No rol dos intérpretes mais célebres do teatro brasileiro, Cleyde Yáconis — assim como a irmã, Cacilda Becker (1921-1969) — ocupa já faz um bom tempo um lugar no primeiro time. A intensa atividade da atriz de 84 anos, e de mais de 50 de carreira, somente reafi rma esse status. Desta vez, Cleyde encara um papel que expressa com justeza as suas qualidades: seu personagem em O Caminho para Meca, escrito pelo sul-africano Athol Fugard e dirigido por Yara de Novaes, simboliza uma artista sem freios.
O texto se inspira na vida de uma outsider sul-africana, a escultora Helen Eliza beth Martins (1897-1976), e desenha um drama calculado. A visita repentina de uma admiradora (interpretada pela atriz Lúcia Romano) à artista plástica quebra a sua rotina solitária e instaura um confl ito. Aos poucos, revela-se o motivo do encontro e da preocupação da hóspede: Helen tem problemas de saúde a esconder. O clímax se dá com a chegada do pastor (Cacá Amaral), quando o embate de interesses e idéias do espetáculo fi - nalmente se efetiva.
O SOPRO FINAL DE UMA VELA
Não é fácil para a direção cuidar de todos os temas dos quais a obra de Athol Fugard tenta dar conta. Ao longo dos 90 minutos do espetáculo, questões como segregação racial giram na órbita do drama daqueles três personagens; descrita por eles, mas não representada, a marginalização social na África do Sul também aparece. Cabe ao público atentar também para a cenografi a, que tem de equilibrar a quantidade e a dimensão dos objetos em cena: o fato de a protagonista ser uma artista plástica e ter esculturas no jardim traz um desafi o para esse plano técnico. A iluminação corre o mesmo risco de perder expressividade com o mínimo deslize. Se a casa é iluminada por velas, todo o cuidado é pouco com a intensidade e a mudança de foco.
O desempenho de Cleyde Yáconis, no entanto, ao mesmo tempo supera e compensa qualquer senão que talvez possa ser percebido no espetáculo. Desde a primeira fala até a última resposta e o sopro fi nal de uma vela, a atriz expõe — para usar um verbo caro a Helen — uma variedade invejável de oscilaçõesde temperamento, voz e postura. Mesmo que o papel e o enredo possam ser ideais para o seu momento, e quase soem como uma homenagem involuntária, há difi culdades e sutilezas na composição que somente uma atriz de seu porte poderia enfrentar
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