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Marco Nanini: Vários. Comecei pelo Roberto Jefferson. A dramaticidade dele naquela época do escândalo do mensalão foi digna de um ator. Peguei também o Tancredo Neves, Juscelino Kubtischek, João Goulart, Severino Cavalcanti e Fidel Castro. Pesquisei muitas fotos de todos eles, porque a imagem fala muito. Queria entender através da pesquisa de imagem como esses homens, verdadeiros atores, interpretam no teatro da política. Quando fi z a primeira leitura da peça original, vi que ela estava atualíssima. O político brasileiro ainda tem a herança do coronelismo. Apesar de provocar alguma simpatia no espectador, Odorico é um aproveitador, alguém que vende a alma para conseguir inaugurar o cemitério. É um pouco o que a gente vê hoje com boa parte dos políticos.
Tem gente que se elege só para fazer o mandato, e não governar. Você está decepcionado com a política brasileira?
Estou. Votei no Lula no primeiro mandato, mas não no segundo. Não gosto, por exemplo, da aproximação deste governo com Cuba e com a Venezuela. É um retrocesso extraordinário.
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Mas o governo atual não tem nada de bom?
Como, por exemplo, a estabilidade econômica? Lula diz que a estabilidade da economia vem do governo dele. Ele esquece que os ajustes econômicos começaram durante o mandato de Itamar Franco. O Lula está embriagado com a fama. Aliás, todos os presidentes ficam.
Dos nomes que estão no cenário, quem seria o seu candidato?
Cristovam Buarque é um político que me chama a atenção, porque ele é muito ligado à educação. Tenho um namoro político com o Ciro Gomes. Mas acho estranho o Ciro nunca ter feito algum tipo de crítica ao governo Lula. Isso me deixa um pouco em dúvida.
Por que ele não critica nada?
Qual sua opinião sobre o desempenho do governo na área da cultura?
Eu me decepcionei. Trabalho desde os 13 anos, primeiro em hotel, depois em banco. Só depois me tornei ator. Tive uma vida muito dura. Morava em um quarto alugado em casa de família no Flamengo, no Rio. Tinha duas calças e três cuecas. Lavava uma para usar a outra. E de repente, nesta gestão, sou visto como um privilegiado, que não tem direito a nada. Quando alguém como eu leva um projeto ao Ministério da Cultura, já é visto como um réu.
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"PELAS POSIÇÕES DO MINISTRO DA CULTURA, A ELITE DEVERIA SER EXCLUÍDA. MAS ELE NÃO É ELITE TAMBÉM? ELE PODE? SÓ O PT PODE?"
Quem vai julgar o seu projeto é alguém que contesta, por exemplo, o fato de você querer contratar um diretor de arte e um cenógrafo. Pior, quem julga é sempre um leigo, porque os funcionários de carreira foram afastados.
Como você vê a postura do Ministério da Cultura em relação a tudo isso?
Pelas posições do ministro, a elite deveria ser excluída. Mas ele é elite também. Então ele pode?
Só quem é do PT pode?
Fazer produção de teatro hoje, no Brasil, é uma empreitada dura. Você luta contra vários inimigos. As pessoas se esquecem de que no teatro há aqueles que dependem do salário. Uma peça não se faz apenas com artistas. Tem o costureiro, a camareira, os técnicos. Todos têm família para sustentar. Teatro gera bastante emprego. A elite também gera emprego.
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O que poderia ser feito para melhorar, em sua opinião?
Melhor seria se criar uma agência nacional reguladora de teatro, como é a Ancine. Ela regulamenta todo o mercado cinematográfi co do país. Assim, as produções de teatro não dependeriam dos humores de cada governo que entra.
A bilheteria não garante um bom retorno para o produtor? Afinal, o ingresso do teatro é caro
Se você comparar com os preços lá fora, não é caro.
Mas você não acha caro para o rendimento médio do brasileiro?
É caro, sim. Mas existe a carteirinha do estudante. Ela virou um comércio. Você, eu e todos nós podemos comprar uma carteirinha de estudante. Podemos comprar várias, aliás. Como todo mundo tem carteirinha de estudante e paga meia-entrada, você tem de levar isso em consideração no custo final de uma peça. Assim, todos os espectadores acabam penalizados.
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Por que não deixar que o mercado estabeleça suas próprias promoções?
Com a televisão você está mais satisfeito?
A TV hoje é mais comercial. E acho que, sob essa ótica, ela está bem. Além disso, tem a TV a cabo, que oferece mais oportunidades para produções independentes.
Como você avalia o sucesso de A Grande Família?
A série já tinha sido sucesso anteriormente. O que ela tem é uma dramaturgia forte desde a sua criação. Os personagens são reais, bem construídos. Há famílias em Shakespeare, Plínio Marcos, nas novelas. Tudo tem a família. Isso aproxima o telespectador. Além disso, a realização foi feliz. O elenco tem disciplina de convivência, uma equipe técnica apurada e redatores criativos o que é essencial, porque é muito difícil inventar uma situação por semana.
Você é um ator consagrado na televisão, no cinema e no teatro. É também um bom espectador?
Não sou. Pelo contrário. Eu não vou ao cinema há muito tempo. Compro tudo em DVD. Comprei somente agora o Tropa de Elite e O Cheiro do Ralo. Vejo tudo em casa. Quando vejo filme em casa, eu paro, volto. Fico nervoso. Tenho acompanhado as produções nacionais muito de longe.
Com a TV é a mesma coisa. Quase não vejo nada. Quando estou assistindo a algo na TV, fico avaliando se a gravação foi feita antes ou depois do almoço, e não consigo entrar na fantasia. Gosto mais de ler.
O que você costuma ler?
Autores como Nelson Rodrigues, por exemplo, por conta da sagacidade. Mas ainda não consigo ler Machado de Assis. Tenho de resolver isso antes de morrer.
Por falar nisso, como você gostaria de ser lembrado?
Eu não tenho a menor pretensão de ser lembrado, porque vamos todos ser esquecidos. Ainda mais nessa minha profissão. Se fosse um cientista que tivesse descoberto a cura de alguma doença, talvez. Mas a minha profissão é perecível.
A fama não garante eternidade?
A fama é cruel, porque ela é fugaz. E é cega. É uma conseqüência, não pode ser um objetivo.
| DICA DO DIA | |
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