
Revista BRAVO! | Setembro/2008
Por José Alberto Bombig
Ao fuçar certo dia a biblioteca da família, Jovino Santos Neto se deparou com um exemplar autografado de Alma do Nordeste, livro de 1936 do folclorista C. Nery Camello, "mosca branca" nos sebos de São Paulo e Rio. Na folha de rosto, em letras firmes, desenhadas de próprio punho pelo autor, estava a dedicatória que trazia o nome, ainda que incompleto, do pianista carioca, radicado em Seattle (EUA) desde 1993: "Para a alma nordestina do Jovino Santos". Embaixo, a data de 20 de julho de 1943. A descoberta do exemplar dedicado ao avô engendrou uma outra busca. Nascido no Rio de Janeiro, Jovino sempre esteve ligado espiritual e artisticamente ao Nordeste, seja por meio de seus antepassados, seja pelo fato de ter acompanhado durante anos o alagoano Hermeto Paschoal, o Bruxo da música instrumental brasileira.
Em maio do ano passado, Jovino trocou Seattle pelo agreste, Zona da Mata, sertão Alagoas, Paraíba, Pernambuco. O relato da viagem é o CD Alma do Nordeste, lançado pelo selo Adventure Music, uma "transcriação" livre do trabalho de Camello, entremeada pelas impressões colhidas pelo músico durante duas semanas. Foram 1,3 mil quilômetros que resultaram em 13 composições, ainda que algumas já estivessem prontas antes da pequena odisséia, devidamente registrada em imagens (www.picasaweb.google/jovinosantosneto).
De técnica apurada, o pianista demonstra leveza e precisão em praticamente todos os ritmos emblemáticos do Nordeste: maracatu, baião, forró e tantos outros. Sempre, no entanto, com sólida base jazzística, na melhor tradição do fusion faixas como Amoreira e Donkey Xote são ótimos exemplos nesse sentido.
A verve nordestina herdada do avô e apurada com o Bruxo permeia belas composições, sendo as mais destacadas nesse quesito Festa na Macuca e Saudade de Sua Gente, que abrem o trabalho. A faixa-título traz um belo arranjo de pifes e referências diretas aos vaqueiros, ao sertanejo ser antes de tudo um forte e a um Corisco que não aceita se entregar, como no filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol. Outro ponto alto é a seleção de músicos: Toninho Ferragutti (acordeão), Dudu Lima (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Gabriel Grossi (gaita), Durval Pereira e Thiago da Serrinha (percussão) e Carlos Malta, Eduardo Neves e Marcelo Martins (sopros).
"Transcriações" ou "transposições" (para usar um termo bem na moda em se tratando de Nordeste atual por conta do futuro do rio São Francisco) costumam resultar em trabalhos modorrentos, quase sempre pedantes e muitas vezes indecifráveis. Mas o livro que inspirou Jovino, um compêndio de causos, poesias, receitas e curiosidades encontrados por Camello durante suas andanças, é definido pelo próprio pianista como "despretensioso". O disco dá impressão semelhante. É essa a sua maior qualidade.
O CD
Alma Nordestina (Adventure Music), do pianista Jovino Santos Neto.
Preço médio: R$ 35.