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“Così Fan Tutte”, a comédia amarga de Mozart<BR>A desconfiança do compositor sobre a possível traição de sua mulher estaria por trás da ópera, cuja história gira em torno da troca de casais. A obra (na foto, em montagem do Teatro Real de Glasgow, em 2008) foi concebida por Mozart em 1790, um ano antes de sua morte, e difere de sua produção anterior ao representar, segundo Said, um “universo sem esquemas redentores”, no qual a morte é a única saída contra a falta de moral.
“Così Fan Tutte”, a comédia amarga de Mozart
A desconfiança do compositor sobre a possível traição de sua mulher estaria por trás da ópera, cuja história gira em torno da troca de casais. A obra (na foto, em montagem do Teatro Real de Glasgow, em 2008) foi concebida por Mozart em 1790, um ano antes de sua morte, e difere de sua produção anterior ao representar, segundo Said, um “universo sem esquemas redentores”, no qual a morte é a única saída contra a falta de moral.

 

Revista BRAVO! | Julho/2009

Perto do Fim

Em “Estilo Tardio”, Edward Said analisa as obras-primas concebidas por artistas que se aproximavam da morte – e os vários significados que elas podem ter

Por Jonas Lopes

• Confira exemplos de obras realizadas por artistas no fim da vida que inspiraram a coletânea de ensaios

Em seus últimos anos de vida, completamente surdo, fisicamente decadente e embrutecido por problemas amorosos e financeiros, Ludwig van Beethoven (1770-1827) condenou-se à solidão. Foi nesse período de reclusão que o compositor alemão criou algumas de suas principais obras: a Nona Sinfonia, a Missa Solemnis (ambas de 1824) e, sobretudo, os seus últimos quartetos de cordas, como o nº 14 (1825-1826). São obras difíceis e subjetivas. Nelas, Beethoven mistura estruturas clássicas e barrocas e, além de acenar a precursores como Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Haendel, antecipa as inovações do austríaco Arnold Schoenberg, realizadas dois séculos depois.

O exemplo ilustra bem o conceito por trás de Estilo Tardio, uma coletânea de ensaios do palestino Edward W. Said sobre a maneira encontrada por grandes artistas para lidar com a proximidade da morte. Mais conhecido como o autor político do polêmico livro Orientalismo, no qual identificou a construção ocidental de um imaginário parcial sobre o Oriente, Said estudou durante anos as obras pensadas por artistas no fim da vida. Ironicamente, morreu de leucemia enquanto trabalhava no texto, em 2003.

Os artigos, então, foram reunidos por Michael Wood, colega de Said na Universidade Princeton, em Nova York, para compor o volume que, lançado em 2006, agora chega ao Brasil. Por ter permanecido inacabado, Estilo Tardio é impreciso, heterogêneo e, às vezes, conta com exemplos contraditórios, alguns até forçados. Um exemplo é o escritor francês Jean Genet, que parece ter sido incluído apenas por ter militado em favor da criação do Estado palestino.

Boa parte da análise deriva das ideias de Theodor W. Adorno, o primeiro a investigar os efeitos da condição tardia — em um ensaio, justamente, sobre Beethoven. Para o sociólogo alemão, a fase final do compositor representa uma ruptura violenta com peças de sua fase romântica, como a Terceira Sinfonia (Eroica) e a Quinta Sinfonia. Consciente da chegada da morte, Beethoven teria conferido a seu processo criativo uma espécie de "caráter trágico".

Para Said, o que interessa são os exemplos de artistas que subvertem seus idiomas na maturidade, não importa que caráter tenham. Logo na abertura, ele faz uma separação entre aqueles que, a exemplo de Beethoven, adotaram uma postura catastrófica, sem nenhuma harmonia ou serenidade, e aqueles que na velhice escolheram um caminho de reconciliação, melancolia ou resignação. Um exemplo desse tipo de estilo tardio seria observado em A Tempestade (1613), do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), em que o personagem Próspero abandona o desejo de vingança contra antigos desafetos e afirma, no fim, que, de cada três pensamentos, um será dedicada ao túmulo. Caso semelhante seria Édipo em Colono, peça em que o grego Sófocles (496 -406 a.C.) apresenta a velhice do antigo rei de Tebas, assassino do próprio pai, arrependido de seu passado e em busca do perdão dos deuses.

