Novembro/2009

Villa-Lobos - Os Violoncelos devem Soar Como Pandeiros

Na hora de tocar e reger Villa-Lobos, ser brasileiro faz toda a diferença

Por Roberto Minczuk

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Tinha apenas 11 anos e já tocava trompa como freelancer quando ouvi pela primeira vez uma música de Heitor Villa-Lobos ao vivo. Estava participando de um concerto com a orquestra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e o Prelúdio da Bachiana Brasileira nº 4 fazia parte do programa. Eu, no entanto, não o executava, por se tratar de uma peça para cordas. Limitei-me a escutá-lo e fiquei deslumbrado. Àquela altura, o alemão Johann Sebastian Bach já era meu grande herói. Imagine, então, minha surpresa ao me deparar com o prelúdio de Villa-Lobos e descobrir que nosso maior compositor dedicou grande parte de sua vida a escrever no estilo de Bach, ainda que sem abrir mão de suas raízes brasileiras.

Logo passei a ouvir todas as gravações possíveis da Bachiana nº 4 e, depois, das outras Bachianas. Foi por essa época que ganhei uma bolsa para estudar em Nova York, na Juilliard School, uma das melhores academias dos Estados Unidos. Eu conhecia bem a obra de Villa-Lobos quando um professor da escola apareceu num ensaio com a partitura do Quinteto em Forma de Choros. A peça é originalmente para fagote, oboé, flauta, clarinete e corne-inglês. Como não havia corne-inglês na sala, me dispus a executar a parte dele com a trompa - afinal, são instrumentos que soam em regiões parecidas. O professor disse: "Duvido que você consiga tocar isso na trompa". Na aula seguinte, fui lá e toquei. Diante do espanto do professor, expliquei: "Como eu não conseguiria? O Villa é de minha terra!".

Na hora de tocar e reger Villa-Lobos, ser brasileiro faz mesmo diferença. Entre todas as orquestras com as quais trabalhei, certamente as que melhor executaram obras dele foram a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e a Sinfônica Brasileira (OSB), que dirijo agora. Em vários momentos das Bachianas, você ouve claramente o ritmo de um pandeiro - só que construído por um naipe de violoncelos. De que modo você vai fazer uma orquestra estrangeira compreender que aquilo ali tem de soar como um pandeiro? Já na Bachiana nº 5, é necessário que o segundo movimento soe como um samba. O maestro precisa ter ginga, precisa saber qual nota deve ser mais longa ou mais curta. Outro bom exemplo é o terceiro movimento da Bachiana nº 8, que tem de soar como o hino do Corinthians - ou, pelo menos, tão apaixonadamente quanto uma torcida cantando um hino de futebol.

Há pouco tempo, encontrei uma gravação rara de O Naufrágio de Kleonicos, poema sinfônico concebido por Villa-Lobos em 1916. É uma obra tremendamente influenciada pela música francesa do período, com ecos de Ravel, Debussy e Satie. Anos depois de a escrever, o compositor participou de um sarau em Paris com várias personalidades, como o poeta Jean Cocteau e o próprio Satie. Começou a improvisar ao piano, e Cocteau se indignou: "Isso aí eu já ouvi. Isso não tem nada de original". A partir de então, Villa percebeu que a brasilidade deveria ser um componente fundamental de sua música. A brasilidade e a pesquisa de timbres. Em alguns momentos, fica difícil precisar a sonoridade que o compositor quer. Uma ocasião, ele estava regendo a OSB, e não havia jeito de o flautim achar o som que o maestro desejava. Nervoso, o músico colocou o bocal do instrumento no nariz, soltou o ar e falou para o colega ao lado: "Só falta ele me pedir para fazer algo assim". Villa, que conversava com outra pessoa, ouviu o ruído inusitado e exclamou: "É isso! É isso!". Na noite do concerto, o músico teve que tocar o flautim com o nariz.

Villa-Lobos foi um homem de seu tempo na medida em que soube utilizar o marketing como poucos. Transitava no Rio de Janeiro, em Paris, na Broadway, em Hollywood e, fora do Brasil, usava a seu favor o que há de anedótico na brasilidade. Em outra de suas músicas, o Choros nº 10, ele chegou a inventar um dialeto indígena para o coro cantar. É por essas e por outras que ainda faz grande sucesso no exterior. Certa vez, à frente da Orquestra Filarmônica de Calgary, no Canadá, apresentei um programa com Bach e Villa-Lobos que recebeu uma ovação como eu nunca tinha visto antes, com nenhum outro repertório. O público ficou de pé! Apesar dessas reações, a música do Villa ainda é menos tocada do que deveria, talvez por falta de apoio oficial. Governos de países europeus, como a Finlândia, incentivam a execução das peças de seus compositores nacionais. Infelizmente, Villa-Lobos nunca mereceu tal atenção do nosso governo.

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Roberto Minczuk é diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e da Orquestra Filarmônica de Calgary, no Canadá. Gravou a integral das Bachianas com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp.

Podcast sobre o compositor e agenda de eventos

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23/11/2009

Carlos Theobaldo - diz: BATUCADA BRASILEIRA CLÁSSICA – Villa sempre foi comprometido com o projeto nacional. Por esse motivo foi convocado pelo governo Vargas. É a nossa música atravessando barreiras com sua marca (clássica batucada tupiniquim). Villa-Lobos par lui-même é um bom exemplo da qualidade de quem viveu música. Ao identificar-se com as características de nossa brasilidade (todo brasileiro leva o suingue na mente), Villa coloca um pouco de nosso espírito no sangue da música, nossa cultura, nossa identidade (palavra tão desgastada nos dias que correm, mas por falta de lembrança, a única que veio a mente). Colocar nossa cultura expressa assim é levar o projeto nacional vivo e abrasador aos corações dos que, com sensibilidade, perceberão o toque de gênio nesse som que encanta.


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