Artic Monkeys - Perdidos no Deserto

O que acontece quando uma banda britânica é exposta ao sol inclemente da Califórnia? Ela começa a falar de lobos, águias, buracos de cobras - e faz ótima música

Por José Flávio Júnior

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O disco é do Arctic Monkeys, banda inglesa formada por rapazes de vinte e poucos anos que se juntaram no meio desta década, impulsionados pela internet, e rapidamente começaram a colecionar discos de platina. Mas o protagonista é Josh Homme, americano, quase quarentão, líder do grupo Queens of The Stone Age. Figura muito influente na cena roqueira atual, Homme passou os últimos dez anos recusando convites para produzir discos de outras bandas. Só que, quando foi chamado para pilotar o terceiro trabalho do Arctic Monkeys, ele disse sim.

Conforme declarou à revista inglesa Mojo, Homme sentiu que o quarteto procurava por estranheza - e isso é algo que ele sabe muito bem onde encontrar. O músico americano levou os garotos de Sheffield para a Califórnia. Mais especificamente para Joshua Tree, cidadezinha localizada no deserto de Mojave, onde está o estúdio Rancho de la Luna. Estúdio caseiro, diga-se, em que a bateria é gravada na sala de estar e os amplificadores ficam empilhados no banheiro. Lá foram registrados o primeiro e inigualável disco homônimo do Queens of The Stone Age (de 1998) e todas as Desert Sessions - jams que, capitaneadas por Homme, acabam virando CDs espetaculares.

O que aconteceu com o Arctic Monkeys nesse ambiente foi uma completa transformação. Musicalmente, Humbug não lembra em nada o que o grupo lançou antes. Nenhuma das músicas é tão urgente (e boba) quanto I Bet You Look Good on the Dancefloor, primeiro grande hit dos ingleses. A velocidade das composições caiu pela metade. Quase nunca o ouvinte é capaz de identificar se está ouvindo um rock ou uma balada. O clima é psicodélico, remetendo a bandas obscuras dos anos 60 e ao próprio Queens of The Stone Age (principalmente nos timbres ardidos de guitarra e nos corinhos ao fundo). A aridez do deserto está impressa em canções como Secret Door, que teve sessão de gravação numa arena de observação de discos voadores próxima ao Rancho de la Luna (sim, a Califórnia, como a cidade mineira de Varginha, supostamente visitada por um ET, tem dessas coisas...).

Na quentura do Mojave, as historinhas bem amarradas que consagraram o cantor Alex Turner como letrista tinham pouco ou nada a ver. Então ele escreveu um punhado de versos indecifráveis, com recorrentes citações a animais (lobos, águias, buracos de cobras). A única letra fácil de decodificar é a de Cornerstone, uma das três faixas produzidas por James Ford, parceiro do grupo nos dois primeiros discos. É sobre saudade.

Mais do que uma aposta numa sonoridade diferente, Humbug é uma viagem. Deve causar desconforto nos fãs de primeira hora do grupo, mas dará enorme prazer para quem gosta do mundo estranho de Josh Homme - e os quatro rapazes de Sheffield estão nessa turma.

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José Flávio Júnior é jornalista.

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