SEM REDENÇÃO E FUTURO
Outros casos do livro, contudo, não se encaixam nessas duas vertentes. Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), por exemplo. Em seus últimos anos, o compositor austríaco vivia uma situação semelhante à de Beethoven: saúde precária, falta de dinheiro e conflitos com a mulher, Constanze. Nesse período, trabalhou no Réquiem e nas óperas Don Giovanni e A Flauta Mágica. Em sua análise, Said se concentra na comédia Così Fan Tutte (1790), tida por críticos como uma peça menor. O palestino encontra indícios de que a desconfiança de Mozart sobre uma possível traição da mulher teria influenciado o libreto, escrito pelo italiano Lorenzo Da Ponte. A história da troca de casais e as confusões que se seguem, apesar da música bem-humorada, são tratadas de maneira amarga. A ausência de moral com que os amantes lidam com os relacionamentos, conclui a ópera, advém do fato de que todos seguem agindo dessa forma. O título, algo machista, só se refere ao sexo feminino — pode ser traduzido livremente como As Mulheres São Todas Iguais.

Così Fan Tutte não é um trabalho experimental, que contrasta dramaticamente com as composições do passado, como foi o caso de Beethoven com a Nona Sinfonia. Tampouco é resignado e reconciliatório. A consciência do fim aparece, na opinião do escritor, na visão do "universo destituído de qualquer esquema paliativo ou redentor, cuja única lei é ditada pelo movimento e pela instabilidade e cujo único termo é o repouso final da morte".

Outro caso, bem diferente, é O Leopardo — e Said trata tanto do livro póstumo do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), publicado em 1958, quanto da versão cinematográfica de Luchino Visconti (1906-1976), levada às telas cinco anos depois. A morte relatada é a da aristocracia siciliana personificada pelo Príncipe de Salina, último de sua linhagem, que observa a derrocada da nobreza e a ascensão burguesa em meio à luta pela unificação da Itália, no século 19. A inclusão de O Leopardo em Estilo Tardio se deu pela "sensação de mortalidade" que envolve o enredo. Nem poderia significar um rompimento na carreira de Lampedusa: é seu único romance. Visconti, por outro lado, viveria mais de uma década após o filme. Foi naquele momento, contudo, que ele, segundo Said, abandonou o neorrealismo de filmes como A Terra Treme (1948) para assumir sua origem nobre em filmes épicos e grandiosos sobre a aristocracia, como Morte em Veneza (1971) e Ludwig (1972).

A transição entre duas eras também é explorada na obra do poeta greco-alexandrino Konstantinos Kaváfis (1863-1933), cujos versos se dividem entre comentar a cidade egípcia de Alexandria de seu tempo e exaltar a saudosa potência dos tempos helênicos. Essa "sobrevivência mínima entre o passado e o presente", explica Said, cria um efeito de exílio constante que é, em sua opinião, mais uma manifestação do estilo tardio. "Em Kaváfis, portanto, não há futuro."

São, como se vê, casos distintos, de uma obra visivelmente inacabada na sua formulação. A falta de unidade conceitual de Estilo Tardio, contudo, tem a vantagem de permitir ao leitor invocar livremente vários outros casos. Na pintura, pode-se pensar nos exemplos do espanhol Francisco de Goya (1746-1828), que, pouco antes de morrer, fez a assustadora série Pinturas Negras, com imagens de monstros e bruxas; e do holandês Rembrandt, autor de autorretratos tocantes nos quais sua velhice irrompe no rosto enrugado. Ou, em outra junção entre literatura e cinema, no caso do cineasta John Huston, que dirigiu Os Vivos e os Mortos (1987), adaptado de um conto de James Joyce do livro Os Dublinenses. O diretor concebeu o filme nos últimos meses de dia, sentado numa cadeira de rodas e rodeado de tubos de oxigênio.

No Brasil, um bom exemplo é Machado de Assis, que publicou o crepuscular Memorial de Aires no mesmo ano de sua morte, em 1908, sofrendo havia quatro anos com a morte da mulher, Carolina. "Creio que este será meu último livro", escreveu ele em carta ao também escritor Mário de Alencar, na época em que finalizava o romance. Ainda assim, Machado conseguia ver no trabalho a solução para a doença e o enfado. "A arte é remédio, e o melhor deles", garantia ao amigo. Uma frase que, talvez, dê a unidade que falta a Estilo Tardio.


Jonas Lopes é jornalista de Veja São Paulo.

O LIVRO
Estilo Tardio, de Edward W. Said. Tradução de Samuel Titan Jr. Companhia das Letras, 192 págs., preço a definir.

 

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