A montagem de Noite de Reis, que o grupo teatral Cia. As Graças leva agora às ruas e praças de São Paulo, resgata um lugar que sempre foi de William Shakespeare (1546-1616) em sua época: o de um dramaturgo atento à sociedade e ao poder de comunicação de suas peças. O resguardo elitista das salas fechadas e cheio de modos, que veio depois, tem pouco a ver com a marca de um gênio que conseguiu dar profundidade de pensamento a tramas acessíveis, principalmente em comédias.
No projeto Circular Teatro, é este Shakespeare popular que volta à cena, tendo como palco um ônibus dos anos 60, adaptado e equipado com luz e som, para levar o espetáculo a diversos bairros da cidade. Na trama de Noite de Reis, típica das comédias de erros, a náufraga Viola perde-se do irmão gêmeo Sebastian na ilha de Ilíria. Para sobreviver, disfarça-se de homem, mas acaba se apaixonando pelo duque de Orsino, governante do lugar. Os dois "homens" - Orsino e Cesário, nome que Viola adota - se tornam amigos e falam, de forma teórica, sobre suas paixões. Esses diálogos contêm alguns dos mais belos versos sobre o amor da literatura mundial. Os atores da Cia. As Graças no palco itinerante, um ônibus dos anos 60 adaptado. A peça tem algumas das mais belas canções escritas por Shakespeare
No ônibus-palco do grupo, formado pelo teto do veículo e por uma plataforma ao seu lado, o diretor Marco Antônio Rodrigues dedica- se a explorar o inusitado do espaço. Desenha na cena o ritmo intenso da dramaturgia, criando soluções que, no vai-e-vem e no sobe-e-desce da ação, mantêm a platéia cativa. O que, diga-se, não é pouco para o teatro feito nas ruas, em que o interesse está sujeito à dispersão. Mesmo numa comédia, a sofi sticação da linguagem de Shakespeare pede atenção.
O som e o ritmo
Noite de Reis começa com uma refl exão sobre a arte dos sons ("Se a música é o alimento do amor, toquem! Dêem-me o excesso dela para que, empapuçado, eu perca o apetite", numa tradução livre) e tem algumas das mais belas canções escritas por Shakespeare. Numa peça assim, a direção musical é importantíssima - e Lincoln Antonio se mostra à altura da tarefa. Ainda que se trate de uma adaptação, o elenco cumpre com efi ciência a missão de manter o equilíbrio entre o ritmo cômico dos personagens e o vocabulário clássico de suas falas, o que é outro trabalho difícil. Em geral o resultado é muito bom e o espetáculo quase sempre alcança a graça e, por vezes, a melancolia que o texto propõe. O riso está no acidental dos encontros amorosos que, por fi m, mostram-se frutíferos. O melancólico fi ca por conta de certa visão cética sobre o amor, tomado como coisa de circunstância. Todas essas variantes estão presentes na montagem que As Graças apresentam agora, ainda com o charme de levar Shakespeare para a cidade inteira.
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