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O primeiro foi marcado pela peça A Vida É Cheia de Som e Fúria, adaptação do romance Alta Fidelidade, de Nick Hornby. O espetáculo, que misturava literatura, música, cinema e artes visuais no palco, ganhou o Prêmio Shell em 2000 e deu a seu diretor o status de grande revelação entre os encenadores brasileiros. A partir daí, no entanto, em vez de firmar um estilo, Hirsch partiu para diferentes experimentações, numa trajetória acidentada.
O segundo momento de sua carreira é marcado por altos e baixos, uma crise profissional e uma polêmica. Em 2002, o diretor estava no Rio de Janeiro montando Como Aprendi a Dirigir um Carro, peça da norte-americana Paula Vogel, com Andréa Beltrão e Paulo Betti, e não se reconhecia. "Contava os dias para sair da cidade e não conseguia ensaiar mais de duas horas", diz. Estava inteiro com a razão, mas sem emoção: "Me vi fazendo teatro tecnicamente, estava faltando alguma coisa". Surpreso com o próprio desinteresse e insatisfeito com o processo de criação e o resultado do trabalho, parou. Passou o ano de 2003 longe dos palcos, repensando a própria história. Aproveitou que a companhia foi apresentar A Vida É Cheia de Som e Fúria na Europa e lá ficou, pensando na vida e no teatro. "Precisava recuperar a paixão que sentia quando era garoto", diz.
A polêmica foi a montagem de Educação Sentimental do Vampiro, peça baseada na obra de Dalton Trevisan que foi acusada de plágio pelo diretor Gerald Thomas. Em seu blog, Thomas afirmou, agressivamente, que o espetáculo copiava Trilogia Kafka e Carmem com Filtro, peças de 20 anos atrás. A estética de Educação..., como a que consagrou Thomas nos anos 80, criava uma atmosfera sombria, abusava de fumaça, da luz diáfana e do preto. "Eu não quero acreditar que houve maldade, mas falta de percepção, precipitação", diz Hirsch. Ele atribui a confusão ao conceito expressionista do espetáculo. Explica sua opção pelo fato de Poty, o maior ilustrador de Dalton Trevisan, ser influenciado por este movimento artístico. "Me irritei, sou humano.
Mas preciso acreditar no meu trabalho, que está amplamente demonstrado nos quase 15 anos da companhia." Sua terceira fase, que começa agora, seria justamente a tentativa de reencontrar o teatro em outras linguagens. Hirsch inicia sua viagem com uma ópera que mais se parece peça musicada. O Castelo do Barba Azul, de Béla Bartók, apresenta apenas dois intérpretes em cena. "Às vezes, ensaiando, me sentia fazendo o teatro mais íntimo possível", diz ele. Se dirigir os cantores não o iluminou com novas sensações, a experiência de lidar com 90 instrumentistas foi intensamente inovadora. "Coloquei músicos até na coxia", conta ele, obrigado a aperfeiçoar o alemão e a habilidade de ler partituras.
Hirsch absorve com sabedoria as novas vivências. "Entendo tudo isso como um bom material de estudo." Inso-lação, filme que começa a rodar em breve, com estréia prevista para o ano que vem, também o abastece com o novo. Foram nove versões de roteiro, que tem autoria de dois dramaturgos norte-americanos, Sam Lipsyte e Will Eno este último, autor de duas peças encenadas pela Sutil, Temporada de Gripe e Thom Pain Lady Grey, que foi indicada ao Pulitzer em 2005.
Hirsch ainda não sabe para onde vai ou de que forma o teatro será benefi ciado por seus pulos. "Eu desconfi o que seu objetivo maior seja realizar um trabalho que o deixe fascinado. Uma obra que sobreviva à própria crítica que é implacável", diz Daniela Thomas. Para ela e para o público , Felipe Hirsch já avisa que vai decepcionar quem esperar repetição de linguagens ou estética. Promete criar obras com potência de vida capaz de acompanhar o espectador durante toda a sua existência.
| DICA DO DIA | |
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