego entrou em minha casa. Trazia um charuto entre os dedos. Levantei-me, o escritor menor diante do grande escritor.


Ele era enorme. A barba tinha fios grisalhos e o cabelo também. Ficamos ali olhando um para o outro. Ele fumando, eu não.


Nunca li nada seu, ele disse, lá na língua dele. Laura disse que não valia a pena.
Também nunca li nada seu, eu disse, na minha língua. Laura disse que valia.


Ele soltou a fumaça de soslaio. Por que nunca contou nada? - perguntou. Aquilo não me dizia respeito, respondi. Vocês, que falam a língua que falam, que se entendam.
Ele estendeu-me a mão, eu a apertei. Então acabou, Laura disse, emocionada. Acabou, Tito disse. Olharam para mim, esperando que eu dissesse alguma coisa. Tirei o revólver do bolso do casaco. Vi o susto nos olhos de Tito. Adivinhei-o nos olhos de Laura.


Isso não está no sonho, exclamou ela.


Mas está no texto, respondi.


E atirei. Ele era enorme. E eu, mesmo sendo um escritor menor, não podia errar.

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Reinaldo Santos Neves é contista e romancista, autor de A Ceia Dominicana: Romance Neolatino (Bertrand Brasil), e escritor residente da Biblioteca Pública do Espírito Santo. O conto Mistério na Montanha faz parte do livro Heródoto, IV, 196, ainda sem data de lançamento.

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12/11/2009

keityene - diz: adorei seu texto é bem simples e bem bonito vc ta de parabéns!


07/11/2009

Adalberto - diz: O link para o conto de Veronica Stigger está vindo para cá. Erro.


04/11/2009

Donna Oliveira - diz: reinaldo é o senhor das palavras. não tenho qualquer dúvida.


14/10/2009

Pedro J. Nunes - diz: Reinaldo Santos Neves é um escritor surpreendente. Ora usa um monte de palavras para contar uma história que se passa em menos de um final de semana, ora usa meia dúzia para contar uma longa história que se passa em mais de seis anos. O bom escritor é assim, põe a palavra a seu serviço, escorreita, nem vírgula nem ponto que as denigra. Por isso: bravo!, revista Bravo!


14/10/2009

Marcos Tavares - diz: SE histórias ,fictícias, de Literatura já me empolgam, essa , acrescida de outro ingrediente que muito me satisfaz, o homicídio, tudo tem para cair no gosto do público ledor. Que venham outros contos desse Reinaldo Santos Neves ? Aliás, não é o mesmo genial autor de " A Grande História "(romance, Ed. Bertrand Russel ) ?


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