Em abril de 2006, a Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo completava 11 anos de existência com motivos para comemorar. O grupo, finalmente, passava a ser reconhecido fora de Brasília, cidade onde surgiu prova disso foi o convite para participar do
Programa do Jô, da Rede Globo. A entrevista, que por si só deveria render boa propaganda em rede nacional, provocou, entretanto, uma divulgação ainda maior. Um dos quadros apresentados no Jô foi colocado por um espectador no blog Jacaré Banguela, e o grupo se transformou da noite para o dia e involuntariamente em um fenômeno da internet. Mais de 10 milhões de internautas se renderam a Joseph Klimber, personagem da peça
Os Melhores do Mundo que, perseverante, resiste a toda sorte de calamidades.
"Em um dia, avançamos o equivalente a dez anos de trabalho. Nossas apresentações tomaram proporção de shows de rock", diz Victor Leal, um dos cinco integrantes da trupe. A Cia. Os Melhores do Mundo fechou um contrato com a Warner Music para gravar um DVD. O grupo, que em seu início de carreira se esforçava para preencher teatros de 300 e 400 lugares, passou a ocupar casas com capacidade para 2 mil e 3 mil pessoas. Eles contabilizam nove apresentações lotadas no Canecão, no Rio de Janeiro, e nove semanas de temporada no Citibank Hall, em São Paulo. Em outras capitais do país, repete-se a rotina de ingressos esgotados.
"Acabou a necessidade de ser contratado por uma emissora para poder mostrar seu trabalho. Basta uma câmera e uma boa conexão de banda larga", afirma Leal, que mantém acesso direto com os fãs por meio de um blog e da comunidade do grupo (com mais de 27 mil integrantes) no Orkut. "Isso ajuda na divulgação dos espetáculos e projetos, além de funcionar como um feedback da platéia", completa.
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A ascensão meteórica de Os Melhores do Mundo não é exceção na realidade pós-YouTube. O fenômeno virtual tem beneficiado principalmente peças de esquetes, com personagens e números produzidos, como os do Os Melhores do Mundo, e de humor tipo stand-up - aquele em que o artista aparece sem representar nenhum personagem, sem maquiagem ou figurino, munido apenas de microfone.
Graças à internet, integrantes de grupos como O Clube da Comédia Stand-Up, de São Paulo, e Clube da Comédia em Pé, do Rio de Janeiro, fi zeram sucesso em carreira-solo. É o caso de Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Fernando Caruso. Diogo Portugal, com seu show híbrido que mistura diversos formatos de humor, é outro talento nascido da web. "Participei de alguns programas de televisão em rede nacional que me deram ótima visibilidade, mas depois que essas apresentações caíram no YouTube, a coisa passou a ter outra dimensão", conta.
Como bem diz o veterano da comédia Marcelo Mansfield, a internet faz pelo humorista hoje o que o circo fez pelo Piolin e o cinema pelo Mazzaropi. Atualmente, seja ao lado de Rafinha e outros no Clube da Comédia Stand-Up, seja no espetáculo-solo
Nocaute, ele é um dos responsáveis pelo atual boom do stand-up no Brasil. "Hoje, e-mail é RG e quem não tem site é sem-teto", diz Rafinha. O humorista se beneficia do poderoso boca-a-boca virtual desde 1999, quando iniciou a carreira e começou a fazer site. Para ele, a web é um veículo único para fidelizar fãs, já que gera interesse instantâneo no usuário.
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Rápido e rasteiro
Além de ser um poderoso meio de divulgação para seus realizadores, a internet também foi decisiva para a consagração do stand-up e da comédia de esquetes, que se espalharam pelos teatros do país (
leia quadros ao longo desta reportagem). A comédia de esquetes remonta à década de 40, época do Teatro de Revista espetáculo tão popular quanto é hoje a novela das 8, que intercalava quadros de humor com números musicais. Mas foi só nos anos 1980 que essa forma de entretenimento passou a ser independente, quando um movimento alternativo começou a nascer em bares, com artistas apresentando pequenas cenas de humor.
