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NO TEATRO Larry Kert e Carol Lawrence na primeira montagem de West Side Story na Broadway, em 1957. A temática da intolerância racial foi uma revolução na época
Outra dificuldade, tanto hoje como então, é selecionar os cantores-atores adequados. Ainda citando Lauro Machado Coe lho, "só um verdadeiro tenor lírico consegue fazer jus aos si-bemóis de uma canção como Maria. Por outro lado, a peça apresenta, para cantores líricos normais, grandes dificuldades: vozes empostadas não dão conta de um número como Gee, Officer Krupke, e um trecho esfuziante como I Like to be in America fica muito melhor quando interpretado descontraidamente pelos atores-cantores da Broad way". Em 1984, Bernstein gravou West Side Story com cantores de ópera o tenor José Carreras e a soprano Kiri Te Kanawa. Nessa gravação, a dificuldade foi fazer o espanhol Carreras ocultar o sotaque no papel do americano Tony ele não conseguiu, mas mostrou todo o seu virtuosismo numa canção difícil como Maria. Já a neozelandesa Kiri foi mais bem-sucedida em cantar com sotaque espanhol, no papel da porto-riquenha Maria.
Brigas de gangues, orquestra grandiosa, partes vocais que só podiam ser interpretadas por cantores de ópera: era muita novidade junta para agradar imediatamente a um público atônito. West Side Story obteve apenas um sucesso moderado, com 732 apresentações. Só em 1961, quando a Metro transformou a peça em um fi lme campeão de bilheteria, em grande parte graças às sensíveis interpretações de Nathalie Wood e Rita Moreno, que a obra-prima de Bernstein recebeu o reconhecimento que merece, fi nalmente livre do muxoxo condescendente com o qual certa aristocracia intelectual insistia em blindar seu território contra novidades.
Ópera sem preconceito
Quais as diferenças entre a ópera e o musical? Quais são os limites dentro dos quais se pode afirmar que determinada obra pertence a um ou outro gênero? A estréia brasileira de West Side Story é uma boa oportunidade para refletir sobre essas questões particularmente agudas quando se analisa o teatro musicado norte-americano , pois Leonard Bernstein foi um dos principais responsáveis por remover a rigidez do muro que separa os dois modelos. Filho de uma família de judeus ucranianos estabelecidos na cidade de Lawrenceville, no estado de Massachusetts, onde nasceu em 1918, Bernstein foi um dos musicistas mais talentosos e importantes do século 20. Grande compositor (uma infinidade de peças escritas, entre as quais duas óperas, uma opereta, quatro musicais e três sinfonias), grande maestro (o primeiro norte-americano a ser nomeado diretor da Orquestra Filarmônica de Nova York), pianista e conferencista, suas incessantes atividades e sua genialidade só terminaram com a morte, em 1990.
O ecletismo era, em Bernstein, uma segunda natureza e um componente cultural. Ao contrário do que se pode pensar tendo em vista sua carreira erudita, ele só chegou à ópera depois de passar pelos musicais. Era um músico sem preconceitos, com uma mentalidade aberta em relação a todos os gêneros capaz de obter resultados brilhantes em quaisquer das áreas da música às quais viesse a se dedicar.
Bernstein começou sua trajetória nos palcos em 1944 com Fancy Free, um balé sobre três marinheiros que passam 24 horas em Nova York. O espetáculo foi tão bem recebido pelo público de Nova York que Bernstein resolveu transformá-lo em um musical, On the Town. Seu trabalho seguinte para a Broadway viria a nascer sete anos depois, agora sim uma ópera: Trouble in Tahiti, uma visão sarcástica sobre a mediocridade e a complacência da vida típica de um casal de classe média americana de subúrbio. A peça pode ser enquadrada na categoria de Zeitoper (literalmente "ópera do tempo"), um tipo de ópera alemã do século 20 em que se abordam temas da atualidade, utilizando ou parodiando música popular contemporânea. E Bernstein, para isso, era extremamente hábil. Na peça, utilizava um coro grego para enquadrar as cenas, mas o fazia cantar em forma de jingles radiofônicos. Além de marido e mulher, o terceiro personagem é um trio de cantores de jazz que canta as alegrias do subúrbio antes de cada discussão do casal um pouco autobiográficas, evocando os pais do compositor, que também escreveu o libreto.
Seguiram-se Wonderful Town, musical concebido em torno da atriz Rosalind Russell, em 1955, e, no ano seguinte, Candide, baseado na novela homônima de Voltaire. Candide nasceu musical e sofreu inúmeras cirurgias plásticas até tornar-se, com sua apresentação na Ópera de Nova York em 1982, uma opereta, classificação que hoje lhe é atribuída. Bernstein nem sequer teve tempo para prestar atenção ao fracasso inicial de Candide, pois já havia se entregado, de corpo e alma, à elaboração da obra com que hoje o público mais o identifica que é, justamente, West Side Story.
O compositor Stephen Sondheim, cujo primeiro trabalho na Broadway foi escrever as letras das canções de West Side Story, autor de musicais e de óperas que ele não gosta que sejam chamadas de óperas, tem uma frase memorável: "Eu realmente penso que quando uma peça é apresentada na Broadway é um musical, e quando é apresentada num teatro lírico, então, é uma ópera. É isso aí". Quando disse isso, Sondheim, com toda a certeza, pensava em West Side Story.
SERGIO CASOY é professor conferencista da cadeira de História da Ópera da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Autor de Ópera em São Paulo 1952-2005, Óperas e Outros Cantares e A Invenção da Ópera A História de um Engano Florentino.
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