
Revista BRAVO! | Julho/2009
Por Valmir Santos
Veja a galeria de imagens O Teatro de Rua do Galpão É um momento especial para a trupe mineira. Ao mesmo tempo em que retorna às ruas, o Galpão chega também ao cinema: 13 atores do grupo estão em cena no documentário Moscou, do diretor carioca Eduardo Coutinho, que estreia no mês que vem. O filme trata de um grupo que ensaia As Três Irmãs, drama do russo Anton Tchekhov dirigido dentro do próprio filme por Enrique Diaz (leia texto na pág. 88). Diaz é mais um dos diretores convidados do Galpão, que sempre se orgulhou de ser um grupo de atores, sem um grande encenador à frente — algo comum na Europa, mas raro no Brasil, em que as trupes se articulam em torno de encenadores carismáticos como Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa. Quando não são dirigidos por convidados, os espetáculos são produto de uma concepção coletiva ou comandados por um de seus integrantes. É o caso de Till, a Saga de um Herói Torto, dirigida pelo ator Júlio Maciel. Arquétipo do anti-herói popular, Till Eulenspiegel é personagem de um ciclo de histórias da literatura medieval. O personagem vaga pela Europa do século 14, em meio a guerras, peste e fome. Esse camponês desvalido, porém, se revela um "velhaco, ordinário e embusteiro". Pesquisador da comédia popular, Abreu transporta esse Till invernal — que serviu também de mote para um poema sinfônico do compositor alemão Richard Strauss — para os trópicos do Macunaíma de Mário de Andrade, fazendo referência também a João Grilo e Chicó, protagonistas do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A montagem lança mão das técnicas e formas tradicionais do teatro de rua, herdadas da secular commedia dell'arte e seu jogo de improviso combinado com recursos do circo e da música. Os atores cantam e tocam, entram e saem pelas laterais, fundos e alçapões do próprio tablado erguido a cerca de um metro do nível da rua. Acostumado a plateias de 2 mil a 3 mil pessoas em praças de Belo Horizonte, o Galpão procura zelar pela acústica, com microfones individuais, e pela visibilidade da cena a partir dos mais variados pontos em que o espectador se posicionar. O desafio técnico, contudo, é o de menos. Quando um artista se propõe a pisar a praça, ele sabe que poderá comunicar-se com cidadãos de todas as classes ou idades, inclusive quem normalmente não tem oportunidade de frequentar os edifícios teatrais. O desafio maior, assim, é buscar aquela clareza própria das grandes obras de arte, as que almejam ser entendidas por todos. Segundo Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão naquele ano de 1982, o teatro de rua restitui ao teatro o papel desempenhado na sua origem, na Grécia antiga, quando o espaço público era o centro de toda a sociedade.
Quando o Grupo Galpão nasceu, há 27 anos, seus integrantes ambicionavam popularizar o teatro sem baratear temas ou linguagens. A inspiração vinha do Teatro Livre de Munique, que, numa passagem por Minas Gerais em 1982, promoveu uma oficina de interpretação na rua. As habilidades de atuação dos atores do Galpão, que hoje beiram o virtuosismo em sua arte, foram assim lapidadas em montagens ao ar livre. Desde 1997, no entanto, quando encenou Um Molière Imaginário, o Galpão vem atuando em teatros, utilizando prioritariamente a casa de espetáculos de propriedade do grupo em Belo Horizonte. Neste mês, na estreia da 18ª montagem de sua trajetória, o Galpão volta às suas origens com a comédia Till, a Saga de um Herói Torto, peça de Luís Alberto de Abreu. Encenada na rua, como nos primórdios do grupo.
Valmir Santos é jornalista e crítico de teatro.