Grace Gianoukas, diretora artística, idealizadora, atriz e roteirista do Terça Insana, iniciou assim sua carreira em São Paulo, em 1984. Trabalhava como garçonete e, entre uma bandeja e outra, apresentava seus números. "Desenvolvi a linguagem do Terça Insana dessa maneira", diz ela. Grace foi cobaia de sua própria criação. Aprendeu na marra que para chamar a atenção do público são necessários quadros rápidos e visualmente impactantes.
Em pouco tempo, com o reforço de um time de primeira linha de comediantes, formado por Angela Dip, Mansfield, Octavio Mendes, Giovanna Gold, Arthur Khol, Renato Caldas, entre outros, os quadros de humor ganharam os teatros. Celso Curi abriu as portas de seu Espaço Off para espetáculos de esquetes, assim como outros pólos de teatro alternativo da época, como o Aeroanta e o Madame Satã. Em 1985, Grace montou com Angela Dip e Mansfield o grupo Harpias Mansfield, embrião do Terça Insana, espetáculo que se tornou, em 2001, exemplo de comédia bem-sucedida para toda a geração. "Por meio do sucesso do Terça Insana, os comediantes perceberam a existência de um novo fi lão de entretenimento. No Brasil todo há espetáculos no formato do Terça Insana
. O mesmo acontece agora com o stand-up", diz Mansfield. A linguagem rápida e acessível dos espetáculos de quadros de humor e do tipo stand-up parece ter nascido para a correria do mundo de hoje, mas está presente nas representações populares desde o teatro grego. "A Grécia antiga não produzia apenas a dramaturgia que chegou documentada para nós", diz a diretora, pesquisadora e professora de teatro brasileiro da Unicamp Neyde Veneziano. "Números soltos e fragmentados, feitos não para pensar, mas para divertir, existem desde essa época", afirma.
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A rapidez exigida pela disputa de espaço e público de rua no século 5 a.C. parece se ajustar à perfeição com a cultura de mídia da atualidade. "A gente não está mais na cultura de massa, estamos na cultura de mídia", diz Neyde. Na primeira, as obras tinham de ser niveladas pela média, para abarcar o gosto de todos os espectadores; na segunda, com a explosão das mídias, há uma diversidade para atender ao consumo individualizado. Thais Ferrara, atriz, palhaça e diretora artística dos Doutores da Alegria, explica o boom desse tipo de "humor em gotas" pelo fato de ele acompanhar o ritmo de vida contemporâneo: "As pessoas têm pressa até para se divertir. O tempo interno de todo mundo diminuiu, assim como a paciência: hoje temos que clicar num mouse e ver alguma coisa acontecer imediatamente", diz.
Um comediante
stand-up chega a fazer uma piada a cada 15 segundos. Há poucos anos o número era bem diferente. Humoristas de peso da segunda metade do século passado, como Ary Toledo e Costinha, arrancariam de seu público bocejos caso se apresentassem hoje em dia. "Eu estava assistindo ao Ary Toledo na TV Record outro dia e contei no relógio: demorou quatro minutos para a piada ter graça.
O mundo mudou", diz Rafinha Bastos. Para se tornar artista nos tempos atuais, "basta" talento, site e microfone. Se hoje qualquer aspirante a humorista tem a seu favor um mundo mais democrático, é fato também que o espectador aumentou suas exigências. É preciso atualizar blog, página de Orkut e principalmente o YouTube com material novo a todo momento para não perder o público conquistado", diz Mansfield. Como conseqüência, a internet exige um exercício até então não praticado pelos humoristas. "Ela é o grande veículo que a gente ainda tem para experimentar linguagem. Isso é rejuvenescedor", diz Grace. Para comemorar os seis anos do Terça Insana, no fim do ano passado, ela produziu uma série de esquetes inéditos com os personagens mais famosos do grupo, veiculada exclusivamente na internet, pela TV UOL.
O ciclo da comédia é vitorioso. Com artistas talentosos e mais bem capacitados, público mais exigente e numeroso graças à contribuição da web, criadores e consumidores do humor só têm motivos para o riso. O futuro dirá se o formato da internet é viável também para outros gêneros do teatro, como o drama.
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