Por Denise Mota
De pijama azul-claro, o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, nascido há um século e morto em 1994, passou os últimos anos de vida quase sem sair da cama. Não parava de ler livros policiais, que empilhava perto da cabeceira, fumava e bebia vinho tinto, companhia substituída posteriormente por uísque. Mais do que os problemas hepáticos, era o desinteresse pelo mundo exterior que o segurava no leito.
Hoje, quando fala do pai, a única filha de Onetti, Isabel María, mantém a voz tranquila e procura não desperdiçar palavras. São 3h da tarde em Buenos Aires. Aos 59 anos, a professora de inglês - que ganhou do romancista o apelido de Litty - conta pelo telefone como se dedica a harmonizar duas facetas até então inconciliáveis de sua existência: a vida regrada instituída por influência da mãe, a jornalista holandesa Elizabeth Pekelharing (de quem o autor se separou quando Isabel tinha 2 anos), e o legado paterno de indomável instabilidade emocional. "A literatura de meu pai é muito corrosiva. Quem o lê não sai a mesma pessoa. Comigo isso também aconteceu. É o poder que têm os clássicos", explica Litty ao mencionar a enorme perturbação que a inundou depois de mergulhar nas obras completas do escritor, uma aventura empreendida somente a partir dos 30 anos. As frequentes ausências do pai, em contraposição à estreita convivência com a mãe, terminaram por deixar na professora um ressentimento em relação ao modo de viver de Onetti - incômodo que só agora busca equacionar. Preguiçoso, mulherengo (casou-se quatro vezes), alcoólatra e depressivo, o uruguaio dizia escrever apenas para seu próprio prazer e vício. Assim mesmo, criações como a novela Para uma Tumba sem Nome (1959), que, dedicada a Litty, acaba de ser publicada em português pela Planeta, lhe garantiram o Prêmio Cervantes de 1980 e o transformaram em nome maiúsculo das letras hispânicas. Distante da realidade objetiva, o universo do autor é habitado por personagens que inventam histórias para si ou para os outros, circundados pelo fracasso e pela decadência. Demasiado livre para rotinas familiares, demasiado intenso para não marcar indelevelmente os que lhe eram próximos, o escritor disse uma vez a Litty, sobre o amor que lhe devotava: "Não haverá nenhum outro". Foi contra tal onipresença afetiva que a professora lutou a fim de conseguir sobreviver como ser autônomo. Hoje, após muitas viagens, leituras e reflexões, o romancista preferido dessa viúva portenha, mãe de quatro filhos adultos, continua a ser
o francês Marcel Proust, o mesmo que encabeçava a lista de favoritos de Onetti. Nenhum outro. Denise Mota é jornalista.