A s relações entre espaço, tempo e memória são as bases que defi nem o trabalho do Grupo XIX de Teatro. Em suas duas primeiras peças, o cenário era o Brasil do século 19: em Hysteria (2001), que retratava internas de um hospício, o tema era a condição da mulher; em Hygiene (2005), o cenário era um cortiço carioca, num momento em que a política sanitária se confundia com exclusão social. Nos dois casos, o grupo encontrou em Vila Maria Zélia, um antigo bairro operário da zona leste de São Paulo, um palco simbólico.
É nesse endereço, como resultado dessa mesma linha de pesquisa, que Arrufos é encenada. Na terceira montagem do grupo, o tema são as relações amorosas no Brasil — o título da peça, que se refere a desentendimentos amorosos, foi tirado de um quadro de 1887 de Belmiro de Almeida. Dividida em três partes, os séculos 18, 19 e 20, Arrufos ilustra histórias e épocas distintas para estudar o seu objeto.
Em vez do lugar aberto das montagens anteriores, o tema levou o grupo liderado pelo diretor Luiz Fernando Marques a se concentrar em uma sala fechada. Em torno do pequeno palco, há uma arquibancada vermelha de ferro, com almofadas duplas para acomodação de casais e abajures controlados pelos espectadores. Está formada a alcova.
Irreverência e fragmentação
Os três atores e as três atrizes encontram ao longo da apresentação oportunidades iguais de brilho. Chama a atenção a encenação da segunda história, quando a peça demanda irreverência e dinamismo de todos os intérpretes, que precisam se deslocar e manusear com precisão figurinos inventivos e peças do cenário. Nessa parte, a interação com o público rende seus momentos mais engraçados e inteligentes. O trabalho de direção musical, de Gustavo Kurlat, merece menção pelo efeito que cria nessa mesma parte — os personagens masculinos executam pequenos números musicais, que se alternam com as trocas de confissão e brincadeiras das personagens femininas.
Igualmente feliz é a representação do amor no século 20. Dispersos e distanciados um dos outros pela arena, os atores não contracenam: ficam ensimesmados, cada um com seu caso pessoal. A fragmentação provocada surpreende ao modificar o ritmo da cena, lançando fios de histórias para os espectadores — até então habituados a uma narrativa mais tradicional. Pelas nuances e oposições tão bem desenhadas nesta montagem, fica evidente que o Grupo XIX de Teatro já ocupa um lugar destacado entre as jovens companhias brasileiras. Carrega no próprio nome um exercício da memória; e, no palco, a criação conjunta do que há de melhor na cena contemporânea.
HELIO PONCIANO é jornalista e crítico de teatro.
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