Por Paula Nadal
A foto ao lado foi tirada em novembro de 1948. Em meio a 5 mil soldados e tanques de guerra, o jovem maestro Leonard Bernstein, então com apenas 30 anos, regia do piano a recém-nomeada Orquestra Filarmônica de Israel em plena frente de batalha. Na ocasião, Beer Sheva, cidade localizada no deserto do Neguev, havia sido recuperada pelas tropas israelenses após intenso conflito com o Egito. A Filarmônica de Israel é um raro caso de orquestra que, de tempos em tempos, deixa a sala de concertos para tocar em zonas de conflito. Atualmente, o conjunto - que se apresenta em várias cidades brasileiras neste mês de agosto - tem como prioridade auxiliar no processo de paz entre palestinos e israelenses. Antigo defensor de um acordo no Oriente Médio, o regente titular da Filarmônica, o indiano Zubin Mehta, sonha um dia reger o "concerto da paz". Ele até já escolheu a música que tocaria na ocasião: a Quinta de Beethoven. A história do mais político dos conjuntos sinfônicos começou em 1934, quando o violinista judeu Bronislaw Huberman, nascido na Polônia, deu os primeiros passos para a criação da chamada Orquestra Palestina (o Estado de Israel ainda não havia sido criado). Ele convenceu 75 músicos judeus perseguidos pelo nazismo - em sua maioria, spallas e solistas de grandes orquestras, vindos de países como Alemanha, Polônia, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos e Suíça - a imigrar para a Palestina. Também foi capaz de convencer o lendário maestro Arturo Toscanini - que nessa época morava nos Estados Unidos por ser abertamente antifascista - a reger os primeiros concertos da nova orquestra. A première aconteceu em 26 de dezembro de 1936, em um espaço organizado próximo ao porto de Tel Aviv, diante de um público de 3 mil pessoas. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Orquestra Palestina firmou-se no Oriente Médio. Tocou em Tel Aviv, Jerusalém e Haifa. Foi quando começou, também, sua atuação em zonas de conflito. O conjunto promoveu concertos ao ar livre, em pleno deserto, para tropas de soldados judeus e das forças aliadas. O Estado de Israel nasceu em maio de 1948, e, com ele, a Orquestra Palestina tornou-se oficialmente a Filarmônica de Israel, ou IPO, abreviatura de seu nome em inglês. Na cerimônia de proclamação do Estado, lá estavam os músicos para executar a Hatikva - o hino nacional do novo país -, tendo como cenário o Museu de Tel Aviv. Nos anos que se seguiram, a IPO consolidou-se como embaixadora cultural da nova nação. Excursionou pelos Estados Unidos e Canadá com Bernstein, fez a primeira turnê pela Europa e conheceu a China sob a batuta daquele que seria um dos grandes mentores da Filarmônica até os dias atuais, Zubin Mehta. "A orquestra promoveu a diplomacia e chegou a lugares onde o governo de Israel não era capaz de chegar. Tudo em nome da paz", disse o maestro indiano em entrevista a BRAVO!. Em 1967, as fronteiras com o Egito e com a Jordânia foram bloqueadas por tropas árabes. Israel atacou, e, em seis dias de combate intenso, estabeleceram-se novas frentes de batalha. A Guerra dos Seis Dias deixou Israel sem luz, e os concertos da Filarmônica passaram a ser matinais. Uma das apresentações mais emblemáticas deu-se logo após o fim do conflito, quando Bernstein regeu no monte Scopus, em Jerusalém, a Sinfonia nº 2 de Mahler, intitulada Ressurreição, com solos do violinista Isaac Stern e a presença dos cabeças do governo israelense. Reconhecida como uma entidade pacífica, a orquestra jamais sofreu algum ataque ou atentado. Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, a IPO continuou tocando mesmo nas noites em que havia toque de recolher. A casa do conjunto, o Mann Auditorium, atravessou incólume as intifadas de 2000 e 2008. Nascido no mesmo ano da Filarmônica de Israel, Zubin Mehta é diretor artístico da orquestra desde 1969. Ele chegou a Tel Aviv em um avião carregado de munição. "Quando entrei no avião, vi as caixas, mas não sabia do que se tratava. Descobri que eram balas e explosivos quando já estávamos no ar", lembra o maestro. Em suas mãos, o conjunto decidiu tocar pela primeira vez em Berlim. Zubin Mehta regeu a Hatikva a 500 metros do Reichstag - o palácio do Parlamento alemão, de onde saiu boa parte das diretrizes para o massacre contra os judeus no Holocausto. Mehta quebrou outro tabu em 1981, quando dedidiu tocar em Israel um trecho de Tristão e Isolda, obra-prima de Richard Wagner - músico cujas ideias antissemitas ajudaram a inspirar o nazismo. Antes da execução, o maestro fez um breve discurso alegando que todo tipo de música deveria ser interpretado no país. O combinado era que os instrumentistas não reagissem às manifestações da plateia. Logo no início da execução, várias pessoas gritaram. Algumas se retiraram do concerto, e um sobrevivente do Holocausto chegou a levantar-se, abrir a camisa e mostrar cicatrizes sob gritos de horror. Mesmo assim, a obra foi executada até o final. Esta será a sétima vez em que o conjunto faz apresentações em cidades brasileiras. Serão, ao todo, nove concertos (leia abaixo). No programa estão as Sinfonias nº 6 e nº 7 de Beethoven e as obras Don Juan e As Aventuras de Till Eulenspiegel, de Richard Strauss. Daqui, a Orquestra segue para mais oito concertos na Argentina, no Uruguai e no Chile.
Paula Nadal é jornalista.
ONDE E QUANDO
Orquestra Filarmônica de Israel, sob regência de Zubin Mehta.
Paulínia/SP: 8 e 12/8, às 20h, no Teatro Municipal de Paulínia (av. Prefeito José Lozano de Araújo, 1.551, tel. 0++/19/4062-0121); 16/8, às 16h, no Parque Brasil 500 (tel. 0++/19/3844-7488);
São Paulo/SP: 9/8, às 20h (concerto beneficente da Congregação Israelita Paulista), e 10 e 11/8, às 21h, na Sala São Paulo (pça. Júlio Prestes, s/nº, tel. 0++/11/3323-3966).
Ribeirão Preto/SP: 15/8, às 21h, no Teatro Pedro II (r. Álvares Cabral, 370, tel. 0++/16/3977-8111).
Rio de Janeiro/RJ: 13/8, no Teatro Oi Casagrande (r. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, tel. 0++/21/2511-0800).
Curitiba/PR: 17/8, às 20h30, no Teatro Positivo (r. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300, Campo Comprido, tel. 0++/41/3317-3000).